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VIVA SEM MODERAÇÃO

VIVA SEM MODERAÇÃO

VIVA SEM MODERAÇÃO
Por Paulo Solmucci

Conexões não são relacionamentos. São apenas contatos superficiais e facilmente apagáveis – ou deletáveis, como queira. Fazem parte do mundo da internet. O fato de alguém estar conectado na rede social, por meio do Facebook, do WhatsApp ou do Twitter, também não significa que essa pessoa inseriu-se no universo das inovações viabilizadas pela tecnologia.

A ferramenta tecnológica só é apropriada por qualquer um de nós quando, a partir dela, promovemos inovações e melhorias. A ferramenta não é nada em si. Só ganha relevância quando é produtivamente utilizada. Um Macintosh valerá pouco para mim mesmo, e muito para um designer gráfico. Esse profissional conseguirá realizar, hoje, proezas que um designer dos anos 1980 – por mais genial que fosse – não conseguia fazer de jeito nenhum.

A imagem e o texto eram estáticos. Com os recursos da era digital, o designer irá muito além, juntando imagens, textos, vozes, gráficos e possibilidades de compartilhamentos, inclusive prescindindo do jornal, da televisão e do rádio, fazendo a mensagem fluir nos diversos e simultâneos canais da rede.

O indivíduo da conexão é um passivo usuário da máquina, ainda que troque mensagens. Esse sujeito pode estar conectado com tal intensidade que chega ao ponto de até ficar viciado, tão viciado quanto um toxicômano. Torna-se uma compulsão que desumaniza o humano.

O Centro Psiquiátrico do Hospital das Clínicas dispõe de um núcleo de tratamento dos viciados em internet. A tela anulou uma imensidão de jovens e adultos. Sequer interagem no pessoal. Ninguém está mais conectado do que eles. Se o objetivo é conectar, a meta foi aí integralmente alcançada.

Exaltemos a tecnologia, sim. Mas aquela tecnologia que se põe a serviço da inovação e da melhoria da qualidade de vida.

Nós da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes somos desde sempre os inventores das conectividades consequentes, que resultam em autênticos relacionamentos. Isto é: relacionamentos que tecem o organismo social, no sentido mais amplo, aberto e diversificado.

Os ancestrais mais longínquos dos bares e restaurantes são as tabernas da era medieval, onde se davam as conversas e os congraçamentos. Os tempos mudaram muito. Hoje, em lugar das tabernas, há cafés, lanchonetes, bistrôs, bares e restaurantes. São muito mais do que polos de conexão. Vão bem além. São polos de relacionamentos, irradiadores de vida, de conversas olho no olho, face a face.

Muitos desses bares e restaurantes de hoje estão repletos de tecnologia nas cozinhas, na gestão financeira, no marketing, no atendimento. Com o adequado uso das ferramentas deste início do século XXI, obtém-se um resultado visível, perceptível, que é o melhor atendimento, o incremento das vendas, a redução dos custos, a oferta de produtos e serviços a preços muito mais acessíveis.

A mais elevada missão dos bares e restaurantes é propiciar aconchegantes e calorosos espaços dos encontros pessoais, abrindo ampliadas possibilidades de humanização do humano.

Por tudo isso, sobretudo na Europa, tornou-se razoavelmente comum que bares e restaurantes não disponibilizem o wi-fi para a conversa. Eles colocam cartazes bem vistosos com dizeres assim: “No. We do not have wi-fi. Talk to each other!”.

Os donos de bares e restaurantes europeus dão as boas-vindas à sua clientela amiga com cartazes que dizem de forma muita clara: “Não. Nós não temos wi-fi. Conversem entre si!”.

Que haja moderação nas conexões da rede social. Vamos conversar, olhar, rir e brindar. Os bares criam rede de encontros, de conversação, de compartilhamentos das observações cotidianas. São lugares para se molhar a palavra.

Viver é conviver. Viva sem moderação.

Paulo Solmucci

Paulo Solmucci

Paulo Solmucci - Presidente da ABRASEL (Associação brasileira de bares e restaurantes).

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