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Uma disputa entre o povão e os moradores dos condomínios

Uma disputa entre o povão e os moradores dos condomínios.

São Paulo cresceu horizontalmente, o que faz com que a sua média de ocupação populacional seja de 100 habitantes por hectare. Em Paris, essa densidade é de 230 habitantes por hectare. O fato ainda mais grave é que São Paulo continua se espalhando, puxada pelos condomínios residenciais. Deve-se sublinhar que esse fenômeno perverso está acontecendo na grande maioria das cidades brasileiras, até em pequenos balneários. E por que é perverso? Simples: o dinheiro para levar a infraestrutura aos afortunados é o que falta para melhorar a infraestrutura do povão. Como os recursos são sabidamente escassos, o lobby dos ricos sempre vence a chiadeira dos pobres.

Uma disputa entre o povão e os moradores dos condomínios

O empreendedor imobiliário adquire uma área barata no cafundó, onde há matas, cascata e ar puro, sem gente por perto, porque gente incomoda. O loteamento logo se transforma em uma antologia de casas espaçosas, com varandas de frente para o horizonte sem fim. Daí a pouco, são vários os condomínios na região. Lá para aquele caixa-pregos se esticam as redes de água e de luz, as estradinhas pavimentadas, os serviços públicos.

Uma disputa entre o povão e os moradores dos condomínios

Sim, aumentou a necessidade de mais serviços públicos para atender ao antigo vilarejo situado naquelas bandas dos condomínios, em uma das dobras da montanha. O remoto e humilde lugarzinho ficou estrategicamente muito bom para os trabalhadores locais: empregadas domésticas, babás, zeladores, encanadores, pedreiros, eletricistas, pintores, marceneiros. À beira da estrada, como em um estalar de dedos, brotaram posto de gasolina, supermercado chique, galeria de arte, salão para festas e banquetes, floricultura. Uma beleza. Porém, há um detalhe de somenos importância: na ida e na volta para a cidade, engarrafamentos de lascar.

25 de março

O povaréu dos mais populosos bairros paulistanos, a massa dos escritórios e os jovens que se esfalfam no trabalho diurno para pagar o estudo da noite ocupam a Avenida Paulista. Querem ruas iluminadas, calçadas, pontos de ônibus, transporte coletivo e segurança à altura dos impostos que pagam. O povo não sabe, mas suas demandas competem com as das crescentes levas de moradores dos enclaves residenciais. Frequentemente dotados de bar, restaurante, sauna, piscina e quadra de tênis, e às vezes até de área de preservação permanente, tais clubes residenciais exclusivos estão situados a horas de viagens cotidianas, em um vai-e-vem que seria insuportável sem motores potentes, poltronas reclináveis e o máximo de tecnologia embarcada.
Em linhas tortas, tudo isso foi escrito nos cartazes da Paulista.

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Paulo Solmucci

Paulo Solmucci

Paulo Solmucci - Presidente da ABRASEL (Associação brasileira de bares e restaurantes).

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