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Sobre Inteligência

Sobre Inteligência.

Por Débora Blanda

Vamos falar sobre inteligência? A definição de inteligência que eu conheço é “capacidade de resolver problemas”. Essa definição sozinha já diz algo bastante desconfortável, que você precisa de problemas para ser inteligente. Eu não sei você, mas eu tive na minha vida escolar um bloqueio com a matemática. E o que a matemática te oferece? Problemas.

Mas o meu problema com a matemática não era só obvio (eu não tenho facilidade com números), ou consequente pavor que os “problemas matemáticos” me traziam, mas é o fato de que a inteligência matemática é mais valorizada que as outras. Isso em partes me destrói.

Sobre Inteligência.

Me destrói primeiro porque, até onde eu saiba, no Brasil a maioria da população não tem facilidade para matemática (genética, talvez). E é duro viver numa sociedade que valoriza algo tão inacessível. Mas talvez seja tão valorizado exatamente por isso.

Mas me destrói porque inteligência parece ter virado sinônimo de “ser bom em fazer contas”. Inteligência é capacidade de resolver problemas matemáticos, mas não é só isso. Inteligência é fazer gol e defender pênalti. Inteligência é criar algo que é belo. Inteligência é comunicar uma ideia. Inteligência é sobreviver, principalmente quando se é mãe de quatro filhos, sem marido, sem diploma. Inteligência é ganhar o jogo de dama, inteligência é ter saúde mental. Inteligência é capacidade de interpretar fatos e textos e de criticar.

Acho que inteligência é em partes sanidade. Considerando loucura fazer as mesmas coisas e esperar resultados diferentes, o problema “alcançar resultados diferentes” seria resolvido com a inteligência da sanidade.

Destrinchando - sobre inteligência

Eu sou mais uma cria do discurso da meritocracia, mas até que ponto a inteligência é merecida? Eu entendo que ninguém escolhe o QI que tem. Mas todo mundo é inteligente, só que cada pessoa se destaca em uma inteligência. Muitas pessoas são medíocres em todas elas, e tem quem seja excepcional em mais de uma. Mas cada combinação de inteligência tem suas vantagens: se você é inteligente para uma coisa apenas, invista nela; se você é medíocre em várias, use isso a seu favor; se você é excepcional em mais de uma, você deve saber melhor que eu o que fazer com isso.

E quão inteligente alguém precisa ser? Não estou valorizando a ignorância ou a burrice. Mas gostaria de valorizar o esforço e a repetição. Se durante a maior parte da minha vida escolar matemática foi a minha luta, no meu vestibular foi a minha vitória. Passei (bem) no curso que eu queria, e isso aconteceu com uma boa nota na matemática no ENEM e com uma boa nota na prova aberta de matemática da UFMG. Ou inteligência a gente adquire ou esforço compensa inteligência (em um certo nível).

O que eu queria mesmo era que as pessoas tivessem a oportunidade de aprender, mesmo sem ter facilidade, e a oportunidade de saber em que elas são naturalmente inteligentes.

Por fim, queria dizer que eu entendo a valorização da matemática. É uma era extremamente tecnológica, nós precisamos de engenheiros, cientistas, administradores (eu diria que em maior quantidade que modelos, atores ou publicitários). A matemática é importante, essencial.

Eu acredito que beleza, por exemplo, é loteria mesmo, mas que é assim para inteligência. Mesmo que a inteligência seja distribuída de forma desigual (afinal cada um tem sua medida de inteligência) eu não acredito que ela seja distribuída de forma desvantajosa para a maioria. Cabe a nós reconhecer nossa porção de inteligência e não se esconder atrás dela, mas aprimorar com perseverança nossa habilidade de resolver problemas, seja ele qual for.

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