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Savassi Bares

Savassi Bares

Savassi Bares

Por Paulo Solmucci

O retorno de Carlos Carretero, com o seu La Taberna, é muito importante para Belo Horizonte. Isso doze anos depois de ele ter fechado o restaurante que havia sido inaugurado em 1976. É genuinamente um craque. Um sujeito determinado. Volta para engrandecer ainda mais a cidade. Eu fico realmente impressionando com as pessoas que têm vida longa no nosso setor de bares e restaurantes.

O La Taberna é uma extensão dele: a gastronomia da Espanha mediterrânea; os quadros do pintor Carlos Carretero, dependurados nas paredes; as músicas típicas do seu país de origem, a sua mulher Fátima dirigindo as apresentações de dança flamenca. E, agora, quarenta anos depois de ele ter aberto o primeiro endereço do restaurante, a presença de suas filhas (Aixa e Marien) no grupo das dançarinas, sob o comando da mãe.

Mais do que isso: sei que Carlos Carretero é um ótimo cozinheiro, um grande conhecedor de vinhos, uma pessoa culta, paciente, e muito agradável. Sou amigo dele? Não posso afirmar isso. Eu o conheço, é claro. Mas convivemos pouco. Sou, sim, um admirador dele. Quando foi aberto o La Taberna, em 1976, eu tinha 16 anos de idade. Mas acabei acompanhando, de longe, a sua trajetória à frente do restaurante, isso dos anos 1980 em diante. Posso dizer com todas as letras: sou fã desse cara.

A minha admiração pelo personagem Carretero vem da sua ousadia e competência empresarial. Vem, ainda, da sua cultura e do bem que fez a esta cidade, e agora voltará fazer em uma escala ainda maior. O sucesso dele, neste novo ciclo do La Taberna, ocorrerá com esta notícia chegando a todos os que – como eu – conhecem e admiram o seu magnífico trabalho. Esta informação chegará aos jovens de 18 ou 30 anos, que tinham 6 anos ou 18 anos de idade quando, em 2004, foi fechado o La Taberna da Rua Antônio Albuquerque, onde hoje funciona a loja Gujoreba, ao lado da cafeteria 3 Corações.

O ressurgimento de Carlos Carretero na cena dos bares e restaurantes de Belo Horizonte é para mim um espanto. O acaso me fez tomar conhecimento desta maravilhosa notícia. Passava eu ali pela esquina das ruas Antônio Albuquerque com a Rio Grande do Norte, depois de uma reunião de negócios, e avistei um bar ou restaurante, sei lá, com mesas na calçada. Uma coisa bonita. Quando parei para ver direito o que era aquilo, reconheci o Carretero. Isso foi um pouco antes do meio-dia. Ele estava lá preparando a casa, arrumando as coisas.

E, assim, reapresentamo-nos. Fiz a ele algumas perguntas. Ouvi a bela história do seu regresso com o La Taberna. Na parte de cima da casa, funciona a escola de dança, comandada por Fátima. E, no mais, todo aquele ambiente espanhol. Puxa vida! Que bom! Ele me contou que sua filha Marien está na linha de frente do restaurante. Carlos vai ficar, digamos, nos bastidores, orientando-a na condução da casa. As irmãs Aixa e Marien se juntam, ainda, ao grupo de dança dirigido pela mãe.

Eis a riqueza do La Taberna. A família toda junta. A cozinha da Espanha mediterrânea. O encantador bailado flamenco. Os quadros do pintor Carlos Carretero. Um cardápio com os estonteantes sabores dos diversos tipos de Paella. Uma carta de vinhos primorosamente arranjada por ele, esse espanhol nascido em Granada, que se apaixonou por Belo Horizonte e por Fátima, e que está entre nós há quarenta anos.

A Savassi precisa disso. É esta a vocação da Savassi. Tudo bem que haja o espetinho, o boteco da esquina, o bar com a televisão virada para as mesas de fora e o povo assistindo ao futebol. Ótimo. Sou pela diversidade. É fundamental que haja essa mistura legal. Mas, a Savassi tem que ir além, espelhando mais plenamente a cultura de Belo Horizonte – a sua música, a dança, as artes plásticas, o artesanato e, também, o seu caráter cosmopolita. A Savassi deve ser a síntese da cidade, naquilo que Belo Horizonte tem de mais acolhedor, alegre, colorido, criativo, descontraído e cultural.

Há muito buscamos a Savassi do nosso imaginário. Agora, parece que a gente pode realizar o sonho de trazê-la à tona com um mosaico de floriculturas, livrarias, cafés, vendas de quadros a céu aberto, grupos de música ao ar livre, trechos de ruas aos domingos reservados às crianças e suas famílias, bares e restaurantes que expressem o melhor da cultura mineira, brasileira e cosmopolita.

Desconfio que, em seu retorno, a volta de Carlos e do La Taberna contém inequívocos sinais de que esse novo tempo começou a chegar. Que ao som do grito de Ay!, em que se veem as bailarinas eretas, batendo as mãos freneticamente, a Savassi multiplique o gesto da família Carretero. Com pitadas mineiras, brasileiras e de várias partes do globo, esta região de Belo Horizonte pode e deve pronunciar em alto e bom som a voz que vem do nosso coração: sou do mundo, sou Minas Gerais.

Paulo Solmucci

Paulo Solmucci

Paulo Solmucci - Presidente da ABRASEL (Associação brasileira de bares e restaurantes).

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