DestaquesEntrevistasLucas Machado

Entrevista Rodrigo Fraga

Entrevista Rodrigo Fraga.

rodrigo-fraga-1

Por Lucas Machado

Foto: Mario Machado

Entrevistamos o estilista Rodrigo Fraga um dos maiores representantes da moda masculina contemporânea feita em Minas. Rodrigo estudou e morou em Londres nos anos 90, já fez parte do line up do São Paulo Fashion Week e deixou sua marca registrada no topo da moda masculina no Brasil: Suas roupas além de atemporais as modelagens são impecáveis. Rodrigo, já assinou figurinos de vários espetáculos de teatro sendo inclusive premiado por esses trabalhos.

O estilista inclusive compôs o corner da moda no Museu Memorial Minas, na Praça da Liberdade, em Belo Horizonte.

Sua alfaiataria é de primeira grandeza, como um grande apreciador da moda masculina brasileira, é com grande orgulho que conto em linhas um pouco da essência e trajetória deste grande artista. Existe um dito popular que diz: “gosto não se discute”. Já na minha opinião, me desculpe o trocadilho, “o bom gosto é que não se discute”. Com vocês Mr. Rodrigo Fraga.

1- Você começou sua carreira no final dos anos 80. Que balanço você faz da moda masculina ao longo dessas décadas?

Comecei como a maioria dos estilistas da época, trabalhando em lojas de tecidos, onde 99,9% da clientela eram mulheres. Naquela época eu só criava para o público feminino que ia desde vestidos de festas, roupas casuais, vestidos de debutantes, vestidos de noiva, damas de honra, roupas para formatura até roupas de anjo para coroação. Eu odiava desenhar roupas para homens por achar que não tinha nada de excitante e novo que podia ser feito. Meu olhar sobre a moda masculina era mais de consumidor do que de criador em si.


2- E quando foi que percebeu que eram roupas para homens que você queria criar?

Percebi justamente após um período em que  estudei e morei em Londres, nos anos 90, e comecei acompanhar de perto as transformações, a evolução e o desejo desse público por inovação. Era notório que o homem estava começando a dar seus passos em direção ao resgate da sua vaidade, o que mais tarde passou a ser chamado de metrossexual. Passei também a me interessar mais pela moda masculina, à medida que a história da evolução dessa indumentária me interessava e me tocava.


3- Explique um pouco melhor sobre esse resgate da vaidade masculina?

O termo metrossexual foi muito usado no final dos anos 90 para classificar esse “novo homem vaidoso” e com desejo em moda, mas na verdade o homem passou foi a resgatar a sua vaidade que por questões sociais andou esquecida. Se parar pra pensar em como os homens se vestiam no século XV… eles eram extremamente vaidosos, usavam perucas, maquiagens, jóias, meias de seda, sapatos de salto e eram até “over” na vestimenta. O homem foi para as guerras, e a moda como reflexo de uma época definiu a austeridade como um estilo masculino por um bom tempo.


4- Que diferença existe do consumidor masculino dos anos 80 e os de hoje?

A diferença está no comportamento que foi influenciado pelo avanço tecnológico da informação. O homem de hoje tem muito mais acesso a moda, seja por publicações especializadas, pela internet ou até mesmo por grandes marcas que começaram a investir nesse segmento nos anos 90, que foi marcado pela individualidade. O comportamento feminino mudou muito ao longo das décadas e a visão da mulher em relação ao homem também mudou e isso contribuiu muito para essa evolução.


5- Mas ainda existe resistência pelo novo?

Ainda sim, essa mudança tem sido gradual, mas muito já mudou. Lembro quando nem podia se falar em camisas ou qualquer peça de roupa em tons de rosa para o homem. E, também, roupas em tecidos como elastano ou brilhos, que até então, eram coisas de mulheres e hoje são bem mais aceitos e apreciados pelo público masculino.


6- Existe alguma diferença entre o consumidor masculino do Brasil e o da Europa ou em outros pólos de moda?

Sim, existem as diferenças culturais. O Brasil, o país do futebol e como qualquer outro país latino americano, tem uma tendência ao machismo. Sem falar que a história da moda por aqui é muito recente se comparada com países como a França ou a Inglaterra. Em se tratando de moda masculina então, aqui no Brasil ainda tem muito para ser feito.
7- E o que você acha que ainda precisa ser feito?

A começar pelos lançamentos oficiais da moda brasileira, onde as marcas masculinas apresentam suas coleções misturadas com as femininas. Para o crescimento do setor era preciso separar a moda masculina da feminina, ter um dia especialmente só de moda masculina. Isso faria com que se formassem opiniões mais focadas por parte dos críticos de forma que despertasse mais o desejo ao consumo. Lembro de já ter feito desfiles no SPFW no mesmo dia em que a Gisele Bunchen e outras tops também desfilavam para marcas de moda praia e só se falavam delas, ou seja,  qualquer marca masculina que disputassem a atenção da mídia com elas, eram meramente coadjuvantes no evento. Aqui no Brasil, também não temos variedades de publicações  relevantes especializadas só em moda masculina e muito menos críticos com amplo conhecimento nesse seguimento.


8- Em termos de mercado, sabe-se que o homem não consome tanto quanto as mulheres, e como você disse que ainda falta muito ainda pra ser feito na moda masculina aqui no Brasil, com sua experiência criando também roupas femininas não o faz querer investir nesse setor?

A minha marca sempre teve uma enorme apreciação e desejo por mulheres em consumir; o que eu faço para os homens, acho que até mesmo pela minha experiência com o feminino, também a minha roupa tem uma delicadeza e leveza que traz um certo equilíbrio entre os dois universos e isso eu acho um luxo, poder conquistar as mulheres sem necessariamente ter que fazer vestidinhos ou saínhas.

Penso sim, futuramente, expandir o meu público, porém fazendo para eles o mesmo que eu faço para elas, contudo, eu quero ser lembrado como alguém que de certa forma fez algo em prol da moda masculina.

9- Qual marca masculina aqui no Brasil você gosta?

No momento, nenhuma

10- Além do seu trabalho com moda, você já assinou vários figurinos para as artes cênicas e já foi premiado também por esses trabalhos. Qual a diferença entre criar moda e criar figurinos?

Quando estou criando moda, estou colocando muito de mim, da minha personalidade nas minhas criações e até mesmo um pouco do que eu gostaria de usar e do que meus clientes esperam encontrar vindo de mim. Os figurinos, eu crio para personagens bem específicos, com suas peculiaridades, personalidades e um estilo já traçado. Adoro  fazer figurinos quando o texto me conquista, pois não sei fazer nada em que não haja emoção e quando me emociona entro de corpo e na alma dos personagens.

11- Recentemente, como parte da comemoração dos seus anos de carreira,  você lançou um curta metragem que foi um sucesso e super elogiado, inclusive essa entrevista o leitor que não teve acesso poderá vê-lo. Pensa em enveredar pela sétima arte também?

Na verdade a idéia do curta partiu do desejo de fazer um plano de comunicação com o meu público que fosse mais relevante e duradouro e também de uma forma que ainda não havia sido feito por aqui. Eu adoro cinema e achei fantástico poder usar essa linguagem para apresentar o meu trabalho. Fiquei 100% feliz com o resultado, mas prefiro ser o estilista que faz curtas do que o estilista que virou cineasta..

12-Qual estilista você admira?

Admiro a vida e o legado de Coco Chanel. Tenho um respeito pelo anti conformismo da Vivenne Westwood e do Alexander Macqueen e simpatizo com o masculino very English adocicado e leve do Paul Smith.

13- Você é também irmão de um dos estilistas brasileiros mais expressivos e respeitados, Ronaldo fraga .Isso faz com que você crie pensando no aval dele?

Não, isso não acontece, ate mesmo porque nosso público e o nosso masculino é bem diferente. Eu crio pensando unicamente no aval do meu público, que são os consumidores do meu trabalho.

14- Você acompanha os lançamentos da moda brasileira?

Não. Acompanhava mais quando eu desfilava também.

15- Um momento na moda brasileira que não da pra esquecer?

O desfile costura do invisível do Jum Nakao no SPFW, e o primeiro desfile do Ronaldo Fraga no extinto Phytoervas Fashion, que pegou as pessoas de surpresa, por não estarem acostumadas aqui no Brasil a verem a moda que só ele tem.

16-RFTL: O que você esta fazendo desde que parou de desfilar?

Estou me dedicando ao aprimoramento do meu trabalho de alfaiataria sob medida e tenho trabalhado bastante, nesse que já era um projeto antigo. Hoje eu tenho um olhar  especial para noivos, mas tenho uma clientela bem diversificada.

17-RFTL: Se você não fosse estilista o que gostaria de ser?

Não sei ainda.

Lucas Machado

Lucas Machado

Escritor, profissional de Marketing e Comunicação.

Anterior

Inteligência Corporal

Moda Masculina usando o xadrez
Próximo

Moda Masculina usando o xadrez