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Qual é a sua cor

Qual é a sua cor

Qual é a sua cor

 

Por Débora Blanda

Ainda me lembro das aulas de arte na escola “preto e branco não cores, são valores” repetia o professor, causando alguma confusão no começo e aceitação ao longo do semestre. Branco é o resultado da junção de todas as cores e preto a ausência total delas. Continuo me perguntando se eu já vi algo puramente preto. Preto é a cor do meu cabelo, e isso pode parecer banal ou óbvio, mas esse fato foi para mim uma epifania: eu tinha convicção de que meu cabelo era castanho escuro.

Essa era a reposta que eu dava quando alguém me perguntava e, principalmente, era isso que eu enxergava no espelho. E foi num dia de feira como tantos outros que eu reparei meu cabelo, ele estava (como de costume) em forme de coque no topo da minha cabeça. O que eu vi dessa vez foi o castanho na maior parte dele e, pela primeira vez o preto da sua raiz. Acho que ele desbota tão fácil que o preto passava despercebido em meio a tantos tons de castanho ondulando até depois do ombro.

Mas a necessidade de escrever sobre cores veio de mais uma conversa imensa em mais um grupo do WhatsApp. É um grupo de madrinhas do casamento de uma querida amiga, e o assunto era a cor dos nossos vestidos. Sabe aquele verde água que alguns chamam de azul outros de verde e, dependendo do tom, confunde muito mesmo? Esse verde é a única regra para os vestidos das madrinhas. Alguém então compartilhou uma cartela com verdes-água da Pantone. Com alguma vergonha eu confesso, fiquei perdidinha: pantone não é marca de shampoo? Também. Pantone é a grande autoridade em cores, compatibilização de cores entre mídias, e eles são mundialmente conhecidos como a linguagem padrão paras cores (está até na bio deles). Agora nós sabemos…

Mas será possível que onda eletromagnéticas se tornem uma linguagem? Eu acredito que sim, as cores são uma linguagem. Acredito que as cores expressam ideias, sentimentos, que elas possuem significado e expressam um estilo. Essa comunicação depende, é claro, de quem vê essas cores, de como cada um as percebe. Pensa na sua obra de arte preferida, são as cores (ou ausência delas) um fator de peso na sua predileção? Sem falar no simbolismo delas nas cerimonias, a noiva de branco, a cor para passar o réveillon, o preto nos funerais. As cores falam.

Com toda história dos possíveis tons de verde água, me lembrei de como uma amiga muito próxima chamava de azul o moletom que eu chamava de verde e como nós concordamos em discordar. No final das contas ela dizia “…com seu moletom azul” e eu entendia que era com meu moletom verde, dava certo. Porque as cores são uma linguagem o mesmo acontece com nossas palavras: as vezes usamos palavras diferentes para dizer uma mesma coisa. Vai saber porque temos duas palavras para falar “cachorro”.

Outra semelhança das cores e das palavras é que as vezes você diz uma coisa e a outra pessoa entende algo diferente. Sem aquele moletom, que nós duas olhávamos a mesma coisa e uma chamava verde a outra chamava de azul, nós não saberíamos que o meu verde era o azul dela. Toda vez que ela falasse em azul, descrevesse esse azul, eu veria algo diferente na minha cabeça, eu não veria a cor que para mim é claramente verde. Eu veria um azul diferente do dela. Ainda não decidi se foi uma questão de nomenclatura ou de como enxergamos.

Das cartelas da Pantone eu fui para as canetinhas Stabilo que eu faço muita questão em colocar em alguma ordem, coma alguma coerência (o que é para mim tarefa difícil, eu nunca fico completamente satisfeita com a ordem delas). E nas cores dos giz de cera com cheiro de infância, e depois nas caixas lápis de cor. Como era prazeroso ter várias cores, metálicas, neon, clássicas.

Colocá-las na ordem, ver os nomes delas no verso da caixa e claro, colorir. E mesmo agora, eu olho para minha mão e vejo: cores. Três cores de esmalte vão se repetindo, uma unha de cada cor. Gosto de pintar assim com cores bebê, porque me lembra balinha (e porque nenhum dedo é igual ao outro, então porque não?).

Minha mãe nunca teve uma cor preferida. Sempre que eu perguntava ela não sabia de cor e acabava dizendo que gostava muito de várias. Se um dia eu preferi verde e ao longo do caminho me acostumei a responder azul, hoje, embora sinta muito conforto no preto, acabo concordando com ela. Eu gosto das cores sem predileção. Até o laranja, que já foi um “não favorito”, me ganhou na troca de folhas do outono temperado. Se de tudo eu tiver que dar uma resposta, será essa: minha cor preferida é a do Lago Michigan, mas só porque a cor dele são várias.

O último pensamento que vou deixar nessa tela é: será que nós vemos as mesmas cores? De cara tudo indica que algumas pessoas (homens) não diferem tantos tons quanto outras (mulheres). Mas será que nós enxergamos amarelo, amarelo? Meu amarelo é igual ao seu? E se eu entender amarelo como verde, ou o contrário… Será que a impressão na minha mente quando eu olho um gramado é a mesma que das outras pessoas? Eu gosto de acreditar que se apreciamos as mesmas obras de arte (mar e por do sol inclusive) alguma semelhança deve ter em como nós enxergamos as cores, a vida. Mas gosto mais ainda de acreditar que nós não enxergamos tudo exatamente igual, que cada um tem sua visão peculiar de tudo o que nos cerca, cada um enxerga as cores de um jeito.

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