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Pulo do Gato

Pulo do Gato

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Parte 1

ERA UMA VEZ O PULO DO GATO

Por Paulo Solmucci

Nos últimos três anos, a indústria automobilística brasileira aumentou a sua produção de 4 milhões para 5 milhões de veículos. Em 2013, havia 33 montadoras no nosso país.

Chegaram mais oito, fazendo o total saltar para 41 fábricas. O retrato de hoje é o seguinte: a capacidade ociosa supera os 50%.

Um estudo da consultoria McKinsey mostra que seriam necessários cinco anos seguidos de um crescimento de 10% ao ano para que o parque dos fabricantes de automóveis e caminhões funcionasse com 80% da capacidade.

O fato é que, há muito tempo, desde os anos Juscelino Kubitschek, o Brasil persegue o objetivo de alavancar a indústria automobilística como forma de aumentar, nacionalmente, a produção e o emprego.

Estamos há 60 anos atirando na codorna e acertando no cachorro. A gente tem o velho hábito de acreditar no pulo do gato.

Ainda imagina-se, que com uma só providência, um processo virtuoso se espalha pelo território de 8,5 milhões de quilômetros quadrados. “Nada do que foi será do jeito que já foi um dia”.

Escreveu Nelson Motta para o compositor e cantor Lulu Santos, isso em 1983. Mas não nos demos bola a este aviso profético.

Enquanto automóveis abarrotam os pátios e as áreas em volta das montadoras, a nossa legislação trabalhista continua sendo maior e mais complicada do planeta.

O rol de contrassensos é imenso. A mais singela contradição reside, porém, no fato de que frota brasileira de automóveis é proporcionalmente muito pequena em relação à dos países europeus.

Para que se equiparar à da França, Inglaterra ou Alemanha, a nossa frota teria de ser triplicada. Mas, por que, então, a Europa não padece dos terríveis engarrafamentos que diariamente paralisam cidades brasileiras de norte a sul, de leste a oeste?

É que os europeus usam o carro muito de vez em quando. Suas cidades são caminháveis. No dia a dia, os europeus normalmente seguem a pé da casa ao trabalho, à escola ou ao bar e restaurante. As cidades têm atividades concentradas no entorno das moradias.

Optamos por um modelo invertido. Nos últimos 60 anos, empenhamo-nos em espalhar territorialmente
a ocupação urbana, esvaziando as áreas centrais, criando periferias distantes, seja as dos guetos dos pobres, nos conjuntos habitacionais, seja a dos guetos dos ricos, nos condomínios residenciais.

É assim que toda a frota brasileira de automóveis circula diariamente, infestando as ruas e vielas com o transporte individual.

Ao mesmo tempo em que nos orgulhávamos de ter nos tornado o quarto produtor mundial de automóveis, o esgoto continuava correndo sob os céus do Brasil – ou, na melhor das hipóteses, escondia-se nas fossas no quintal de casa.

O dado é este: 50% dos domicílios brasileiros estão desconectados da rede de coleta. A situação do saneamento básico permanece imutável ano após ano.

Paulo Solmucci

Paulo Solmucci

Paulo Solmucci - Presidente da ABRASEL (Associação brasileira de bares e restaurantes).

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