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PROTESTO

PROTESTO

Sabem quais as brincadeiras que mais me irritavam quando pequena? Passa-anel e Telefone-sem-fio. Passa-anel porque todo mundo que ganha o anel fica sempre com aquele ar de novidade na cara. Nunca vi ninguém que ganhasse o anel e permanecesse na roda com ar de “não-aconteceu-nada”.

PROTESTO

Mas isso são só lembranças. Recordações de uma menina que queria fazer 18 anos e estudar oceanografia em Arraial do Cabo. A história de hoje é outra. A menina cresceu. Brincou de passa-anel com as primas pequenas e fez todas as “caras de novidade” que lhe foram possíveis. Descobriu que o mar era misterioso e cursou Publicidade e Propaganda. Palavras traziam – até então – mais segurança que a profundidade do mar. Bonito, né? (Tudo mentira!).

PROTESTO: CONTRA A BRINCADEIRA DO TELEFONE-SEM-FIO!

Não estudei oceanografia porque tinha 17 anos e queria na verdade sair de casa, morar na praia e virar surfista. Ainda bem que meu pai me impediu. Sempre tive medo de tubarão, não sei nadar direito e realmente tenho um respeito enorme por tudo que é água nesse mundo.

Destrinchando menina pequena

Mas o que realmente me impressiona nos dias de hoje é que a tal brincadeira do Telefone-sem-fio me acompanha. Só que não é mais brincadeira. É real. E talvez seja mais perigoso que tubarão e que fundo do mar. E funciona mais ou menos assim: uma história (que pode ser verdadeira ou não) começa em algum lugar e vai passando de boca em boca. De ouvido em ouvido. Em cada pessoa que chega, perde um pouco do enredo, ganha mais ficção. E os personagens mudam, o roteiro ganha vida própria e – quando você vê – a história da sua vida virou uma história que você nunca viveu. Convenhamos: nada pior que uma história mal-contada. Nada pior que descobrir que o Lobo Mau era bonzinho e a velha história da Chapeuzinho Vermelho não passava de uma farsa para esconder a personalidade cruel de uma neta insensível que matou a avó para ficar com a herança.

Destrinchando casal

Você pode rir (eu estou rindo agora). Você também pode achar maldade ou falta do que fazer. Mas é isso mesmo. O problema do Telefone-sem-fio está quando os personagens são reais. Não é legal quando você vê que é a sua vida (ou a vida de alguém que você gosta) que está no jogo. Pessoas não são personagens. Têm sentimentos, têm suas vidas, têm histórias escritas por elas mesmas.

E eu que passei a vida inteira temendo tubarão…

Olha o tamanho da mordida que a palavra me deu!

Fernanda Mello

Fernanda Mello

Escritora e compositora, Fernanda Mello ficou conhecida por seu blog Coração na Boca e por suas inúmeras letras para bandas como Jota Quest, Tianastácia, entre outros, incluindo sucessos como: “Só hoje, “O que eu também não entendo”, “Mais uma vez”. Autora de 4 livros (Princesa de Rua, O menino que queria abraçar o mundo, Amor na TPM e Amar é punk), Fernanda também conta com um canal de crônicas digitais no youtube, que somam mais de um milhão de acessos.

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