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PRECISAMOS CONVERSAR

PRECISAMOS CONVERSAR

PRECISAMOS CONVERSAR

Por Debora Blanda

Aviso: Essa conversa está cheia de narcisismo e vazia de conteúdo

Calma, não quero terminar com você, eu aliás preciso que a gente continue junto, você me lendo e eu falando. Já faz alguns meses que a sensação de “não tenho nada a dizer” tem me bloqueado e nisso eu tenho escrito pouco e, pasmem, tenho até falado menos. Acho que deveria ter começado falando que eu falo muito (na maioria das vezes eu não falo de mais, mas falo muito).

Desde a infância quando comecei a falar eu falo rápido e muito. Eu entendo bem de monólogos já que me pego em monólogos com alguma frequência; eu falo com Deus, eu falo comigo, eu falo. E mesmo falando esse tanto, e com todas as minhas repetições e toda licença poética que eu tiver direto, eu ainda penso muito mais que falo. Em um episódio recente eu comecei a me desculpar porque estava “falando de mais” e uma sábia amiga me disse que tudo bem, porque falar me ajudava a pensar.

De alguma forma eu sabia disso, eu sei que tirar as palavras da minha cabeça e colocá-las na tela alivia minha mente, quantas vezes a epifania não veio enquanto eu contava para alguém o que me afligia ou simplesmente a minha história. Eu tenho essa necessidade de verbalizar o que estou pensando e sentindo. Por mais que eu não tenha nada para dizer, nada que vá te acrescentar de alguma forma eu preciso falar. E mais que isso, eu preciso conversar.

Na conversa duas coisas mágicas acontecem; uma delas é quando você encontra alguém que te entende, alguém que também ama palavras e vai dizer “foi uma festa onírica”, alguém ama lugares ou sempre se perguntou se nós vemos as cores do mesmo jeito. Nesse momento eu me sinto normal, essas loucuras orbitando na minha mente não são exclusivamente minhas, eu pertenço. Pertenço a conversa, pertenço a esse mundo, não sou eu sozinha com ideias mirabolantes, somos nós jogando conversa fora e embarcando numa loucura juntos, que talvez nem seja tão louca assim.

A outra magia da conversa é quando alguém discorda e o diálogo continua. Quando alguém não me entende ou me entende e discorda, a conversa se torna um prato cheio. Discordâncias me levam a questionar meus posicionamentos e ideias, me fazem aprender mais sobre mim e sobre o outro, me fazem ter novas ideias e pontos de vista. Quando ninguém me entende eu me divirto com a ideia de ser singular, me encabulo em como podem existir formas tão diferentes de ver as coisas, e essa diversidade me encanta.

Depois da amiga que me fez perceber o quanto eu sou dependente de verbalizar um teste de Facebook veio confirmar aquilo que eu já sabia. Aqui vale a pena falar que sim, eu faço mil testes bobos porque eles são bobos e alguns eu já nem acho tão bobos assim. Esse teste era para determinar qual sua inteligência: linguística, matemática, espacial, intra pessoal, corporal sinestésica, interpessoal ou musical. Claro que, como a humana que eu sou, a inteligência que eu queria não é a que predomina em mim. Imagina só ser um gênio da música ou ter uma inteligência rara e especial como a interpessoal. O resultado foi linguística, é uma das mais comuns e naquele instante eu me senti comum, pouco especial.

E para mim, como para muitos dessa nossa geração, não ser especial é talvez a última coisa que você quer ser. Essa fobia de normalidade e do comum que nos tem levado a loucura (mas a gente conversa sobre isso depois). E foi minha mãe lembrando o tanto que eu falava quando criança, o fato de eu sempre responder as perguntas do professor na sala de aula, de eu sempre estar falando ou escrevendo, a fala da tal amiga e o teste no Facebook, foi tudo isso que me fez perceber o tanto que eu sou linguística. E claro que é assim comigo, olha o tanto que eu falo, olha como eu amo as palavras, olha como eu tenho essa necessidade de escrever. Para que eu continue funcionando eu vou continuar falando e vou continuar escrevendo; mas eu vou funcionar melhor se você continuar a conversa, me lendo e me ouvindo, eu preciso que essa nossa conversa não acabe em mim.

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