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Periferias Urbanas

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Periferias Urbanas

Por Paulo Solmucci

A qualidade desprezada

Os pobres foram jogados na periferia das periferias. Eis o grande pecado do Minha Casa Minha Vida. Mas há no grandioso programa habitacional inúmeros outros defeitos que são reconhecidos pelo ministro das Cidades, Bruno Araújo. Todos os desvios nascem de mesma fonte: a aridez do isolamento.

O que predomina nesses aglomerados de casas, sobrados ou predinhos padronizados e plantados em uma lonjura sem fim é a mais absoluta ausência de comércio e de serviços básicos, imprescindíveis à vida cotidiana do cidadão, como postos de saúde, escolas e locais de recreação as crianças e seus familiares.

As áreas externas dos predinhos enfileirados são formadas por pátios cimentados, que só servem para o estacionamento de carros. Nelas, inexiste qualquer tratamento urbanístico e paisagístico. O desdém dos gestores das cidades conspira contra o sucesso de um programa que é portador da admirável missão de reduzir significativamente o déficit habitacional brasileiro.

De 2010 para 2014, o déficit caiu de 6,9 milhões para 6,2 milhões de moradias. Continua muito alto. São 20 milhões de brasileiros que moram em precaríssimas condições. Que bom que o déficit tenha se reduzido, em quatro anos, em 10%. Porém, é lamentável que uma apreciável quantidade das novas moradias seja destituída do mínimo cuidado em relação aos aspectos urbanístico, paisagístico e, também, do adequado trato com a vida cotidiana.

Os conjuntos do Minha Casa Minha Vida são segregadores. Excluem seus moradores do dia a dia da vida urbana.

A forma como foram desenhados e construídos constitui-se em intransponível barreira à integração e à sociabilidade entre os vizinhos. E por que estão a léguas de distância? Porque as construtoras escolhem os terrenos mais baratos. A decisão sobre a localização é delas. Isso provoca o contínuo espraiamento do território habitado dos municípios, trazendo consigo o perverso efeito pendular do interminável e extenso vai e vem.

Esta opinião – com a qual compartilho, plenamente – vem dos mais conceituados arquitetos e urbanistas brasileiros, que já concederam entrevistas sobre o assunto à revista Bares e Restaurantes – editada pela Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) -, entre eles Jaime Lerner, Fausto Nilo, Carlos Leite e Washington Fajardo.

O resultado da falta de proximidade entre as moradias e os serviços urbanos é o dramático agravamento de uma tortura diária de ônibus abarrotados, indo e vindo em direção à cidade consolidada, sobretudo de manhã, rumo ao trabalho ou à escola, e à tardinha, na volta para casa. Diante da falta de alternativa, qual é a saída para quem pode? Comprar uma motocicletazinha, com os terríveis efeitos colaterais da poluição sonora e atmosférica, e, ainda, dos recorrentes acidentes de trânsito.

A quantidade de novas habitações de interesse social foi inserida na política pública. A sua qualidade, não. Quando os governantes deixam em aberto esse vácuo de atendimento às demandas da cidadania, entra o tráfico. Muitos conjuntos foram tomados pelo tráfico e pelas milícias. As mães têm medo de deixar os filhos andarem sozinhas naqueles desertos cimentados do “quintal” de casa.

O mesmo desprezo em relação à qualidade urbana da habitação popular, os governantes dedicam à coleta e tratamento de esgoto. A coleta não alcança metade da população brasileira.

Do que é coletado, apenas 42,7% são tratados. Este é o tema para o próximo artigo. As grandes vítimas do desmazelo com o saneamento básico são também crianças e adultos mais pobres, que vivem nas imediações de valas, córregos e riachos com altíssimo nível contaminação, tanto pelo lixo quanto pelo esgoto.

O ministro das Cidades tem razão quando diz: “Precisamos pensar nos aspectos paisagísticos e urbanísticos do Minha Casa Minha Vida, pois muitos desses empreendimentos ficam marginalizados dentro do município”. É a primeira vez que uma autoridade do primeiro escalão governamental se manifesta tão claramente sobre um problema que já se arrasta desde 1964, portanto há 52 anos, quando foi criado o Banco Nacional de Habitação (BNH).

O primeiro passo para se corrigir o problema é reconhecer que ele existe.

O segundo passo é a cidade da escala humana entrar, para valer, na agenda nacional.

Paulo Solmucci

Paulo Solmucci

Paulo Solmucci - Presidente da ABRASEL (Associação brasileira de bares e restaurantes).

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