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Pedidos de patente

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Foto: Destrinchado

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Por Paulo Gannam

Mais da metade dos pedidos de patente protocolados em 2017 foram feitos por pessoas físicas no Brasil.

Entrevista com Paulo Gannam, inventor brasileiro.

Fazer do exercício da criatividade algo que pague as contas pode ser um grande desafio para quem se aventura a ser inventor independente no Brasil. É o caso do brasileiro Paulo Gannam, 35. Em tom descontraído, ele nos conta que, desde 2011, sua paixão passou a ser criar, patentear e negociar com empresas suas invenções para fazê-las chegar ao mercado.

No entanto, Gannam alerta que apesar de inventores independentes serem responsáveis pelo maior número de depósitos de patente no Brasil, haveria forte grau de marginalização em que se encontram estes profissionais autônomos de criação diante da cultura distorcida e exclusivista de empreendedorismo. Em suas palavras, “inventores ainda sofrem com o estigma de cientista maluco, mas os produtos que eles criam podem gerar negócios, empresas e empregos de décadas”.

Por que não é fácil ganhar dinheiro sendo inventor?

Gannam:

A distância entre se ter uma ideia e conseguir levá-la às prateleiras dos varejistas é de perder de vista. Em regra, inventores já tem outra profissão que lhes dá o que comer. Eles não querem, nem tem tempo ou experiência para fabricar e comercializar o produto que desenvolveram.

O objetivo deles é transferir a tecnologia para que empresas emergentes ou estabelecidas possam explorá-la industrial e comercialmente. Então ficam sempre na dependência de terceiros capazes de enxergar valor comercial em seus projetos. Esses “anônimos”, pessoas físicas, foram responsáveis por 47% dos pedidos de patente de invenção e por 68% dos pedidos de patente de modelos de utilidade protocolados no INPI (Instituto Nacional de Propriedade Industrial) entre janeiro e agosto de 2017.

E não existe nenhum programa no Brasil que realize esta aproximação entre o trabalho de pessoas criativas e empresas interessadas em incorporar novos produtos a seu portfólio. Isto se reflete em outros números: 91% dos contratos de tecnologia, nesse mesmo período, foram celebrados entre empresas de médio e grande porte. Pessoas físicas fizeram somente 0,5% do total.

Você já tentou falar com algum “investidor-anjo” ou “capitalista de risco”, que, aparentemente, esteja disponível para injetar recursos próprios em novidades?

Gannam:

Sim, muitos. Mas veja: investidores-anjo de “anjo” não tem nada. Eu não sei de onde se tiram esses nomes… Eles querem retorno sobre o capital investido e estão de olho em ideias de serviços e de produtos que já tem uma cara de negócio o bastante para gerar altas margens sem que eles precisem se dedicar intelectualmente ao negócio. É a lei do menor esforço. Eles querem menos trabalho e mais dinheiro. Muitos se comportam como mera instituição financeira.

Gannam:

O Sebrae está a serviço de empresas e microempresários. Não tem nenhum programa voltado ao inventor. Quanto aos demais, estou sempre em contato com eles, e a maioria está sucateado. Fica um empurrando o serviço para o outro no atendimento a inventores externos e, enquanto isso, o inventor chupa o dedo e vê sua patente tornar-se obsoleta. As verbas destinadas a ciência e tecnologia foram reduzidas a cerca de um terço dos valores disponíveis em 2010 e a menos da metade da pasta de 2005.

Mas como faz então o inventor para levar seu produto ao mercado?

Gannam:

Inevitavelmente, o inventor vai precisar se tornar um bom vendedor no Brasil e se familiarizar com a linguagem dos negócios. Vai ter de entrar em contato constante com departamentos de pesquisa e desenvolvimento das empresas, diretorias, para tentar apresentar seu produto. E isto requer um mínimo de preparo. Não adianta colocar o invento na mesa e dizer: “Inventei isso, é útil, você quer?”. Além disso, o inventor precisa aumentar sempre sua rede de contatos e abordar com lisura as pessoas visando encontrar o contato certo.

E as empresas costumam dar atenção ao que o inventor diz?

Gannam: Nesse meio tem de tudo. Tem

1- Os especuladores: Quando o inventor não aguenta mais arcar com os custos de seu pedido de patente e não encontra um investidor. Com o bolso apertado, ele deixa de pagar taxas no INPI e seu pedido é arquivado. Nessa hora entram em cena as “empresas abutres”, que irão pegar a carcaça (patente) que caiu em domínio público para poderem fabricá-la e comercializá-la sem terem legalmente de pagar um tostão aoinventor.

2- Os invejosos: estes são aqueles que costumam apedrejar a ideia do inventor ao
tomarem contato com ela. Normalmente funcionários do baixo clero”, que se sentem
ameaçados por ideias advindas de fora da empresa em que trabalham. Ficam com dor de
cotovelo e não embasam sua opinião em argumentos técnicos, apenas dizem sua própria
impressão como consumidor, e usam tecnologias muito avançadas para justificar o quão
dispensável é a ideia do inventor. Não entendem de inovação, e nem mesmo de negócios. Se
entendem, não estão a serviço desse conhecimento e sim da preocupação excessiva com a
própria carreira.

3- Os fingidos: empresários ou funcionários que pedem o máximo de informações possíveis do seu projeto, para depois lhe retornar com um diplomático “não”. Eles vão aproveitar as informações passadas pelo inventor para desenvolverem seus próprios produtos. Fingem ter interesse para o inventor ficar animado com a possibilidade de um negócio fechado. O inventor, por ser a parte mais fraca na relação negocial, pode acabar evitando de pedir assinatura de um NDA (termo de confidencialidade) e se estrepando.

4- Os sensatos: aqui está uns 10% por cento de empresários e empresas idôneas que possuem
protocolos claros e justos quanto ao trato com ideia de inventores externos. Recebem a ideia,
a analisam, normalmente assinam NDA e dão um retorno detalhado sobre o porquê da
aceitação ou negativa sobre o projeto.

Mas se é tão complicado assim, porque você continua?

Gannam:

Porque não estou convencido de que vou fracassar e de que meus produtos não
terão vazão no mercado. Lidar com certos mercados requer que você esteja no lugar certo, na hora certa, falando com a pessoa certa, para fechar um negócio. Cabe ao inventor assumir todo esse risco – de passar boa parte de sua vida divulgando algo que pode não ir ao mercado, ou acertar em cheio, fazer seu produto arrebentar e entrar para a história.

Nesse sentido, a mídia não pode ajudar inventores?

Gannam:

Absolutamente. A mídia tem um papel fundamental na disseminação de projetos relevantes de inventores. Quanto mais conhecido for o invento, maiores chances terá de despertar o interesse de alguma empresa. Mas a mídia também obedece a certos critérios que acabam minimizando os benefícios e oportunidades que se pode conferir aos inventores.

Alguns jornalistas entendem que falar sobre o trabalho de um inventor tem cunho promocional e não jornalístico. Mas isto depende do enfoque que o jornalista irá conferir à matéria, não do inventor. Além disso, “invenção” e “inventor”, quase sempre, caem em editorias de “comportamento”, “curiosidades”, “ciências”, “criatividade”, “variedades”, e assim por diante. Já notícias sobre startups e grandes empresas costumam ter o privilégio de editorias de “empreendedorismo”, “economia e negócios”, ciência e tecnologia”, etc. Existe um padrão de percepção de que o trabalho de inventores não gera oportunidades de
negócios, ficando no campo da excentricidade e do romantismo. Com isto, startups ganham mais visibilidade junto a homens de negócios do que inventores. Há ainda um problema, sobretudo com uma fatia da mídia automotiva e de cosméticos, que reproduz com exclusividade produtos lançados somente por grandes empresas destes setores. O inventor às vezes é visto como “café-com- leite”, às vezes até como um invasor e uma ameaça, e acaba ficando fora do noticiário de parte da imprensa mais lida no Brasil.

Quer tipo de competências o inventor precisa ter para apresentar uma ideia a uma empresa
com potencial de, por exemplo, fabricar e comercializar sua patente?

Gannam:

Cada inventor vai escrever sua história e alimentar sua bagagem cultural como bem lhe aprouver e convir. Eu passei a estudar livros de empreendedorismo, inovação e marketing. É bom que ele conheça bem os conceitos de “inovação de valor”, startup enxuta”, “estratégias de marketing” e “curvas de intersecção tecnológica”. Mas muitas vezes a imaginação e o pensamento autônomo substituem o conhecimento mastigado que vem dos livros. Há projetos com tecnologias incrementais em mercados já maduros cujo sucesso é quase que uma obviedade. Mas se o mercado com o qual o inventor estiver lidando for conservador e oligopolista, o produto ir ou não para o mercado vai depender de fatores políticos,
econômicos, e estratégicos das empresas. De todo modo, de posse de uma boa literatura e com algum dinheiro guardado, o inventor consegue fazer um plano de negócios, um protótipo, uma pesquisa de campo com uns 30 entrevistados e um estudo de viabilidade econômico- financeira. E estão se alastrando empresas que oferecem estes serviços em pacote a um custo relativamente baixo. Assim, alguém pode querer olhar com um pouco mais de carinho e menos desconfiança para o seu invento.

E que dica você gostaria de dar para quem quer atuar nessa área?

Gannam: Ninguém costuma querer isso para a própria vida (risos). Você acaba caindo de paraquedas e por pura atração. De todo modo, se cair, não saia por aí inventando, patenteando e torrando dinheiro feito uma besta igual eu fiz no início. Eleja somente uma ideia e teste ela com as pessoas. Pois ter boas ideias é muito relativo. Vai depender de muita análise até você poder tachar uma ideia de “boa” ou “má”. E mesmo depois de muito estudo, ainda vai sobreviver uma faísca de incerteza sobre sua conclusão. Trabalhar com inovação tem esses riscos. Mas quanto a ter ideias, independentemente do fator comercial, eu costumo dizer que brainstorming vem com alguma dose de “vagabundagem”. Ócio ajuda bastante, irritação, vontade de fazer diferente, e alegria em predispor sua mente a perceber problemas e, de imediato, pensar em algo que poderia ser criado para resolver aqueles problemas.

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