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O último

O último.

151 600 pessoas morrem a cada dia no mundo.

O último.Por Débora Blanda

Vivemos como se nunca fôssemos morrer. Fazemos planos para o amanhã, para o próximo salário, para o próximo ano. Toda vez que dizemos “tchau” nos despedimos convictos de que não será o último adeus. Temos certeza que não será o último “eu te amo”, a última vez que ouviu a música mais querida ou comeu a comida preferida.

Nos preocupamos com prazos, trabalhos, projetos. Nos comprometemos com eventos, jantares, shows, jogos. Porque estamos vivos, nos permitimos esquecer que a morte virá. Mas o que você faria diferente se você se hoje fosse o seu último dia e você soubesse?

Ou como seria se fosse o último dia de alguém que você conhece? Talvez alguém que você ama, talvez alguém que você não suporta, ou talvez alguém que você simplesmente nunca deu atenção. Ontem uma menina de 16 anos foi baleada e faleceu, no centro de Oakland, a menos de três quadras de onde eu faço estágio. Era 16:50 de uma terça-feira.

Alguém, dois “alguns”, saíram de casa carregando armas e disposição para usá-la. Alguém decidiu que a vida de outras pessoas de alguma tem menos valor, importa menos. Alguém decidiu sair atirando em plena luz do dia, em uma região movimentada. E outro alguém estava ali, e sem ter pensado muito sobre como seria seu último dia, deixou de estar.

Morrer aos 16 anos significa que ela não teve a chance de entrar na faculdade, que ela provavelmente não encontrou o “amor da vida dela” ou comprou o próprio carro. Quantas pessoas vão sentir falta dela? Como ficou a mãe dela? Mas não foi só ela, cento e cinquenta e um mil e seiscentas pessoas morreram naquela mesma terça-feira.

Quantas jornadas não foram interrompidas, quantos sonhos ficaram sendo apenas sonho. Pelo menos cento e cinquenta e um mil e seiscentas planos não concretizados. Nós não fomos projetados para morrer e talvez por isso nós não pensamos muito sobre morte, por mais certo que ela seja. Morte é algo tão cotidiano e ainda assim não gostamos muito de pensar sobre ela.

Eu não vou largar minha rotina ou parar de fazer planos, mas eu quero reconhecer que eles são apenas planos e que eu não tenho controle nenhum sobre eles ou sobre minha existência. Eu não vou me render ao medo de perder as pessoas que eu amo, mas eu vou fazer o meu melhor para garantir que elas saibam o quanto eu as amo e que independente de como ou quando eu deixe de tê-las por perto, que eu não carregue arrependimentos mas sim bons momentos. Eu espero não ser tão ansiosa e preocupada e conseguir ter mais perspectiva na vida.

E não é para ficar deprimido com tanta morte, é aceitar que por agora ela faz parte da vida, que é natural morrer. (E sem ter a pretensão de diminuir a dor e a saudade de perder alguém; seguir em frente demanda tempo e luto, e ficar triste é parte do processo. Se esse é seu caso agora, eu lamento muito). É injusto, mas infelizmente há muita maldade, acidentes acontecem, e a vida aqui tem fim. O que nos resta é aproveitar bem tempo que nos foi dado.

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