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O que nos falta

O que nos falta

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Por Amanda Ferr

Você possui uma casa, uma família, alguns bons amigos com quem se diverte e toma alguns chopes no fim do expediente, e por falar nisso você tem também um trabalho e consequentemente algum dinheiro.

O que te permite algumas contas pagas, outras dívidas negociadas, um cinema e uma pizza no fim de semana e algumas roupas da estação.

Você tem um namorado, alguns discos e livros prediletos, alguns natais em família e periódicas viagens de férias para praia. E sem contar que você é saudável e tem uma boa aparência. Até coleciona alguns admiradores e recebe elogios na rua.

Ora, você tem tudo que precisa. Não tem? Não. Independente de nossas posses, aparência, benefícios e status social, nós nunca possuímos tudo que precisamos.

Porque nunca temos tudo o que desejamos. E o desejo só sobrevive na falta. E nós, pobres de nós, somos seres de falta. O que falta então? A casa?

Não, falta a TV de plasma, o closet, o blue ray, a banheira de hidromassagem. Não falta vestuário, mas falta Dolce Gabana, Gucci, Prada. Falta comida?

Não. Falta a geleia importada, o petit gateu, o caviar. Água? Não, falta Champanhe. Você tem uma família, mas falta aqueles que já se foram e os que ainda nem chegaram.

Falta trabalho? Falta o trabalho ideal, que assegure além de um salário no final do mês, o prazer de estar ali.

Você tem dinheiro? Não o suficiente para passar uma temporada em um SPA, para presentear os amigos, para pagar à vista o jantar de ontem à noite.

Não lhe falta saúde, falta-lhe o corpo minuciosamente esculpido. Você pode até ser bem apessoado, mas lhe falta a cintura da Gisele Bündchen, o charme grisalho do George Clooney, o rosto da Carolina Dieckman, os cabelos da Mariana Ximenes, os olhos do Marcelo Antony.

Você tem um namorado, uma esposa. Mas o que lhe falta é a paixão dos primeiros dias, os sobressaltos, as surpresas diárias, os jantares à luz de vela, o sexo selvagem, as noites na mais sofisticada suíte do motel mais badalado da cidade.

Você tem as férias programadas, as viagens organizadas e previamente pagas, mas lhe falta um Cruzeiro pelo Caribe, uma temporada em Paris, uma estadia em Nova York.

Falta-lhe Frank Sinatra enchendo de glamour suas noites, falta-lhe estrelas no céu da boca, faltam-lhe uma conta na suíça. Faltam os sonhos da infância realizados um a um. Falta-lhe, sobretudo, a infância que você perdeu.

Falta-lhe circos de solei, shows inesquecíveis, mergulhos em Fernando de Noronha. Falta-lhe a parte de você que se encolheu, que perdeu o viço, o brilho, que se enrugou.

Falta-lhe charme, leveza, bolhas de sabão. Ruas mais limpas, políticos mais honestos, polícia menos corrupta. Falta-lhe parques de diversão. Falta-lhe paz contra tiros e balas perdidas. Falta-lhe acima de tudo educar a educação.

O que falta então? Contra a futilidade, utilidade. Falta ser mais humano. Falta mais a falta que faz um ser humano faz.

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