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O CONTRABANDO

O CONTRABANDO

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Por Paulo Solmucci

A raiz do desajuste: O contrabando

Em junho, caminhava eu no centrão de Belo Horizonte. Ou seja: na Praça Sete. Um menino compra um maço de Eight, o cigarro paraguaio que desinibida-mente atravessa as fronteiras abertas da América Latina. A idade do garoto coincide, mais ou menos, com a marca do cigarro.

Qualquer pessoa compra um maço de Eight por R$ 2,50. O cara que vende está por ali, sentado em um caixote.

O Eight é muito mais barato do que os mais baratos dos cigarros nacionais, como, respectivamente, o Minister (R$ 5,00) ou o Derby (R$ 7,00). O menino da Praça 7 comprou o Eight. Poderia ter comprado, quem sabe, umas pedrinhas do crack ‘made in Paraguai’.

Os mesmos contraventores paraguaios ‘importam’ a pasta de coca da Bolívia, do Peru e da Colômbia. O crack é feito de coca, bicarbonato de sódio e água. Por aqui, acrescentam-se cal, cimento, querosene, soda cáustica etc.

Quarenta por cento dos cigarros vendidos na cidade de São Paulo são do contrabando. O Eight é, disparado, o líder de vendas. Mas há também o contrabando do produto semi acabado, que no Brasil é finalizado em fábricas clandestinas. Na composição do cigarro contrabandeado cabe de tudo, até esterco.

As empresas legais perdem por ano R$ 80 bilhões em receita. O governo perde R$ 35 bilhões com a sonegação de impostos. O mais grave, no entanto, é que o cigarro financia toda a operação de contrabando, de A a Z.

A dinheirama do contrabando de cigarro faz girar a roda da contravenção, em negócios envolvendo drogas, armas, bebidas, brinquedos, perfumes, CDs, remédios, roupas, tênis, óculos, pilhas etc.

O cigarro garante o capital de giro de toda a teia, que se estende dos grandes chefes do contrabando aos traficantes, e, infelizmente, a pessoas honestas em busca de um jeito de sobreviver, já que emprego não há. Assim, tornam-se camelôs. Prefeririam, mil vezes, um emprego formal.

Se a gente quiser dar jeito no Brasil, temos de cuidar dos nossos 16,8 mil quilômetros de fronteiras terrestres com nove dos 11 vizinhos, excetuando-se apenas Chile e o Equador.

As mais largas portas para o quase trânsito livre dos contrabandos são as fronteiras com a Bolívia e o Paraguai. Sem considerar drogas e armas, o contrabando tira do Brasil, apenas em impostos, o equivalente a R$ 115 bilhões por ano.

A arrecadação deste montante livraria o país de ter de fazer o duro ajuste fiscal que começou a ser realizado, ainda timidamente. Além de colocar em ordem as finanças nacionais, o fim do contrabando amplo, geral e irrestrito esvaziaria o poder dos contrabandistas de armas e drogas, que tomaram conta do nosso país, arrasando-o de ponta a ponta.

O combate ao contrabando é um objetivo que deve estar indissociavelmente ligado a todas as nossas principais metas: redução da violência e da desigualdade social, geração de emprego, acentuada melhoria dos sistemas nacionais de saúde e educação.

É disso que aquele menino da Praça Sete urgentemente precisa. Ajude-o. Passe esta mensagem adiante. Ele e o Brasil agradecem.

Paulo Solmucci

Paulo Solmucci

Paulo Solmucci - Presidente da ABRASEL (Associação brasileira de bares e restaurantes).

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