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Música Brega

Musica Brega

Musica Brega

Por Lucas Machado

Ilustração:

A sociedade brasileira anda autoritária e, ao mesmo tempo, contraditória. E marcada por profundas desigualdades sociais, que produzem uma legenda de excluídos e consagra a individualidade como um fenômeno existente apenas da classe média para cima, na qual a discriminação é quase que predominante.

Digamos que isso é um fato. Mas, poxa, o que isso tem a ver com o texto? Vamos falar de um capítulo importante do movimento artístico popular que foi esquecido no Brasil: a denominada música “cafona” ou “brega”, um gênero musical que não podemos e não devemos apagar de nossa história.

Assim como a bossa nova e o tropicalismo, dois movimentos mais intelectualizados. É necessário fazer uma diferenciação entre o repertório musical da MPB e da música brega – lembrando que não estou fazendo uma crítica musical, não tenho credenciais para tal.

A primeira era uma instituição praticamente das grandes cidades, cheia de reconhecimento cultural pelas elites urbanas; já a segunda era vista com ares pejorativos, como arte menor.

A música brega, ao longo dos anos 1970 até o final dos anos 1990, fez sucesso de norte a sul do país e se transformou em patrimônio dos grandes contingentes das camadas populares e de renda inferior esquecidas pela historiografia brasileira.

Durante décadas, os artistas foram protagonistas das mais altas vendagens de discos, e suas músicas batiam recordes de audiência nas rádios AM’s e depois nas FM’s.

As características principais da origem dessas canções eram muito populares, chamavam a atenção para a segregação de classes para os menos beneficiados, pois, além dos cantores e compositores serem oriundos das classes sociais mais baixas, cantavam e faziam sucesso entre meninos de rua, prostitutas, homossexuais, empregadas domésticas, mendigos, sem-terra, migrantes nordestinos entre outros, que VIVIAM à margem da sociedade.

Agnaldo Timóteo, por exemplo, era engraxate e vendedor de pastel, Waldick Soriano não teve escola, pois desde pequeno, de enxada na mão, foi trabalhar na lavoura com os irmãos e recordou, certa vez: “Só passava debaixo da roleta no ônibus, pois não tinha dinheiro para pagar.”

Ainda pequenos, os irmãos Dom e Ravel deixaram a cidade de Itaiçaba no interior do Ceará e seguiram com a família pela mesma rota dos nordestinos. Wando era feirante, se alimentava com sobras de comida de uma fábrica de sapatos. E um dos mais famosos, Paulo Sérgio, iniciou sua carreira como aprendiz de alfaiate.

E havia muitos que ainda não foram mencionados como: Odair José, Cláudio Barroso, Benito de Paula, Lindomar Castilho, Luiz Ayrão, Evaldo Braga…Nelson Ned afirma em uma de suas entrevistas: “O Brasil é o único país do mundo com leis estigmatizadas, tais como o negro para cozinha, a mulher para a cama, o anão para o circo e o cego para pedir esmola”.

Independente da consciência implícita ou explícita, as canções daquela geração são um documento de denúncia à falta de respeito e cidadania com que as camadas populares eram tratadas. Eu, meus caros leitores, gosto de música eletrônica e muito de rock’n’roll, mas sou amplamente contra a exclusão em geral e sempre a favor dos direitos humanos.

O que nos restou foi: internet e as mídias sociais ainda para poucos, lavagem cerebral de novelas e reality shows e uma educação fajuta, na qual alunos e professores continuam sem parentes importantes, sem dinheiro no banco e vindos do interior.

 

 

 

Lucas Machado

Lucas Machado

Escritor, profissional de Marketing e Comunicação.

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