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Mães da Praça de Maio

Mães da Praça de Maio.

Mães da Praça de Maio

Por Lucas Machado

Ilustração: Pedro Felipe

“Quem é essa mulher/Que canta sempre esse lamento?/Só queria lembrar o tormento/Que fez meu filho suspirar” Angélica, de Chico Buarque, composta para Zuzu Angel assassinada pela Ditadura Brasileira.

Mais uma vez estamos aqui movidos e viciados em histórias de personagens, marcas e cases que deixaram seus traços para a humanidade. Atravessamos a fronteira, seguimos para a Argentina, saímos dos estádios de futebol, esquecemos Maradona e Messi e vamos contar um pouco de uma história de luta e saudades sem fim.

Meados dos anos 1970: onde estavam os jovens revolucionários do nosso país hermano, marcado por protestos e um povo que luta pelo povo? Grito forte, bandeiras, piquetes e presença marcante nas ruas, sedentos de mudança. Onde foram parar os filhos de uma Argentina dominada pela repressão dos militares? O que restou de uma guerra política covarde, além da tristeza e uma esperança no fim do túnel? Essa é a pergunta que paira no ar e que não quer calar.

A ditadura argentina (1966-1973), das mais sanguinárias da América do Sul, deixou marcas que não se apagarão nunca – os militares assassinaram 30 mil civis, entre eles, crianças e idosos, segundo estimativas de ONGs e organismos internacionais de defesa dos direitos humanos. Imagine o que é perder um filho ainda jovem, cheio de vida e de sonhos. Jovens trabalhadores, universitários e revolucionários foram torturados e arrebatados apenas por quererem um mundo melhor para todos.

Muitos desistiram e silenciaram, outros enlouqueceram, mas eles não estavam sozinhos nessa luta. “Coração de mãe nunca esquece.” É sobre elas que estamos falando, sobre essas mães diante de uma política destruidora que faziam o jantar esperando seus filhos, que nunca mais voltariam. E foram elas que se revoltaram e foram à luta com cartazes, roupas usadas e fotos nas mãos, com vontade de saber o destino de cada um deles para amenizar a dor.

Afinal, quem são essas mães? São as Madres de Plaza de Mayo (Mães da Praça de Maio). A princípio eram poucas, que já estavam cansadas de esperar. Uma delas, Azucena Villaflor, se transformou em uma das fundadoras e líder do movimento. Tomou a frente, convocou todas e todos para se reunirem na Praça de Maio. Conseguiram, e a primeira marcha aconteceu em abril de 1977. E as Madres seguem, até hoje, todas as quintas-feiras, na mesma Praça de Maio, em frente à Casa Rosada, sede do governo. Desde 10 de dezembro de 1977, Azucena é dada como desaparecida.

A partir do primeiro encontro, a Praça de Maio se tornou o lugar onde elas se sentiam iguais – apesar de diferentes a causa sempre foi a mesma. Aos poucos, o número de mulheres aumentava, o que despertou os olhares da polícia, que chegava com bombas de gás e, em poucos minutos, acabava com as manifestações. Os jornais, em conivência com a ditadura, não davam notícias. O pano na cabeça, símbolo das Madres, era justamente para diferenciá-las dos demais espectadores. Elas chegaram quase a desistir, estavam prestes a jogar a toalha, quando resolveram fazer uma associação com o nome que entrou para história pelo qual elas já eram conhecidas: Asociación Madres de Plaza de Mayo.

Por causa da censura, para não chamar a atenção, faziam orações e substituíam os boletins de cânticos por panfletos recheados de protestos. Assim, tomava-se conhecimento sobre os desaparecimentos. Apesar de algumas delas terem tido o mesmo destino dos próprios filhos, foram adiante. As armas não derrotaram a voz. As Madres ganharam a mídia por insistência, mostraram o movimento aproveitando o Mundial de 1978, na Argentina, quando a imprensa internacional revelou ao mundo o que acontecia naquele país.

A partir dos anos 1980, voltaram com força total, mesmo depois de serem humilhadas, maltratadas e espancadas. Mães que queriam uma resposta, combatendo a força militar em busca da justiça. Essas mulheres não vão e não podem ser esquecidas nunca. O grito que desperta: “Os ideais dos nossos filhos nunca morrerão”.

Abraçaram várias causas sociais, têm programa de rádio e a revista ‘Ni um passo atrás!’. E mantêm uma universidade revolucionária popular que não é reconhecida pelo governo, mas forma pessoas mais justas e do bem, que, com certeza, sabem que um diploma reconhecido nunca será mais importante do que dias de luta. É isso: Destrinchando é falar, não para o silêncio. É ter um ideal, existência sem igual, justiça com fidelidade em busca da verdade. A Disneylândia, caro leitor, com certeza não é aqui.

Destrinchando – Guerreiro do Asfalto

Lucas Machado

Lucas Machado

Escritor, profissional de Marketing e Comunicação.

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