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Lucas Machado entrevista Helvércio Ratton

Lucas Machado entrevista Helvércio Ratton.

Por Lucas Machado

Helvécio Ratton – Mineiro, com muito orgulho

Lucas Machado entrevista Helvércio Ratton.

Destrinchando – Jornal Estado de Minas

Por Lucas Machado

Helvécio Ratton – Mineiro, com muito orgulho

Nascido em Divinópolis, Ratton, passou parte de sua infância e parte de sua adolescência em Belo Horizonte. Casado, pai de quatro filhas, quase economista, formado em psicologia pela PUC MG, é sem dúvida um dos maiores nomes do cinema nacional e internacional da atualidade. Como foi possível um homem com o passado totalmente marcado pela perseguição política alcançar o sucesso? Convido vocês a conhecer um pouco da história desse grande cineasta que, através de suas ideias, pôde expressar toda a sua criatividade. Em seu portfólio, nada mais nada menos, que filmes como: “Menino Maluquinho”, “Dança com Bonecos”, “Amor e Cia”, “Uma onda no Ar”, dentre outros. Os filmes dele foram premiados várias vezes dentro e fora do Brasil. Para Ratton, um bom filme se faz, inevitavelmente, com muito esforço e persistência, além da vivência histérica de várias gerações. Para se dedicar a essa arte é preciso, acima de tudo, “pensar grande”, ser ousado e nunca transgredir suas crenças e princípios. Iniciamos nossa entrevista ao som de vinhetas dos anos 60 e rimos muito. É isso… Por trás das lentes, na íntegra, HELVÉCIO RATTON…

 

1. Você nasceu em Divinópolis. Quando veio para Belo Horizonte?

Vim pequeno, porque eu nasci lá, mas por ali fiquei bem de passagem, porque meu pai era juiz de direito e esteve em diversas cidades. Na verdade, meu pai ficou pouco tempo em Divinópolis. Na minha família nós somos seis filhos, eu sou o quinto. Eu fiquei até dois anos em Divinópolis e depois me mudei, junto com a minha família para uma cidade chamada Peçanha, que fica para os lados de Guanhães e quando eu estava com cinco, seis anos, nos anos 50, viemos para Belo Horizonte.

 

2. Qual foi o seu primeiro contato com o cinema?

Lembro-me do cinema ainda bem pequenininho quando morava em Peçanha, cidade onde assisti cinema pela primeira vez na minha vida. Lembro que a gente, garoto ainda, com quatro, cinco anos, ficava olhando os cartazes de filmes, loucos para que chegasse ali. Então, vi cinema no interior e, desde pequeno sentia uma atração muito grande por ele. E foi na adolescência que passei a sentir-me muito mais atraído pelos filmes, mas nesta época, eu ainda não via o cinema como um caminho profissional. Só mais tarde, quando comecei a ver cinema brasileiro, com 16, 17 anos, é que pensei na possibilidade de também fazer aquilo ali. Quando eu via cinema americano, aqueles filmes grandes sentia que era algo muito distante de alcançar… Quando comecei a ver os filmes brasileiros, apesar de terem suas imperfeições, sentia que era algo mais próximo e aquilo me despertava muita vontade de fazer, principalmente porque dizia uma realidade que eu via, uma vida que estava ali na minha frente. Na verdade, me aproximei do cinema nessa época.

 

3. Você estudou no Colégio Universitário, sua formação qual é?

Eu fiz economia que não terminei e depois fiz psicologia, mas eu fui para o exterior, morei fora do Brasil. Na verdade eu comecei a fazer cinema profissionalmente, no Chile. Morei lá nos anos 70 e foi onde continuei fazer economia, mas larguei para sempre, porque tive a chance de fazer cinema. Esses acasos da vida assim…

 

4. No início da sua carreira você chegou a fazer filmes publicitários e institucionais. Isso chegou a ser uma escola para o cinema mesmo que em termos técnicos, como a luz, enquadramento, locações, etc.

Quando voltei para o Brasil, em 74, meu desejo era trabalhar com cinema, assim como estava trabalhando no Chile, mas o cinema era uma profissão muito difícil. Você chegar e dizer: vou ganhar dinheiro com o cinema, vou ganhar minha vida com o cinema, (e voltei casado inclusive), não é algo que se faz da noite para o dia. Então, nessa época, me aproximei da publicidade. Comecei a trabalhar em agência, em produtora e a fazer comerciais, filmagens institucionais, comentários… O que, pra mim, foi um exercício muito grande, porque eu lidava com os mesmos meios. É lógico que a função era outra, pois no caso da publicidade o trabalho é sob encomenda. No caso do cinema é uma coisa mais autoral, é escolher os temas, o que está atrás deles, mas é um exercício muito bom e aprendi muito fazendo publicidade.

 

5. O que é cinema para você?

Cinema é um meio… É a linguagem que eu escolhi na minha vida, que me atraiu muito, que é o contar histórias através das imagens e dos sons. Às vezes, a gente fala só da imagem, mas cinema é som também, vem à música.

 

6. Como é dar vida aos seus personagens? “Menino Maluquinho” deu vida a um personagem literário… Você já conhecia o Ziraldo? “Uma onda no ar” deu imagem a uma rádio…

O filme que eu fiz antes de “Menino Maluquinho” foi o “A Dança dos Bonecos”. Eu escrevi e filmei pra crianças e foi um filme que fez muito sucesso na época, ganhou muitos prêmios, foi muito bem recebido principalmente porque no Brasil a maior parte dos filmes infantis não são muito bons. Com o “A Dança dos Bonecos”, mostrei que a gente pode fazer coisas muito melhores e, com isso, pessoas que estavam interessadas em fazer o “Menino Maluquinho” me convidaram. O Ziraldo me chamou e nós trabalhamos juntos no roteiro, quer dizer, trabalhei junto com o Ziraldo para fazer o roteiro. Eu conhecia o Ziraldo superficialmente  e, foi através desse filme que a gente se aproximou mais. Tivemos uma convivência maior trabalhando com o roteiro e, depois o filme ficou por minha conta, foi a minha visão do Menino Maluquinho. E foi ótimo porque eu gostava muitíssimo do livro! Sempre achei que aquele menino que o Ziraldo criou tinha um sentimento poético muito legal e, assim, eu me identifiquei muito com a minha infância, com aqueles garotos… E acho que todos os garotos, ou a maior parte dos pais, achavam que tinham um menino maluquinho em casa. Para mim, foi um prazer enorme transformar aquela história… Que era pequenininha e que tivemos que aumentar… Criar para outros fatos, outros personagens, para que pudesse ir para frente.

No caso da Rádio da Favela, que foi outro processo muito interessante de construção, tive que dar imagem a uma voz, a um som que eu ouvia no rádio do meu carro. E eu ouvia sempre essa rádio diferente. Era uma favela aqui pertinho. Um dia resolvi subir o morro para conhecer aqueles caras lá. Eu achava muito engraçado o papo deles. Engraçado é uma palavra muito forte, mas era uma pegada social, eles, dentro dos direitos deles, direitos da comunidade, essa coisa toda. Daí resolvi subir o morro para conversar com eles, gostei muito da conversa com Misael, gostei muito da história dele e me deu vontade de contá-la através do cinema e fazer com que  as ondas da rádio chegasse além da possibilidade da onda física mesmo. E foi aquela história que passou por vários países. Acabo de chegar da França onde o filme foi lançado em DVD, foi lançado também na Alemanha, na Espanha, ou seja, essa rádio foi longe.

 

7. Como tratar assuntos polêmicos como drogas, polícia, etc. sem agredir as pessoas?

Delicada a pergunta. Esses assuntos são difíceis de lidar. Estou fazendo “Batismo de Sangue”, que mostra gente que foi torturada, espancada, certa violência… Mas você tem que contar isso no cinema, mas com certo cuidado, para que isso não acabe agredindo o espectador. Até que ponto o espectador é capaz de suportar um sofrimento na tela? Como colocar isso sem que você torture o espectador? É uma coisa um pouco difícil encontrar o equilíbrio para falar sobre temas difíceis, espinhosos, de maneira leve, que seja interessante para quem está assistindo. Você não sabe como o outro vai receber essa história que está contando. Agora, o fato de eles serem difíceis não quer dizer que você não deva abordá-los, ao contrário, a vida não é só de coisas boas, e o cinema fala da vida, então fala de tudo. Tanto fala de amor, quanto fala da violência, da morte. Tudo isso é assunto do cinema, de certa forma, é matéria do cinema. Mas acho também que cada um tem seu estilo pessoal de abordar esses temas. Uns têm a mão mais pesada, outros têm a mão mais leve. Isso depende da forma que você escolhe para contar a sua história.

 

8. Até que ponto Minas Gerais influencia seus filmes?

Muito. Minas Gerais é o cenário praticamente de todos os meus filmes. Mesmo em “Batismo de Sangue”, cuja história se passa em São Paulo, filmei em Minas Gerais como se fosse São Paulo. É o cenário que eu mais conheço o lugar onde eu vivo o lugar onde posso filmar que eu conheço a luz, sei a que horas ela acaba, quando chove, quando não chove e Minas têm cenários riquíssimos e muito variados.

 

9. Pablo Villaça escreveu sua biografia “O cinema além das montanhas”. O que você sentiu ao ter uma biografia ainda em vida?

No início eu fiquei até meio cabreiro. Pô, eu ainda trabalhando muito! Que momento é esse de biografia? Eu com 50 anos de idade… Ainda não é hora de biografia! Quando você pensa em biografia, logo pensa num cara que está com 80, 90 anos. Mas, eu achei interessante, porque na verdade não é tanto uma biografia. Esse livro faz parte de uma coleção chamada “Aplausos”, que quer mostrar a quem está começando – em cinema, teatro e televisão – a forma de trabalhar dos profissionais que estão aí. A ideia é montar um painel grande dessas áreas como se fosse um retrato do artista agora, nesse momento. Até pensei: daqui dez anos tem que fazer outra, desenvolver outros assuntos, outros filmes! Mas gostei muito do trabalho que o Pablo fez. Achei que ele soube me retratar bem, equilibrar essa coisa de trabalho, de vida particular…

 

10. Sabemos que você foi premiado várias vezes em festivais importantes, como o de Gramado, o de Miami, de Paris… Quais prêmios te marcaram mais, como é ganhar prêmios que contam histórias de seu estado?

Essa história de prêmios é importante, não pelo status e pela estatuazinha que você ganha, mas porque o premio ajuda a jogar uma luz sobre o seu trabalho. Ele destaca o seu trabalho naquele momento. Uma vez que você fez um trabalho que você quer que as pessoas vejam, o prêmio atrai o olhar das pessoas. Poxa!… Aquele trabalho foi premiado! Nesse sentido é muito importante. Obviamente, alguns são mais importantes que os outros. Nós ganhamos, por exemplo, com o “Uma onda no Ar”, um premio na Espanha que permitiu a distribuição do filme naquele país. Um dos prêmios mais importantes que recebi, chama-se “Margarida de Prata”, que é dado pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil a alguns filmes que estimulam que tem uma visão humanista. Ganhei este prêmio com o “Menino Maluquinho”, com o documentário “Em nome da razão”, que fiz num hospício em Barbacena e, recentemente, com “Uma Onda no Ar”. Quer dizer, ganhei três vezes esse prêmio que, pela razão dele de ser, pelo seu conceito, pela sua ideia, é um prêmio que gosto muito e acho muito bonito.

 

11. Seu novo filme, também filmado em Minas, “Batismo de Sangue”, vai tentar do tema da ditadura militar e “Uma Onda no Ar” também trata da censura. Você sofreu com a ditadura, foi exilado e tudo mais. Essas suas vivências  pessoais influenciaram seus filmes? Eles chegaram a ser um olhar intimista? Como foram suas vivências durante o período da ditadura?

É claro. Quando teve o golpe eu tinha 14 anos de idade. Isso me marcou muito, porque eu estudava no Colégio Militar na época e senti muito isso. Então eu cresci nesse momento, vendo esta coisa da censura, da repressão… Porque na minha casa, meus irmãos mais velhos eram muito politizados e traziam sempre essas conversas para dentro de casa. Fui participando muito dessas coisas e vendo que no mundo inteiro, naquele momento, no final dos anos 60, os jovens estavam lutando para mudar o mundo. Isso aconteceu da França com o movimento de maio de 68, e em vários outros lugares do mundo. Na época houve a revolução cubana, a figura do Che Guevara era muito forte, acho que tudo isso me mobilizou a pensar que a gente podia mudar o mundo para melhor, que o mundo poderia ser um lugar melhor na medida em que as pessoas, principalmente os jovens, que tem mais energia, pudessem botar isso em prática, botar a mão na massa e entrar numa de enfrentar os desafios, a repressão. Só que isso não é fácil não. Você enfrentar um exército, só com outro exército! Ninguém pode enfrentar… Na época, até mesmo porque éramos jovens, tínhamos muita ingenuidade e só uma ideia – a de que apenas com generosidade e coração, éramos capazes de mudar o mundo. Só que não é bem assim, quando existe, de outro lado, uma força que está destinada a manter as coisas como elas são, usar a força bruta para isso, como aconteceu naqueles anos, quando a democracia foi extinta, não se podia escrever o que queria, as liberdades foram suprimidas, e talvez, até quando uma pessoa da sua idade não viveu aquele período não percebe o que foi aquilo. Isso logicamente me marcou, mas não é só disso que quero falar não, mas isso é uma parte importante também. E nesse caso, por exemplo, o “Batismo de Sangue”, que foi escrito pelo Frei Betto, que contou como os padres dominicanos daquela época participaram do movimento contra a ditadura militar e o alto preço que eles pagaram, foram presos, torturado. O personagem principal, Frei Tito, acabou suicidando num certo momento, na França, porque sempre vinha à memória dele o que tinha sofrido. Ele nunca conseguiu de livrar daquelas imagens diante dos torturadores e acabou se matando. É um filme forte que mostra como foi essa época para esse grupo de pessoas, no caso, os religiosos, que decidiram enfrentar. Através dessa história, eu conto também um pouco da minha história, da minha o  participação nesse movimento. Quer dizer, contando a história deles, eu me sinto contando a minha também.

 

12. Quais são seus próximos projetos?

Quero voltar a fazer filmes para crianças. Na verdade, filmes para crianças e adultos. Foi uma história que escrevi que chama “Contos de riso e medo”. São histórias mais curtas, quatro histórias no filme, feitas para divertir tanto crianças como adultos, pois eu penso que um adulto leva uma criança as um filme. Eu sempre penso que tenho que divertir essa criança e o adulto também. Esse é meu próximo projeto.

 

13. Quando você tem suas horas vagas o que você gosta de fazer?

Meu lazer… Eu leio muito, vejo muitos filmes, ouço música, passeio. Agora vou entrar de férias e vou para uma praia na Bahia.

 

14. Que mensagem você gostaria de passar para quem assiste cinema e para quem quer trabalhar com cinema?

São duas coisas muito diferentes. Pra quem assiste, eu quero contar uma história que divirta e o que, de repente, o faça pensar um pouco também. Eu gosto dos filmes que não acabam só quando você sai do cinema, que continuam dentro da cabeça do cara. Quero deixar um pouco, umas minhocas na cabeça do cara para ele pensar depois, mas principalmente, se divertir quando estiver sentado ali na frente. Eu acho que o cinema é diversão em primeiro lugar. Se for uma diversão com pensamento, acho melhor ainda. Agora, para quem quer fazer cinema, tem que ter paixão, porque é uma profissão difícil, é sobrevivência na selva. O cara tem que estar muito preparado para ela, tem que estar preparado para conviver com o fracasso e também com as dificuldades de realização. No momento em que você vai passar um filme pela primeira vez para as plateias é um salto no trapézio, a gente nunca sabe como a plateia vai reagir. E isso é, ao mesmo tempo, o grande desafio, o grande barato da arte, não só do cinema, mas da arte como um todo.

Lucas Machado

Lucas Machado

Escritor, profissional de Marketing e Comunicação.

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