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Lucas Machado entrevista Gabriel Prata

Lucas Machado entrevista Gabriel Prata

 

Destrinchando

Por Lucas Machado

Um dos maiores erros de não arriscar, não correr atrás do que você acredita, de sair da zona de conforto, é fugir, mesmo que em níveis mínimos, da margem de escolha, da autonomia do gosto. Para se sobreviver e mais do que isso, para revolucionar, mudar o sistema tradicional de uma cidade, de um movimento coletivo, é preciso aceitar o novo é inovar, que o presente se sobressaia sobre o passado, uma verdadeira dignificação das novidades.

Que significa uma inversão fundamental na orientação de uma cultura de liberdade. É preciso mais do que nunca relacionarmos com o reconhecimento do “direito” de todos de diferenciar-se, de singularizar sua jornada, portanto de mudar.

Convido vocês nobres leitores, a conhecer a vida de um verdadeiro transformador cultural, BH agradece.

Lucas Machado: Como começou a sua trajetória profissional?

Formei em direito pela UFMG, em 2011, durante sete anos eu trabalhei no Tribunal de Justiça, como assessor. Já nessa época eu assumi o cargo de assessor de um desembargador do tribunal de justiça na área criminal. Depois de sete anos trabalhando no funcionalismo público fui me desconectando aos poucos, percebendo assim que a vida poderia ser vivida em outros lugares profissionalmente falando e eu acho que foi uma busca meio pessoal assim de renovação. Eu acabei mergulhando na cena cultural, um lugar que eu sempre me identifiquei.

Lucas Machado: Mas enquanto funcionário público você já frequentava a cena cultural de Belo Horizonte?

Sim, a vida inteira eu fui meio que o ponto chave na turma de amigos e conhecidos para indicar onde as pessoas tinham que ir, enfim as pessoas sempre me procuravam para saber o que ia ter no fim semana. E eu fazia isso de forma intuitiva, sempre dando as dicas e sempre muito ativo na cena cultural, conhecendo muita gente. Foi quando rolou essa desconexão do Tribunal de Justiça, que foi em 2018.

Lucas machado: Você considera que no Tribunal de Justiça você estava na zona de conforto?

Sem sombra de dúvidas, foi um emprego que me foi oferecido num momento em que eu era muito novo e o salário era muito bom e eu aceitei a oportunidade. Em 2018, foi quando eu tive uma experiência que talvez tenha sido o divisor de águas, eu fui convidado para ir para a Coreia do Sul, para participar das Olimpíadas de inverno. Voltei e pedi minha exoneração.

Falei a partir de agora eu quero me dedicar para algo independente, que de fato eu acredito. Foi muito engraçado, porque antes de ir para a Coréia do Sul eu sou uma pessoa muito ligada ao carnaval de Belo Horizonte, desde o seu renascimento em 2009, comecei a me envolver com os blocos de rua, com essa articulação e eu inaugurei a minha carreira como produtor de o conteúdo na área cultural produzindo um guia do carnaval aqui para o Guaja em 2018.

Horários flexíveis, de viver a minha criatividade na máxima potência e eu acabei me valendo desse gatilho para poder dar vazão ao sentimento e a uma vontade muito visceral minha, que era fomentar ainda mais a cena cultural, que eu percebia que desde 2009 estava crescendo e que hoje alcança o grande ápice que a gente vê em BH nos últimos 30 anos.

Lucas Machado: Quais tipos de eventos é mais o seu foco? Que engloba todo tipo de público?

Sim, claro que eu sempre procuro dar mais visibilidade par eventos independentes, autorais e gratuitos. Expandir a acessibilidade da cultura com roles bem legais, que a galera possa se identificar e se sentir pertencente, então meu foco acabou sendo um pouco nisso. Muitos roles ligados a ocupação urbana, então eu acho que viver o role em BH se tornou um grande ato político. Você estar na rua, em um role especifico, então você está ali para se posicionar politicamente. Então eu com a minha postura política e da forma como eu enxergo o mundo prefiro dar um pouco mais de vazão para esses eventos que fossem independentes, autorias, mas claro sem deixar de lado os outros, mas o meu foco sempre foi esse.

Lucas Machado: Mas os outros seriam quais, por exemplo?

Eventos feitos por grandes produtoras, grandes festivais, que também eram divulgados, mas o foco mesmo eram os eventos que aconteciam no baixo Centro, Viaduto Santa Tereza, eventos até em casas… Não tem ninguém divulgando eventos desse estilo, desses portes, enfim, vou começar a me dedicar a isso.

Lucas Machado: O que é o Guaja no rolê?

É um guia cultural, que desde março de 2018 eu desenvolvo para o Guaja. Eu entrei como uma parceira e prometi desenvolver um braço cultural para o Guaja e hoje esse braço cultural acaba sendo um dos grandes chamarizes para o engajamento que o Guaja recebe no site, Instagram, etc.

Lucas Machado: E como é feito esse trabalho?

Começo a partir de uma pesquisa pessoal minha, eu tenho uma planilha e vou pesquisando eventos em vários portais tanto institucionais da Cidade, como o da Fundação Clóvis Salgado, alguns sites de bilhetagem, Palácio das Artes, enfim eu vou buscando nesses canais e também nos eventos do Facebook e vou recebendo muito email de assessoria de imprensa. Então quando eu termino de selecionar os meus eventos, eu dou uma filtrada naqueles emails que eu recebo, porque a gente recebe eventos de todos os estilos e daí eu formato uma seleção e jogo para o guia, esse é alimentado semanalmente de uma forma bem recorrente, todo dia eu vou jogando um evento lá. E as sextas-feiras eu faço stories, eu coloco minha cara lá no perfil do Guaja e vou divulgando dentre aqueles vários eventos que trouxe na agenda digital, os principais, que seriam inclusive os eventos que eu iria naquele fim de semana.

Lucas Machado: Na sua visão existe um BH antes e depois do carnaval de 2009?

Sem sombra de dúvidas, o carnaval foi o grande responsável por impulsionar a cena cultural de BH como um todo e esse crescimento se deu nesses últimos 10 anos. O renascimento do carnaval foi em 2009, e foi muito engraçado o motivo pelo qual o carnaval renasceu, porque foi uma insurgência política. À época o Marcio Lacerda tinha decretado uma portaria determinando o cerceamento de todas as praças públicas, proibindo o povo acesse essas praças durante o período de carnaval, e o carnaval em BH em 2009, ele veio exatamente em contraponto a essa determinação, um ato político mesmo.

Lucas Machado: Apartidário?

Exato, a praça é do povo, o prefeito não pode, é arbitrário esse tipo de decisão em cima de um bem comum que deve ser ocupado, principalmente durante uma festividade tão comum no Brasil. E a partir daí começou esse movimento todo e como eu disse ele acabou se reverberando e refletindo pelo resto do ano e as pessoas foram percebendo a potência e isso foi viral. Esse movimento que alcançou todos os recortes da cena cultural.

Mais do que eles se organizarem em datas para não bater, eles se juntam para tornar aquele gênero ainda mais potente. E você não acha que isso lá em 2009 começou a ser feito também, foi um dos empurrões para isso começar a acontecer.

Sem dúvidas, foi naquele momento que pelo menos as pessoas mais envolvidas na cena do carnaval começaram a articular. Nesse momento eles começaram a se articular com base nessa comunhão de sentimentos em relação a política assim e foi a partir daí que o carnaval surgiu e é a potência que é hoje, foi por uma articulação que aconteceu ali em 2009 e acabou desmembrado no carnaval gigantesco que nós temos hoje em dia e eu acho que se bobear, se eu não me engano é o segundo maior do Brasil.

Lucas Machado: O que você faz hoje exatamente?

Hoje em dia eu me dedico além da curadoria dos eventos para a produção e edição do guia Guaja no role, eu também promovo alguns eventos mensais, que a gente chamou de Além do role aqui pelo Guaja também, e eles acontecem na Central, (Central é lá na Praça Rui Barbosa, no Galpão 104). A Central tem um restaurante dentro do Galpão 104. E o Além do role são encontros mensais, que a cada edição a gente elege temas relevantes para a cena cultural, fazemos um roteiro, convoca alguns convidados, pessoas que estejam relacionadas com aquele tema e abrimos uma grande roda de discussão horizontal, sem discussão, que o público tem constante participação. E a gente troca muito para entender quais são as dores…

Lucas Machado: Existe dia e hora certo. Quando acontece?

Venho com o guia o cultural semanal, eu venho com o Além do rolê, que são esses encontros mensais, hoje em dia eu participo de um projeto junto a Ambev como agente cultural na cidade, em que a gente mapeia as iniciativas, movimentos, estabelecimentos, coletivos, que enfim são pulsantes e são muito interessantes para a cena cultural e acabam sustentando todo esse furor que rola hoje em dia, pra enfim a gente fechar parcerias, bonificar alguns eventos, no sentido de fazer realmente que todas essas iniciativas se sustentem. Eu acho que o grande desafio da última década em BH, foi fazer que essas ideias tivessem sustentação econômica. E apesar de a gente sempre querer…

Principalmente que sejam de iniciativa privada, porque se depender de política para tudo a gente está perdido. Exatamente, e agora principalmente que as leis de incentivo estão cada vez mais arrochadas, acaba que o meu trabalho entra muito no lugar de fazer com que essas pessoas consigam ter os seus eventos e movimentos sustentados, o meu objetivo é esse. Enfim, eu venho fazendo esse trabalho como agente cultural, produzindo vários eventos também, seja como produtor executivo, ou como integrante da equipe da Ambev como agente cultural e venho articulando também com os grandes agitadores.

*Quer saber mais do trabalho do Gabriel:

Seguem minhas redes sociais e onde o pessoal pode encontrar meu trabalho:
@gabrielprataf (instagram)
Além disso, seguem os links de alguns artigos que confeccionei:

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Lucas Machado

Lucas Machado

Escritor, profissional de Marketing e Comunicação.

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