Lucas Machado

Livro Renato Russo

Livro Renato Russo

Título: Renato Russo “Só por hoje e para sempre”.
Renato Russo – Por Lucas Machado
Foto: (Divulgação) Companhia Das Letras

Livro Renato Russo
Sabemos que sob os dados do IBGE, mesmo que nem sempre assertivos a cada dez famílias brasileiras nove, sofrem com algum dependente químico. Esse livro escrito pelo próprio, Renato Russo, conta exatamente o que ele passou nos vinte e nove dias aos quais se internou na Clínica Vila Serena, por onde passaram diversos, artistas e famosos.

Esse livro de maneira especial me impressionou muito pela veracidade e pela forma com que o músico e poeta, interpreta sua vida e seu cotidiano na clínica. Eu resolvi colocar aqui a sua escrita ao final do livro que deixa claro muitas coisas. Entre elas a personalidade e caráter que são extremamente alterados com o consumo exacerbado de drogas e álcool, e que com certeza para se sair dessa é imprescindível o querer e talvez o não mais importante mas o imprescindível, que é o lado espiritual.

Seguem as palavras de Renato Russo no seu texto ao final do internamento:

“O maior conflito que vivia na ativa era o de só me sentir bem comigo mesmo quando alcoolizado ou drogado, e, por fim nem isso mais estava conseguindo. Tudo para mim era dor, solidão e injustiça. Achava o mundo cruel e sem sentido, e as pessoas estúpidas, ignorantes, falsas e más. A autopiedade e a culpa se revezavam com agressividade, intolerância e hostilidade. Parecia fazer tudo por obrigação: me alimentar, dormir (quando não dormia para esquecer, fugir ou por cansaço), me relacionar com as pessoas e trabalhar. Ser feliz era uma obrigação, tentar manter o bom humor, a esperança e a vontade de viver, idem. A droga e o álcool me traziam momentos de euforia e então fazia planos, conversava alegremente com amigos, percebia meu potencial, aproveitava o resultado do meu trabalho, apreciava ter casa própria com todos os meus requintes desejados, uma ótima biblioteca, uma sala de som completamente equipada, a geladeira abarrotada de produtos importados, uma sala de vídeo com laser e tudo. Tudo em vão não conseguia sentir plenamente feliz e isso era fuga.

Passei a desconfiar dos meus amigos, e tudo que percebia como falso(ou contra minha vontade e meu jeito de ver as coisas) era justificativa para que eu me isolasse cada vez mais, só procurando as pessoas que realmente me entendiam. Eu era várias pessoas em uma só (usava muitas máscaras) e só com dois amigos continuei como eu era. O resto não me interessava. Me sentia desprezado e incompreendido. Tinha raiva. Culpa, auto piedade quase nenhuma autoestima verdadeira. Agora na segunda para terceira semana de tratamento está tudo mudado. Tenho me alimentado regularmente, estou dormindo bem, estou me sentido tranquilo e feliz. Os primeiros dias foram difíceis. Me via cético, ressentido e alheio ao programa. Isso logo mudou. Pouco aos poucos estou entrando em contato com meus sentimentos, descobrindo o valor das pequenas coisas, ficando surpreso por conseguir dominar minha impaciência, irritabilidade, raiva e intolerância. Minha autoestima está voltando, assim como meu interesse e carinho pelas coisas. Entre os aspectos negativos está o meu não conformismo (que é mais forte que pensava) e minha necessidade de me sentir especial e diferente (que devo trabalhar). O mais difícil para mim é praticar o desligamento emocional ( me identifico de mais as vezes com outras pessoas) e entrar em contato com o poder superior. Isso é muito difícil para mim, já que até agora o pessimismo e desesperança tem sido traços básicos da minha personalidade. Me isolei nos meus estudos por muito tempo o que aguçou meu espírito crítico. Sou ainda perfeccionista e exigente (principalmente no campo estético), mas tudo bem. Agora na segunda para terceira semana de tratamento está tudo mudado.

Quem conhece Pasolini Ernest Lubitsc não vai gostar muito do “Domingão do Faustão”, por exemplo (acho o programa vulgar manipulador e “facistóide”, apelando para instintos básicos e preconceituosos – mas agora é até divertido para mim, de tão idiota). Antes fazia questão em me isolar em sofisticação e estéticas “superiores e alternativas”. Agora me vejo aproveitando as coisas simples da vida. Mas não pretendo exagerar, já que prezo muito minha inteligência, sensibilidade e cultura. Primeiro mesmo que eu pareça sendo esnobe. Não é nada disso. Qualquer pessoa que comprou um bom 3×1 sabe que é difícil voltar a vitrolinha portátil do passado.

No mais espero progredir como ser humano, a cada 24 horas, sempre ciente da minha doença. Isso vai ficar cada vez menos difícil, pois a partir do programa minhas qualidades estão ressurgindo naturalmente: honestidade, sinceridade, inteligência, sensibilidade, senso prático coragem, independência e pioneirismo – além é claro da minha criatividade. Sempre me achei o máximo agora tenho uma boa razão para isso! Estou voltando a ser eu mesmo!

Terei problemas certo, mas nada como na época da minha dependência. Serão problemas normais, comuns a qualquer pessoa, e não a tragédia grega em Cinemascope que era minha vida até chegar em Vila Serena. Se conseguir trabalhar meu imediatismo ( a vontade de sempre ser o primeiro e ter meus desejos satisfeitos na hora), minha tendência para racionalizar e seguir a oração da serenidade e os doze passos. Eu chego lá”.

Lucas Machado

Lucas Machado

Escritor, profissional de Marketing e Comunicação.

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