EntrevistasLucas Machado

Leo Bike

Leo Bike

Este texto que você irá ler contém muitas histórias; trata-se de histórias de um amigo. Conversamos com muitas pessoas para chegarmos até aqui. Temos como objetivo no DESTRINCHANDO, além de falar do universo da moda masculina, contar sobre personagens e pessoas que realmente fazem acontecer. Essa história de vida sobre a qual falaremos um pouco por aqui irá mostrar um cara que ama o que faz, e um dos porquês BH é hoje a “famosa Califórnia do Mountain Bike”.

Para que este texto se tornasse realidade contamos com colaboradores ímpares. Agradeço a todos. Precisamos contar um pouco mais do nosso passado para que possamos justificar e entender o presente. Mostrar BH para o mundo, o que ela produziu de importante durante as últimas décadas, coisas que talvez nenhuma tecnologia seja capaz de transpor com tamanha realidade; um trabalho honesto com o propósito de valorizar pessoas da capital mineira e além das montanhas.

Leo Bike

Afinal de contas para materializarmos qualquer sonho, se desejamos chegar a algum lugar, não basta apenas contar com saúde e intelecto: é preciso equilíbrio. Para quem conheceu essa história em particular ou ouviu falar, sentirá intensamente um pouco mais: a esperança de que passo a passo, o ser humano caminhe em direção a novas atitudes, para uma vida mais consciente e reconheça que não sobrevivemos nesse mundo apenas para contar histórias como essa aqui e, sim, acima de tudo, deixar exemplos vivos de que, quando nos voltamos para nosso interior e optamos por viver em perfeita harmonia, somos extremamente capazes de suportar tudo.

Sinto-me honrado por ter sido chamado a atenção para contar essa história de vida, pela oportunidade de sentar lado á lado com o Léo e falarmos de suas experiências e em tudo que ele faz ao levar alegria onde o individualismo e a falta de oportunidades não param de crescer. Caros amigos das antigas, parentes, nobre leitor, quem se entretiver nessa história, à medida que prosseguir na leitura, terá dado um passo a mais para conhecer uma pessoa íntegra e do bem. Isso com certeza nos trará mais coragem e nos fará um pouco melhores.

Lucas Machado

“Só Alegria”.

Léo e Rick foram nascidos e criados no Bairro São Bento. Eram ruas de terra do número 0 ao número 10. Começavam onde é hoje um conjunto de prédios, que tem uma pizzaria embaixo, o Pizzarela. Lá se localizava um parque para crianças e também onde as primeiras obras começaram a serem feitas. E acima das quadras, era o famoso Bar do Melzinho. Para além não havia mais nada.

Começaram a pedalar mais por causa do terreno; quando em tempo de chuva saíam e corriam para a lama a andar de Bike. “Sempre tínhamos pistas em lugares diferentes; enxergávamos uma área vazia e de repente fazíamos uma pista. E a gente dominava. Época das BMX fazíamos muita trilha de moto, também na época das DT 180”, comenta Léo.

Estudaram  no Pitágoras, Cidade Jardim, na proximidade. O resultado mais sóbrio é que nunca foi dada a devida importância a ponto de registrar essas lendas da cidade, assim como tantas outras significativas não só para Minas, como para o Brasil.

Então, com a palavra Leonardo. O Léo do São Bento, da América, da Finlândia, do Melzinho, do Arraial D’ajuda, Caraíva, Serra do Cipó. Léo Rocha, o Léo Bike.

Você e o Rick sempre tiveram aquela coisa de viajar, de ficar muito pouco em BH. Conta um pouco dessas viagens mundo a fora.

Antigamente se era adulto a partir dos 18 anos de idade (nó… virei adulto!) e na época que o Collor pegou o dinheiro de todo mundo, a gente só ficava por conta do esporte, principalmente bicicleta. Meu pai tinha construído uma quadra de esportes na frente da nossa casa de 1.500m e decidiu nos levar, o Rick e eu, para os EUA. Trabalhamos em diversos lugares, aqueles em que sempre trabalhavam os latinos: Mc Donald’s, Delivery de Pizzas, por volta de 89/90. Quando voltamos depois de dois anos, como já existia a quadra, montamos uma escolinha de futebol.


Conta um pouco dessa escolinha. 

Chamava-se “Ranca Unha”. O nome foi dado pelo meu pai. Segundo ele, quando jogava bola, não se falava “Vamos jogar bola” e, sim, vamos ranca unha. Foi ai que surgiu a ideia da escolinha se chamar “Ranca Unha”. Chegamos a ter mais de 400 alunos em todos os tipos de esporte: natação, capoeira, futebol, vôlei e basquete. Todo tipo de esporte.

Depois passaram a existir outras atividades e quais eram?

Depois disso começamos a mexer com Buffet; no espaço que alugávamos para o esporte de dia, aos finais de semana fazíamos o Buffet. Era aluguel de festas. Depois disso, meu pai que sempre dizia que ser o engenheiro do churrasco, montou o buffet na quadra e montamos o Melzinho, que era na porta da mesma.


Conta um pouco mais do Melzinho.

Procurei um ponto em BH e não queria montar o Melzinho ali, onde antigamente era um bar chamado: Crime’s Bar. Eu disse: poxa vai queimar demais. Acabei alugando lá mesmo. No primeiro dia que abrimos o bar já foi aquela confusão e bombou. Foram seis anos seguidos, participamos até do comida-de-buteco. Nos dias de futebol, tipo Atlético e Cruzeiro, tínhamos que fechar o bar, pois sempre dava confusão. O pessoal de fora achava que era tipo uma praia: o que tem nesse lugar? As mais gatas de BH e tudo mais. Fechávamos no verão e sempre íamos para Bahia.

Depois disso veio Barcelona, inclusive o caminho se Santiago de Compostela?

Passei minha parte da sociedade do Melzinho para minha irmã e para o Rick e fui com minha ex-namorada para Barcelona. Ali cheguei para trabalhar e fui fazer o Caminho de Santiago de Compostela de bicicleta; foram 860 KM de Bike. Depois que eu fiz esse caminho, minha vida mudou completamente: descobri sobre o câncer da minha irmã, comecei a viver o desapego material das coisas, foi muito importante na minha vida.

Mas a questão do câncer foi revelação ou você descobriu no meio do caminho por outras pessoas?

Fiquei sabendo que minha irmã estava com câncer, pensei em desistir de tudo e comecei a pensar nela o tempo inteiro, porém quando e quem completa o caminho, vai até a Catedral de Santiago. Ali você pode fazer pedidos; então eu dormia em Igreja, conversava com padres pedindo pela minha irmã e hoje em dia ela conseguiu superar. Nunca mais teve nada. Isso tem nove anos. Nós não vamos para lugar nenhum sem uma razão, voltei há mil anos atrás. Eu só pensava em Deus, em tudo que fiz de bom tudo que fiz de errado. Voltei completamente outra pessoa. Pensava muito em grana em trabalhar e Compostela me tirou isso.

E foi um dos motivos para viajar e começar a morar em vários lugares?

Depois do caminho eu voltei, já fui primeiro para Bahia, tipo nove anos depois. Quando voltei nas férias do carnaval, conheci a Jú,  minha ex-namorada lá e comecei a namorar; já tinha largado a outra namorada na Espanha. A primeira pessoa com quem eu trabalhei lá na Bahia foi com o gringo, na primeira noite de ano novo, depois disso conheci o Zé Mú, da Caraíva Pizzaria e no outro dia comecei a trabalhar com ele. Ele me passava as massas em Arraial e eu levava para Caraíva. Trabalhava nos forrós na praia, no bar da praia Paxa. Eu e o Rick, éramos parceiros, picávamos a lenha, fazíamos a massa e de noite vendíamos as pizzas.


E a Serra do Cipó?

Para mim a Serra do Cipó foi a minha despedida do Rick ele voltou antes de Arraial e voltei um pouco depois dele, passamos um tempo juntos e dois meses antes de ele morrer,  juntei minhas coisas e voltei para Arraial parecia que era era justamente para não ver ele morrer.

Com minha volta incentivei a Keka a treinar. Era um sonho meu e do Rick e comecei a treina-la e ela chegou a ser quinta no ranking. Mudamos eu e ela para a Serra do Cipó, ficamos lá mais seis meses, trabalhando com o Beto Cipoeiro.  Voltamos para BH, moramos no Vale dos Pinhais, dois anos só fazendo Montain Bike, ela chegou a ficar em quinto no ranking brasileiro. Ai as amigas e a galera começaram a me pedir para serem treinadas. Hoje em dia eu só faço isso pela manhã, tarde e noite de segunda á sexta.


A escola começou com a Keka. Tem um dois anos que trabalho com as aulas para iniciantes. O ciclismo é um dos esportes que mais mata, e como o esporte ta na moda, e Belo Horizonte é agora  a Califórnia do Montain Bike. Tem muita mulher pedalando. Os  namorados, os amigos, não têm paciência de ensinar; tem muita técnica, as pessoas não sabem ler o terreno, a aula é técnica pura e aqui temos todo tipo de terreno.

O Montain Bike foi um dos motivos para eu ter voltado a morar em BH, pois o esporte é igual uma praia pra mim. Andar de bike é a mesma coisa que estar no mar. Não era para estar aqui mais… O que me segura aqui são as montanhas.

Vídeos – Keka:


http://www.youtube.com/watch?v=jEVsijtxcb0

Depoimentos:

Zeca: Amigo das antigas

Leo e Rick! Há exatos 30 anos conheci os caras. Andávamos de bike (extra-light) no bairro São Bento o dia inteiro, pegando carona nos ônibus (antigo 5901) para descer as trilhas do ET e ET90, nomes dados às nossas pistas. Nos fins de semana pedalávamos até Macacos e além, mas durante a semana, as madames do São bento ficavam horrorizadas quando chegávamos em alta velocidade na padaria, imundos derrapando nossas bikes. Foram meus primeiros aprendizados de como curtir a vida. Desde então vivi momentos maravilhosos

com essas figuras. Teve a época dos EUA, da Bahia, da Espanha, da Finlândia, etc. inúmeras histórias que não cabem em palavras. Bikes, motos, capoeira, escalada, gandaias, foram momentos tão especiais e sublimes que fazem a vida dos outros parecerem sem graça. Fizeram as nossas vidas parecerem rápida, como de fato foi para nosso eterno irmão, Rick (pausa). É nesta certeza de que um dia não estaremos mais aqui que nos entregamos de corpo e alma à felicidade, à amizade e ao amor! Leozão, vc é meu irmão! Conte comigo sempre camará!

Raquel (Keka Bike): Amiga e companheira eterna

Leo e Rick… não da pra lembrar de um, sem falar do outro. Sorte de quem, em algum momento da vida, cruzou o caminho desses caras. O Rick pra mim é uma eterna paixão, um cara que foi meu melhor amigo, meu pai, meu chegado e meu irmão. Sorriso no rosto, cheiro de erva e uma paixão incondicional pela bicicleta. Foi o cara que despertou em mim o amor por ser ciclista e a vontade de ser atleta. Com o Leo não foi muito diferente, uma amizade especial que está no peito e na mente. Depois da morte do Rick, o Leo Rocha virou Leo Bike, do meu ponto de vista, uma união das duas almas. Um assunto complicado de falar, mas na boa, eu acredito que hoje RICK e LEO estão juntos no LEO BIKE. Hoje, eu falo com orgulho, o tanto que esses caras semearam energia boa por ai… Pra mim o LEO BIKE é O CARA, exemplo de saúde, força e amizade ! Aprendi não só técnicas para pedalar mas também técnicas para viver!

Lucas Machado

Lucas Machado

Escritor, profissional de Marketing e Comunicação.

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