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Leila Diniz

Leila Diniz

Por Lucas Machado

“Sem discurso nem requerimento, Leila Diniz soltou as mulheres de vinte anos presas ao tronco de uma especial escravidão.” Carlos Drummond de Andrade

Leila Diniz

 

Sempre quis escrever sobre Leila Diniz. Porém, toda vez que lia e ouvia suas histórias, havia muitas controvérsias. Carioca de Niterói, Leila sempre foi uma personalidade libertária, a medida certa da rebeldia e transgressão. Em um aniversário de um amigo no Rio de Janeiro, num condomínio na subida da Pedra da Gávea, fui apresentado a um parente dela.

Apesar de hoje ser um grande amigo, vou preferir preservar a fonte. Pensei comigo: chegou a hora de saber os verdadeiros segredos dessa grande artista e musa brasileira. Começamos falando sobre futebol, e já de cara ele me disse que era flamenguista doente, contou histórias bastante curiosas, afinal de contas, ele viveu as épocas áureas do “legalize total” na Cidade Maravilhosa.

Antes de começar o interrogatório, quis me mostrar mais simpático. Afinal, cada um tem sua forma de lidar com suas fontes. Acabei dizendo que tinha uma enorme afinidade com o Flamengo, aquela coisa literária de “como fazer amigos e influenciar pessoas”.
Leila Diniz foi uma carioca da gema, revolucionária, espontânea e, sobretudo, muito autêntica e livre. Entre uma prosa e outra, o tal parente me confirmou várias coisas que eu já havia lido e ouvido sobre a atriz. Ela foi o resultado final de uma linhagem de mulheres que, nos anos 1940 e 1950, lutaram pela sua independência, foram à frente em relação à moral vigente e quebraram tabus. Já havia muito de Leila em Liliane Lacerda de Menezes, Marília Kranz, Tonia Carrero e Danuza Leão. E mesmo entre as contemporâneas nos anos 1960, ela nunca esteve sozinha: tínhamos Betty Faria, Ana Maria Magalhães, Marieta Severo — depois disso, um ninho de embriões de Leilas que surgiram.

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Aos 14 anos, ela já saía de casa e tinha amigos mais velhos. Aos 17, acompanhada do amigo Antônio Carlos Jobim, no local chamado Faroeste, no posto 6 de Ipanema, a que os boêmios recorriam depois que todos os botecos fechavam na cidade, conheceu o ator e cineasta Domingos de Oliveira, seu primeiro namorado e futuro marido. Pouco tempo depois, Leila juntou suas trouxas e casou-se com Domingos. Ao final do casamento, que durou entre 1962 e 1965, ele escreveu e dirigiu Todas as mulheres do mundo, que conta um pouco do relacionamento dos dois, interpretados pela própria Leila e pelo autor Paulo José. A partir daí, a atriz começou a ser conhecida, ficou famosa e fez carreira no cinema, no teatro e na televisão.

Leila roletou de moto por todos os cantos do Rio, teve vários namorados, todos conquistados com facilidade — ela só foi rejeitada por uma pessoa pela qual se interessou: Roberto Carlos. A atriz protagonizou dois momentos marcantes. O primeiro quando foi fotografada, em 1971, de biquíni na praia, grávida de seis meses. A foto, publicada nos grandes jornais, chocou o Brasil inteiro, as grandes massas nunca tinham visto isso — na época, as grávidas tinham costume de usar uma bata costurada acima do biquíni ou o bom e velho maiozão. O segundo aconteceu em novembro de 1969, sua entrevista para o número 22 do jornal O Pasquim deu o que falar. O jornal, por mais liberal, bem-humorado e soco na cara que fosse, não podia soltar uma entrevista com 72 palavrões. Então, o jornalista teve que trocá-los por piadas e asteriscos. A entrevista quase rendeu a Leila uma prisão pelos militares e a perda do contrato com a Globo.

Leila deixou um legado que só depois de tantos anos estamos vendo coisa parecida. Imagine o que ela já causava há 40 anos, tempos de ditadura militar e repressão, defendendo o amor livre e o prazer sexual da mulher. A atriz morreu em um acidente aéreo em junho de 1972, aos 27 anos, no auge de sua carreira. Quebrando tabus e questionando o senso comum, Leila Diniz deixou-se julgar por um país inteiro para que ninguém mais fosse julgado.

Lucas Machado

Lucas Machado

Escritor, profissional de Marketing e Comunicação.

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