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Jovem e liberdade

Jovem e liberdade

Jovem e liberdade

Por Renata Lommez

A verdadeira liberdade

Ser jovem é maravilhoso, a começar pelo viço da pele em minha opinião vaidosa de mulher rs, mas é inegável que tudo parece mais fácil para eles.

Não é bem assim.

Existem lições valiosas que aprendemos ao longo da vida. Ansiedade e insegurança são grandes desafios a serem enfrentados nessa fase e com os quais só aprendemos a lidar na maioria das vezes, com a chegada da maturidade.

Tal como fruta azeda que quando pronta pra cair do pé de fel vira mel.

No meu caso a maior conquista foi minha descoberta da verdadeira ideia de liberdade. O poder de ir e vir.

Explico: há uns quatro anos atrás vendi meu carro. Não me imaginava sem, mas ele dormia na garagem da minha mãe e já havia algum tempo que eu ia e voltava do meu consultório a pé. E por dois motivos, dois benefícios, me livrar do trânsito e movimentar o esqueleto usando outros músculos que não fossem aqueles da corrida atrás dos filhos. No caminho o bairro, a praça onde passei a minha infância e adolescência. Lindas lembranças de uma vida cheia de aventuras.

Acontece que também atendo em uma clinica que fica em um bairro distante de onde eu moro, e nunca passou pela minha cabeça outra forma de ir para lá que não fosse de carro. Mas era um caos. Tudo, o tempo todo, principalmente a volta.

Eu me sentia dentro de um desenho animado do fim da década de 70, Walt Disney. Nele o Pateta era um cidadão pacato, até entrar no carro. No trânsito ele virava uma fera.

Essa era eu ao fim de toda terça- feira voltando da Pampulha. Dentro do carro ou entrando em casa, era eu sem educação, sem limites e louca para me livrar daquele estresse. Muitas e na maioria das vezes aos gritos com outros motoristas, com a família, e morro de vergonha disso.

Eu gosto de dirigir, mas não aprendi apenas para tirar carteira. Minha gana por liberdade era tanta que aos 17 anos eu pegava sem permissão o carro da minha mãe de madrugada para sair com as minhas amigas. Aprendi a dirigir assim, na marra, porque acreditava que isso era ser livre.

Hoje minha noção de liberdade é exatamente o contrário. Sinto-me livre porque sei que posso me deslocar quando eu quiser e a hora que eu quiser pelas minhas próprias pernas,
literalmente. Sem me preocupar em colocar gasolina, se há vagas para estacionar, se vai ter flanelinha, se vou levar fechada, ou se o trânsito está parado. Aliás, tenho fobia do último.

Reaprendi a andar de ônibus e, hoje por causa disso voltei a escutar música diariamente. Se os carros não andam não importa, estou de fones no ouvido e acompanhada do meu rock´n´roll, só tenho compromisso com ele nessa hora. E livrei-me dos arrogantes que esquecem a educação porque dirigem um carrão.

Não é assim uma perfeição porque gente sem noção existe em todos os lugares. O individualismo é uma doença a ser curada em toda sociedade que deseja evoluir. Encontrei
tantos benefícios nos meus novos hábitos de locomoção que sinceramente isso fica em segundo plano. Passei a ver de novo as lindezas da minha BH, mas é preciso ter olhos para ver. Esses dias, por exemplo, os belos ipês que colorem a cidade e que se misturam ao céu azul de inverno não saem da minha retina.

Pego o Move sempre no mesmo horário e fiquei amiga do motorista, um senhor que me dá um animado bom dia logo no inicio da minha jornada. Dia desses, ele me esperou atravessar a avenida para eu não perder a hora. Sim, ainda existe gentileza na selva de pedra. Sentada ou em pé um bom bate papo, ou até mesmo um jornal oferecido por ele para eu ler até chegar à estação UFMG (universidade Federal de MG), o que faz do passeio um astral já que o ônibus vai cheio de estudantes conversando sobre suas novas teorias e descobertas.

E os assaltos?… Nunca sofri, mas eles acontecem também no trânsito, e cada vez mais. Recentemente uma amiga também desistiu do carro. Foi assaltada a mão armada, de dia e
com suas duas crianças no carro. Eu vi tudo.

Brasileiro dá muito valor pra carro, mas a tendência hoje é deixar o status de lado e apostar no bem estar. As opções para deixar o carango apenas para as viagens e emergências são muitas. Mais espaço para as bikes, melhoria dos transportes públicos, mesmo que ainda longe do ideal, o velho e saudável sp2 (quem se lembra dessa haha), a novidade dos carros compartilhados e os aplicativos que nos ajudam descobrir quem está mais barato, Uber, Cabify e Táxi, sem que seja necessário pesquisar um por um.

Às vezes me questiono se não ficamos sábios tarde demais, aí descubro que não, que tudo tem seu tempo. Afinal, se não fossem minhas escapulidas no Escort XR3 da minha mãe assim que Orfeu pousava em casa eu não teria vivido parte do que vivi, não teria história para contar, nem tampouco essa tal maturidade que insisto em acreditar ter.

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Renata Lommez

Renata Lommez

Renata Lommez é Psicóloga/Psicanalista clínica desde 1994 quando também iniciou sua formação em Psicanálise, passando pelo Círculo Psicanalítico de Minas Gerais, Escola de Saúde Mental e Escola Brasileira de Psicanálise. Foi colunista titular de Psicologia na Editora Abril entre 2006 e 2011.

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