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Jornada

Jornada

Por Débora Blanda

Jornada

(Sobre a parede)

Olhando para parede do meu quarto (emprestado) eu vejo três coisas: um mapa, fotos e espaço vazio. Olhando para o mapa eu lembro porque eu estou aqui: eu vim porque conservo um desejo, inexplicável e indomável, de conhecer. E principalmente, de conhecer lugares. Esse desejo deve ter tido alguma coisa há ver com a escolha do meu curso de arquitetura. Sou movida pela curiosidade, quero saber como é, quero ver pessoalmente paisagens tão diferentes, sempre quis conhecer o Pacífico, conferir que estrelas você consegue enxergar de onde você está, saber quem está estampado na moeda.

Curiosidade para saber se as pessoas vão ser diferentes, se as casas vão ser diferentes, se alguma coisa vai ser diferente. Vontade de achar beleza nas coisas mais banais e nas coisas mais extraordinárias. Vontade de ir e ver. Olhando para o mapa eu sou lembrada também que eu tenho acesso a algo que vale a pena ser compartilhado: a história de amor entre o Criador e sua criação. E, inevitavelmente, eu percebo que de todos os países no mapa eu só estive em dois, o mapa me lembra que ainda tenho muito chão pra cobrir.

Logo abaixo do mapa estão as fotos, bem clichê eu sei, tenho fotos instantâneas pregadas na parede. Elas são a minha coleção de momentos e cores, coleção que eu comecei aqui, aqui em Milwaukee, ali em frente a torre d`água, minha favorita nessa cidade. Olhando as fotos na parede eu aprendo muito. Eu aprendi que tudo bem estar sozinha. Elas me lembram que eu vi sozinha algumas das cenas mais lindas que já vivenciei, eu estava sem ninguém que eu conhecesse por perto. Sinto-me obrigada a explicar que eu tenho certeza de que eu nunca estou sozinha mesmo.

Eu acredito que meu Deus é também meu melhor amigo e que Ele é onipresente. Talvez essa seja a razão de eu me sentir tão confortável em estar sozinha, é que na verdade eu não me sinto sozinha. As fotos me lembram que minha felicidade não depende das outras pessoas, que eu não dependo de ter companhia pra ser feliz, pra apreciar o que tem de belo na minha frente. As fotos me lembram das cores e cenários, de como foi bonito e, de alguma forma, significante. Elas também me fazem pensar em como foi bom ter tido essas aventuras por minha conta, sem outrem, em como eu escolhi o roteiro e passei o tempo que eu quis fazendo o que eu quis, em como é boa a sensação de liberdade, a dose de adrenalina e aventura, e na gratidão por ter dado certo.

Olhando para as fotos na parede eu reparo as fotos que não saíram como o planejado: algumas completamente pretas, uma completamente branca, pelo menos uma outra bem escura. Essas me ensinam ainda mais. As pretas mesmo que não mostrem nada me fazem lembrar da cena que eu quis guardar, elas são como um cofre que guarda um tesouro. Esse tesouro é a memória que eu tenho do Loop em Chicago, de um pôr do sol que eu vi e guardei dentro de mim e que eu tentei guardar naquela foto. Acho que era uma dessas coisas que não se permitem limitações, como um pássaro que merece mais do que uma gaiola essa cena não coube na foto.

Mas naquele momento, ali no trem, eu tentei mais de uma vez guardar aquele momento numa foto. E todas as quatro tentativas foram frustradas. Tudo bem, tentativa e erro faz parte da vida. Também faz parte aprender a guardar algumas coisas só pra você e não tentar limitar, não limitar bandas a gêneros, pessoas a rótulos, momentos a fotografias. E tudo bem tentar, a gente continua tentando, mesmo que as primeiras tentativas não tenham dado certo é preciso perseverança. E no final se o meu objetivo era me lembrar daquele momento o objetivo foi alcançado.

Mas olhando para parede eu vejo outras fotos, fotos de quando eu estava bem acompanhada. Foto da família, foto dos amigos tão queridos. Essas fotos me fazem ter certeza de que mesmo que seja uma delícia me aventurar sozinha, é quando estou cercada de pessoas queridas que eu rio alto.

Tenho certeza de que preciso de pessoas por perto. Porque é sempre melhor ter alguém com quem dividir. Alguém pra dividir a memória, a aventura, as risadas, o último chocolate ou a conta. É bom ter mais de um sorriso na foto. Ter uma pessoa querida do seu lado é a única coisa que pode tornar um momento incrível ainda mais incrível.

Olhando pra minha parede eu vejo também vazio. Da mesma foto que o mapa me lembra que eu ainda tenho muito o que andar, o vazio na parede me lembra que tem espaço (nela e em mim) pra novos lugares, novas aventuras, outras pessoas.

E tem espaço pra dobrar cada foto, duplicar todas elas, mesmo que meio diferentes, tem espaço pra visitar de novo cada lugar, pra abraçar de novo cada pessoa. Mesmo que a parede aperte meu coração me lembrando que eu já não estou na ponte do Brooklyn ou em Venice, mesmo que aperte meu coração a ideia deixar a torre d`água, mudar de CEP, a parede me enche com a satisfação de ter vivido cada um desses momentos colecionados. A parede acorda em mim a vontade de viver mais momentos como aqueles. Na parede, enquanto as fotos são pra mim nostalgia o vazio é esperança.

 

 

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