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Gastronomia

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Por Chefe Thiago Chiericatti

A “realidade”do reality

Trilhar um caminho sério na gastronomia não é tarefa fácil, é um consenso.
Ao lado da falsa ilusão do glamour a realidade nua e crua de dentro de uma cozinha.

Mas, até que ponto se percorrer, a história que se pretende “escrever”, as escolhas que tendemos a fazer, estão dentro da realidade? Ou será que estão em Reality shows, que muito pouco têm de realidade?

Montar uma Mise en place em duas horas, para 45 convidados com apenas 3 cozinheiros e algo não impossível. Sejamos éticos e sinceros que o resultado não sairá como se cobra, não veremos excelência nos pratos que forem servidos.

Em tempos de Masterchef e afins pergunta recorrente entre nós, que optamos por construir nossas carreiras no meio gastronômico é: o que você acha? Você gosta?

Sinceramente, vou dizer o que acho, corro o sério risco de falar demais, mas devo dizer, porque não só de receitas vive a mente de um chef… Aliás, receitas são recorrentes, adaptações são recorrentes, mas, é necessário pensar um pouco fora da caixa.

A embalagem nem sempre é condizente com o produto. Às vezes supera, às vezes deixa a desejar… Lembro-me sempre de uma história do irmão de uma pessoa querida, que dizia que: ” Aos filhos em relação a determinado cereal, que comer a caixa certamente era mais nutritivo do que aquele produto que tinha lindos anúncios na TV.”

Era hilário imaginar a cabecinha dos meninos num primeiro momento, mas certamente aqueles meninos aprenderam a pensar “fora da caixa”. O mesmo ocorre com a ilusão dos reality shows. As reflexões são recorrentes na vida de um profissional da gastronomia.

Reflexões sobre o que se está fazendo, se está sendo honesto consigo mesmo, se o cliente tem sempre razão (que raciocínio besta), se o que determinado crítico te diz em determinado momento sobre seu trabalho vai afetar o que você tem de compromisso consigo mesmo e com seus ideais.

O que os colegas pensam ou deixam de pensar a seu respeito, se está se tornando uma pessoa melhor ou apenas uma máquina de produzir pratos, se está conseguindo imprimir personalidade a suas criações.

Vamos falar “do”reality. Participar de um programa, a avaliação e convívio com chefs que estão no auge do marketing pessoal, faz muitos sonharem com a participação num programa desses. É o show. Nada contra. Com ressalvas. É bom sim. Com ressalvas.

Não gosto de discordar o conceito de gastronomia do de trabalho árduo. Mas também não consigo o deixar claro que existe, paixão e arte.

Mas, o que motiva a arte? Não se explica, se exprime e ponto. O que faz um chef? A técnica, exclusivamente? Ou o “sangue no olho”? O prazer em servir?

De um lado temos a ficção ilusão, rostinhos bonitos e tipos exóticos, dominando técnicas ou tentando aprendê-las. Maquiagem quase perfeita, lenços bem amarrados.

Realidade: não exatamente isso… Dolmãs com cheiro de gordura, rostinhos suados, cansados, muitas vezes satisfeitos com o resultado ao final do dia, outras, loucos para aquele dia acabar e que amanhã seja melhor.

Gosto de me lembrar, tentar compreender o que motivava Monet. A arte pela arte. Sua vida, com todos os percalços mas em todas as suas vertentes.

Em determinado momento de sua vida passou a dedicar-se a criar um ambiente harmonioso que remetia à atmosfera de seus quadros e aí, o melhor, oferecia almoços memoráveis a seus amigos “famosos”.

Talvez uma mistura de oferecer o que considerava seu melhor e o resultado não deixava de ser um marketing pessoal. Talvez, repito, talvez. Mas Monet não cozinhava, era pintor, mas fazia questão do preparo dos banquetes com maestria e, para isso tinha toda uma organização de receitas, estilo de receber seus convivas. Arte e gastronomia.

Cuidado e zelo com o servir. E certamente para que o resultado final que os historiadores retratam fosse atingido, seu dia-a-dia não era fácil… Mas certamente era prazeroso. Fazer o que gosta, enfrentar as dificuldades, cabeça nos sonhos e pés no chão. Essa realidade não é a dos reality shows.

Donos de restaurantes famosos torcendo o nariz para o que você conseguiu produzir, quando eles mesmos, em condições similares, não fariam melhor… Vejo muito disso no reality da moda. Chega a ser divertido. E muitas vezes falam com maestria sobre algo que nem dominam.

Ver sua equipe desmotivada é algo que incomoda, ou deveria incomodar. Tarefa difícil em dobro é renovar os ânimos, imprimir paixão e gosto em desenvolver um bom trabalho, mesmo em adversas condições. Um reality show não mostra isso, não cria nem de perto essa simulação de realidade.

A preocupação com armazenamentos, com validade, o risco altíssimo de acidentes graves, utilização de utensílios inadequados, enfim, todo o lado “B” mais real que a “realidade”que passam nas câmeras em horário nobre. Mas, é assim mesmo, é o show.

Estejamos atentos, e motivados, independentemente do que se passa de falso e verdadeiro nessas avaliações/ilusões dos reality shows.

Thiago Chiericatti

Thiago Chiericatti

Thiago Chiericatti já esteve a frente de grandes restaurantes em Belo Horizonte e na Itália. Passando pelo restaurante topo do mundo, Vila Floriano e o respeitado Giussepe Trattoria em Milão. O chef Chiericatti está em grande evidencia no mercado da gastronomia por sempre ser ousado em arriscar novas receitas.

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