DestaquesPaulo Solmucci

Online e varejo

Online e varejoOnline e varejo

Por Paulo Solmucci

As vendas online estão liquidando com o comércio de reposição, assim entendido como todo aquele das mercadorias padronizadas, portanto, sem a necessidade de que se tenha de provar ou degustar antes de adquiri-las. Nos Estados Unidos, o fenômeno é de tal intensidade que levou alguns observadores a classificá-lo de apocalipse do varejo. Aí os urbanistas se perguntam. Como ficarão as ruas? Desertas e perigosas?

A indagação faz sentido, sim, uma vez que é o movimento de pedestres nas calçadas que dá vida e segurança às ruas. Esse fluxo de transeuntes ocorre onde há o comércio lojista, com suas portas abertas ao entra e sai de gente. As cidades mais agradáveis e charmosas do mundo, que são também as mais visitadas pelos turistas, sempre oferecem o espetáculo do balé das calçadas. Assim ocorre, por exemplo, em Paris e Nova York, dois ícones do turismo mundial.

O sujeito não vai a Paris e a Nova York para tomar banho de mar, fotografar leões ou baleias, nem, tampouco, para passear de carro de um lado a outro. É inimaginável alguém programar o aluguel de um carro quando está planejando a viagem a uma dessas duas cidades. Nelas, o bom mesmo é andar, bater pernas entre os cafés, as praças, as feiras de livros, flores ou quadros. O que nos leva a andar a esmo em uma cidade é essa vivência, ou essa “experience”, como se diz em inglês.

Em todas as sociedades que valorizam as ruas, os urbanistas vêm se dedicando a encontrar um jeito de manter as ruas bem vivas e coloridas, mesmo que haja o temido declínio do comércio lojista das ditas mercadorias de reposição. Em canto nenhum do planeta, onde predomine o subdesenvolvimento urbanístico, há tamanha valorização da rua. Será que, por aqui, estamos minimamente preocupados com isso?

Nos espaços subitamente vazios das lojas que estão sendo abatidas pelo comércio online, os urbanistas e os gestores das cidades passaram a abrir mais cafés, bistrôs, restaurantes, delicatessens, padarias, ateliês de arte, espaços de co-working, academias de ginásticas, salões de beleza, bicicletários. As municipalidades criam incentivos para que isso aconteça.

A população aplaude essa política de fomento porque nasceu e cresceu com a cultura da ‘fachada ativa’. E o que vem a ser ‘fachada ativa’? É o térreo de um sobrado ou de um prédio que dialogue com as calçadas, que tenha o acesso aberto para o passeio, que seja permeável ao entra e sai de gente. O que mais vemos nas cidades brasileiras é o contrário disso. São as fachadas cegas, muradas, emparedadas. Na melhor das hipóteses, têm uma guarita e um vigia
enfiado nela.

As fachadas muradas são ruas desertas, como uma floresta de eucalipto, sem flores e sem pássaros. Eis por que os europeus estão debruçados na obstinada tarefa de manter suas ruas vivas, reciclando a ocupação das suas ‘fachadas ativas’.

O Plano Diretor de Belo Horizonte, que foi devidamente aprovado pela Câmara Municipal e sancionado pelo prefeito, prevê incentivos para que as novas construções contemplem o oxigênio das ‘fachadas ativas’, que daria mais alegria, charme e vida à capital mineira. Se quisermos seguir o exemplo das cidades que deram certo, vamos por aí. Desenvolvimento ou subdesenvolvimento urbanístico é mera questão de escolha.

Paulo Solmucci

Paulo Solmucci

Paulo Solmucci - Presidente da ABRASEL (Associação brasileira de bares e restaurantes).

Anterior

Lenço de Bolso

Próximo

Sustentabilidade e material descartado