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Fidelidade x Infidelidade

Fidelidade x Infidelidade.

 

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Por Amanda Ferr

Agora eu vou enfiar o dedo na ferida. Na sua ferida. Na minha ferida. Na de todos nós. Vou colocar uma lupa sobre essa mácula e esmiuçar as fibras, os tecidos adoecidos, o sangue, os nervos, o pus. Quero cutucar até encontrar a origem e a raiz dessa dor que preferimos ignorar, anestesiar e fingirmos que não nos atinge, que estamos imunes, “que conosco será diferente”, porque o “nosso amor é mais forte”, porque o “nosso relacionamento é de mútua confiança.”

Pois estou aqui pra dizer: BALELA.

Com você não é diferente, seu amor não é o mais forte e ninguém está imune. Você já foi traído, mesmo que não tenha descoberto, e digo mais, você traiu. Ainda que me diga que não, que jure de pés juntos que nunca fez, eu afirmo: Traiu. Mesmo que não tenha chegado às vias de fato, em algum momento de algum relacionamento perfeito, você olhou para o lado e desejou. Ahhhh o desejo…. Quarto escuro de nossas emoções.

É isso. Não se trata de amor ou desamor, mas de desejo. Quem trai não necessariamente deixou de amar, mas certamente nunca vai deixar de desejar, porque o desejo é condição básica do ser humano, é intrínseco ao nosso ser.

Temos um carro, mas desejamos um mais novo, mais moderno. Temos um apartamento, mas sonhamos com a cobertura. Temos saúde, mas queremos um corpo esculpido. Temos dinheiro para as contas, as viagens e a escola dos meninos, mas queremos a viagem à Nova York, a casa com piscina e aplicações rentáveis. Temos um(a) parceiro(a) compreensivo(a), companheiro(a), o sexo vai bem, mas….. Aquele colega de trabalho tem olhos hipnotizantes e a secretária da diretoria tem uma par de coxas de parar o trânsito. Como seria se….

E aí entra em ação nossa maior inimiga: a imaginação. Nela tudo é possível, acessível e prazeroso. O cara não tem cheiro de cigarro na roupa, ela não tem olheiras, ele não reclama dos seus atrasos e ela não faz cara feia quando você chega mais tarde ou toma um drink a mais. Tudo entre vocês é só sedução. Olhos,
olhares, cheiros, toques, banhos de espuma, beijos profundos, pele, arrepios, lençóis de seda, música ambiente, brindes e orgasmos espetaculares.

Peraí, perdi alguma coisa? O que aconteceu? Aparentemente nada. Lá está ela preparando o jantar e ele mexendo no tablet. Mas onde estão, que não ali? No motel mais próximo, vivendo tórridos romances em suas imaginações.

Traição? Sim e não. Se você considerar que uma traição só se consuma com o toque, não. Mas se você considerar que a traição começa no pensamento, sim. E na minha opinião, essa é a verdadeira traição. Aquela que mantém o cara ao seu lado de corpo presente, mas sem brilho nos olhos, sem coração acelerado, sem fome de te comer no banco de trás do carro.

Eu entenderia se meu parceiro transasse com uma prostituta pra satisfazer um fetiche, ou com uma desconhecida em uma viagem de trabalho, porque sei distinguir que sexo e amor são coisas que por mais que se queira, não se misturam, pertencem a universos distintos. Sexo é carnal, amor espiritual, pertence a um plano sutil.

Podem até andar de mãos dadas por algum tempo, mas apenas por algum tempo. Porque o desejo sobrevive daquilo que nos falta. O desejo é a fome, a fúria, a caça. O amor é porto seguro, a foto no porta-retratos, a aposentadoria, a missão cumprida, a extrema unção para uma morte em paz.

Mas me sentiria traída com sua ausência presente. Com seu olhar perdido, com seu desinteresse, sono, tédio. Porque saberia que dentro dele estariam rolando festas para as quais não fui convidada.

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