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O Branco da paz  e o verde da esperança. Confira

 

Por Paulo Solmucci

A maior tragédia da história do futebol trouxe consigo uma tocante e profunda mensagem de esperança.

Qualquer um que tenha assistido, pelo menos, a pequenos trechos da homenagem da noite da quarta-feira passada, em Medellín, ficou com o coração mexido.

Jamais houve manifestação de tamanha solidariedade e de tanto afeto no universo do esporte – eis a avaliação unânime entre os jornalistas do setor.

Às 21h45, no horário de Brasília, de 30 de dezembro, em lugar do confronto entre as equipes do Atlético Nacional e da Chapecoense, o que se viu foi o estádio Atanasio Giarardot completamente lotado, com 45 mil pessoas vestidas em camisetas brancas, muitas estampando, paralelamente, os escudos dos dois times.

A entrada era gratuita. A multidão de colombianos segurava flores, velas, celulares acesos, cartazes.

Do lado de fora do estádio, havia cerca de 100 mil pessoas, segundo as agências internacionais de notícia. Elas não conseguiram entrar. Acompanhavam pelas tevês dos bares das redondezas – ou escutavam pelo rádio – o comovente desenrolar das homenagens.

Ouvia-se, no estádio abarrotado, uma sequência interminável de orações e cânticos de um só refrão: “Somos todos Chapecoense”. Ou, este: “Uma nova família nasce”. Ou, ainda, este: “Êêê, vamos, vamos Chape, vamos, vamos Chape”.

Os comentaristas da tevê chamaram a atenção para o coro da massa, que em dado momento fazia ecoar um louvor: “Não, não nos esqueceremos que esta Copa se vai para o céu”.

As coroas de flores cobriam a marca da cal de todo o círculo central. Ao lado, o escudo da Chapecoense. E, em frente, o púlpito para a cerimônia.

Os jogadores do Atlético Nacional entraram em campo, um a um segurando o ramalhete de flores brancas. Meninos formaram uma fila, trajando a camisa da Chapecoense.

A banda de música do exército colombiano tocou os hinos dos dois países. Nas tevês do mundo inteiro, as cenas da arquibancada, com a multidão aplaudindo, e, aqui e ali, pessoas silenciosamente em pranto.

Também em lágrimas que lhe desciam à face, o ministro das Relações Exteriores, José Serra, falou a voz que vem do nosso coração: “Nós brasileiros não vamos nos esquecer jamais de como vocês sentirem como se fossem de vocês o terrível desastre que interrompeu o sonho dessa heroica equipe da Chapecoense.

Assim como não esqueceremos a atitude do Atlético Nacional e de todos que pediram que se conceda o título da Copa Sul-Americana à Chapecoense”.

O estádio chorou com Serra. E a moça do cerimonial, que segurava o microfone para a fala do ministro, tentava conter o pranto incontível. Uma tristeza funda, sem histeria. Tão- somente doída.

Setenta e um pombos foram soltos, voando em direção às estrelas, simbolizando as vítimas do desastre aéreo: jogadores, assistentes e dirigentes, jornalistas e a tripulação do voo.

A homenagem do estádio terminou com a “Orquesta Filarmónica de Medellín” tocando um adágio melancolicamente belo, cujo autor não foi identificado nos letreiros (créditos) da televisão.

Os colombianos abraçaram Chapecó, o Brasil e a humanidade. Um abraço fraternal, autêntico, pleno de sensibilidade.

Em vários momentos de admirada perplexidade, eu exclamei para mim mesmo, aos meus botões: como estamos nós, latino-americanos, tão longe uns dos outros, ainda que geograficamente colados!

Os colombianos sopraram as cinzas que cobrem as brasas do nosso calor humano, que tem ficado quase adormecido.

Elevaram a chama que ilumina a possibilidade de uma revigorada irmandade latino-americana. Cabe-nos ajudá-los nesse magnífico gesto civilizatório, unindo-nos a eles no esforço de também soprar o braseiro do Brasil.

O que fazer? Vamos à Colômbia e aos colombianos. E, assim, a Colômbia e os colombianos frequentemente também virão a nós.

A homenagem colombiana tem um significado de muitas dimensões, a começar pelas cores dos times.
A Chapecoense e o Atlético Nacional são, coincidentemente, o branco da paz e o verde da esperança.

São o verde do vasto gramado e o branco da cal, demarcando os espaços disputáveis. É este o manto alviverde que une o continente latino-americano na paixão pelo futebol.

Um dos recados que se pode ler na mensagem coletiva dos colombianos é o de que o futebol deve ser, também, vetor dos novos laços de fraternidade de um continente já aberto ao acolhimento e ao abraço, atributo este que é da sua própria índole, da sua mais espontânea natureza.

Nas arquibancadas do Atasanio Girardot, as lágrimas brancas sobre a pele escura. As lágrimas brilharam também sobre as peles amarelas, pardas e brancas, expressando ao mundo de hoje o sentimento colombiano (e latino-americano) de que há, sim, uma promessa de luz para a mais generosa coexistência entre os seres humanos de quaisquer matizes, sejam eles os de raça, idade, gênero, nacionalidade ou crença.

A Colômbia, de Cristóvão Colombo, redescobriu a América. A do século XXI.

Paulo Solmucci

Paulo Solmucci

Paulo Solmucci - Presidente da ABRASEL (Associação brasileira de bares e restaurantes).

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