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Escola de bairro

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Foto: Destrinchando

Destrinchando

Por Renata Lommez

Ah, esse Pedro!

É cada vez mais frequente o número de pessoas policiando as nossas vidas. Antigamente isso ficava restrito a vizinhança e a família. Quem nunca teve aquele (a) vizinho (a) que deixava todo mundo por dentro das noticias do bairro? Fossem elas boas ou ruins elas sempre chegavam.

Hoje nós mesmos nos expomos, e a crítica tem tomado proporções esmagadoras. Sabe a foto postada na rede social onde você aparece na praia super feliz? Alguém irá julgar. E o aniversário dos filhos, postada em outra? A crítica direcionada não é mais restrita aos frequentadores do mesmo.

Tenho percebido certo exagero em questões importantes e que no passado foram tratadas com desdém, mas hoje assumiram dimensões que também não nos levam a bons resultados, afinal esses são fruto do equilíbrio.

Desde que o mundo é mundo somos julgados pelo outro. Julgamos quando não compreendemos o diferente, mas existe outro motivo também. E o nome disso é projeção.

Meu filho mais velho estudou até o ano passado em uma escola de bairro, muito famosa e com ensino reconhecido por grandes escolas da cidade. Uma escola onde a dona/diretora é quem recebe e entrega nossos filhos. Lá era comum fazermos uma festinha bem simples de aniversário (a diretora não gosta de exageros com toda razão), mas nem por isso as crianças deixavam de levar para seus colegas uma lembrancinha.

Esse ano ele precisou mudar de escola porque a outra era apenas educação infantil. Estamos todos nos adaptando. Um dos melhores amigos também mudou para a mesma escola, e fez sua primeira festa de aniversário lá no mês passado. Escrevi no grupo de mães em um app de mensagens avisando que não tinha comprado o presente e que, na semana seguinte meu filho o levaria. Era assim no grupo de mães da escola antiga. Algumas pessoas foram educadas e disseram que era bobagem, que eu não me preocupasse e que, o importante era a presença do meu filho na festinha. Lembrando, sou mãe novata também.

Sem entender a reação de uma das mães do grupo, dediquei um minuto do meu tempo para ler com cuidado o seu grande manifesto moralista destinado a mim (Aliás, o moralismo tomou conta do mundo!). Dizia mais ou menos o seguinte: _Que desde o infantil dessa escola haviam ENSINADO a eles, pais e mães, que não era para trocar amizade por presente.

Oi?! Eu quase caí pra trás! Alguém que não conhece a minha historia, alguém que nunca me viu nem em rede social, até porque não tenho, vem me julgando assim de materialista e interesseira? Desde que o mundo é mundo as crianças esperam o aniversário também e, principalmente, não seremos hipócritas, para ganhar presente! É claro que, o que elas curtem mais é a festa e a companhia dos amiguinhos, mas isso já é natural delas e nem existe a necessidade em incentivar. Ninguém está falando de brinquedos caríssimos, mas da lembrança pelo dia único e especial na vida daquela pessoa. O presente é isso, um símbolo, uma forma de eternizar aquele momento.

O agrado está presente até na Bíblia, na figura dos Reis Magos quando acontece o nascimento de Cristo.

Engraçado foi que, a mesma pessoa que me atacou foi também a que fez a lembrancinha, aquela que se entrega no fim da festinha, mais elaborada.

Bingo! A projeção apareceu no mesmo dia. A hipocrisia foi tanta que ela enxergou o materialismo no outro, não em si.

Lógico que da minha parte foi um breve susto porque eu jamais esperava uma reação tão agressiva. Logo me recompus e pensei:_ esse problema é dela, não é meu!

Afinal quando se aponta um dedo para o outro temos três apontados para nós mesmos, já diziam.

Sim minha gente! Quando falamos do outro falamos muito mais de nós mesmos. Existe uma frase muito famosa atribuída a Freud, e que outros dizem ser de Lise Borbeau, que fala assim:

Quando Pedro me fala sobre Paulo, sei mais de Pedro que de Paulo.

Projeções são formulações nossas e que atribuímos ao outro porque não gostamos ou não aceitamos as mesmas. São comportamentos e pensamentos nossos, mas que julgamos ser do outro por serem pouco éticos ou nada corretos. Então quando aparece no outro aquilo que temos em nós mesmos isso nos permite criticar, inclusive agressivamente.

Os pais vivem projetando nos filhos seus medos e desejos, assim como os casais projetam um no outro. É comum ver na casa de um recém nascido uma luzinha acesa na hora de dormir mesmo antes da criança manifestar se sente ou não medo do escuro. Assim como ainda é comum ver pais que não conseguiram seguir uma carreira x projetando nos filhos o desejo desses serem bem sucedidos nela.

Marido ou namorado muito ciumento que não deixa a companheira sair porque tem medo de que ela o traia?! No fundo ele seria capaz de fazer isso. E, voltando a projeção direcionada a mim posso afirmar que não conheço pessoas materialistas que compram a amizade dos outros porque ganharam presente de aniversário na infância, mas porque foram compensadas ao longo da vida dessa forma. Pais que não conseguem ver seus filhos sofrendo e que tentam compensar a dor deles através de brinquedos, roupas ou até comida.

E aí mãe, vai deixar de fazer brigadeiro no aniversário do seu filho para ele não virar compulsivo alimentar?

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Renata Lommez

Renata Lommez

Renata Lommez é Psicóloga/Psicanalista clínica desde 1994 quando também iniciou sua formação em Psicanálise, passando pelo Círculo Psicanalítico de Minas Gerais, Escola de Saúde Mental e Escola Brasileira de Psicanálise. Foi colunista titular de Psicologia na Editora Abril entre 2006 e 2011.

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