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El Bogotazo

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El Bogotazo

Por Lucas Machado

“As Farc são um exército do povo que se nutre da economia do país, que é o petróleo, o café, as esmeraldas, o gado, o algodão, a coca e a papoula. Assim, as Farc cobram um imposto àqueles capitalistas que tenham mais de um milhão de dólares. As Farc não têm cultivos, não negociam com narcóticos, não vendem favores aos narcotraficantes. As Farc subsistem, apesar da campanha encabeçada pelos EUA, que tem por fim desacreditar-nos como uma organização revolucionária… Mas é normal que os EUA façam isso, pois são nossos inimigos e, por- tanto, fazem o que devem fazer.”

Raúl Reyes, veterano líder das Farc morto em combate em 1º de março de 2008

O colombiano Gabriel García Márquez radicalizou ainda mais a sua dimensão, ao se tornar um porta-voz das causas sociais e denúncias contra  a violência vivida pelas ditaduras latino-americanas. Em meados dos anos 1950, Gabo já havia escrito alguns esboços de ‘Cem Anos de Solidão’.

A obra narra, em entrelinhas, as primeiras etapas da guerra civil e os primeiros conflitos armados em seu país. Paralelamente, aconteceu uma das maiores manifestações populares das Américas, o Bogotazo, uma série de protestos e mortes que surgiram depois do assassinato do candidato à presidência da Colômbia, Jorge Eliécer Gaitán.

As vésperas das eleições, foi assassinado minutos antes de se encontrar com o estudante Fidel Castro, que estava em Bogotá para um congresso de estudantes latino-americanos. Assim iniciou-se o período chama- do de “La Violencia”. Uma guerra sem fim, que dura até os dias de hoje.

A Colômbia perdeu sua referência cultural, enraizada em um grande movimento de contracultura, o Nadaísmo, do qual faziam parte jovens boêmios colombianos, ligados à geração Beat. Eram poetas e escritores de vanguarda que se baseavam em fundamentos filosóficos.

Com o crime organizado, nasceu as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc): camponeses comandados por Manuel Marulanda – líder histórico conhecido como “tiro certo” – que se transformaram em grupo político armado, agindo em todo o território nacional, em especial nas fronteiras. São responsáveis pela chamada economia de guerra, para garantir a guerrilha.

Será que Raúl Reyes, líder das Farc, com sua arte retórica, enganou todo esse tempo os colombianos e o mundo? Ou será que a Colômbia sustenta a ideia de que são pobres coitados e vítimas das guerrilhas, em troca de interesses econômicos como financiamento de combate ao narcotráfico?

Conspiração ou não, o fato é que está tudo errado – para que eu quero descer!

Irmão, olha só. A grande descoberta do mundo nos últimos tempos foi feita pelo superintendente da Polícia Federal do Acre,“As drogas no Brasil entram pela Amazônia”.

Cara, Nobel da Descoberta. Só que o mais preocupante é o que fazemos na fronteira com os hermanos da Colômbia. E as estatísticas não são as melhores. Os colombianos detêm 80% dos cartéis do narcotráfico, junto da Bolívia e do Peru.

O efetivo militar do país é de 208,6 mil soldados – já o Brasil, tem 227 mil, com o território e a população bem maiores. A droga passa pela imensa fronteira brasileira por vias terrestre, aérea e fluvial (questão territorial e estrutural).

O tráfico alista pessoas para o transporte de drogas (questão social), seduz pelo alto lucro (questão econômica e social), mata pela concorrência (questão de segurança pública propriamente dita) e mata pelo uso (questão de saúde pública).

Nas fronteiras, esse processo já dura 60 anos e cobra anualmente a vida de 10 mil pessoas, de acordo com dados do Instituto de Estudios para EL Desarrollo y La Paz (Indepaz). Convencido de que pode derrotar a guerrilha o atual presidente da Colômbia, Álvaro Uribe Vélez, insiste na via armada.

Além do acordo humanitário, as Farc não indicam um caminho diferente.

Dizem que Gabriel García Márquez já está fazendo a releitura de ‘Cem Anos de Solidão’. O digníssimo autor do bigode deste texto, Raúl Reyes, foi morto no ano passado. E a Colômbia continua a mesma. Poxa, mas por que preocupar com a guerra que arrebatou o tecido social andino?

E os mestres do movimento do Nadaísmo? Esses, sim, poderiam ter feito a verdadeira revolução, não com armas, mas com ideias. Mas seus poetas e escritores desapareceram, ou melhor, viraram pó.

 

 

 

 

 

 

 

 

Lucas Machado

Lucas Machado

Escritor, profissional de Marketing e Comunicação.

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