DestaquesLivro Destrinchando

Digníssimas e Democráticas

Digníssimas e Democráticas.

Digníssimas e Democráticas

Por Lucas Machado

Foto: João Gabriel Jack

“Lá vem ela/Estou de olho nela/Não me importo que ela não me veja/Não me importo que ela não saiba quem eu sou/ Pois eu sei muito bem quem ela é/E fico contente só de ver/Só de ver ela passar/oba, lá vem ela…” Jorge Ben Jor

Há algum tempo quero escrever sobre essas brasileirinhas, principalmente por serem um ícone da nação e pela trajetória marcada por cinco décadas de sucesso. Estou falando das Havaianas, as legítimas, que a cada verão ganham novos modelos e cores.

Elas são mineiras, paulistas, cariocas. Ou melhor, são do povo. Existem no mundo poucos produtos tão democráticos quanto as Havaianas, que vestem índios, sem-terra, ricos, pobres, artistas, príncipes e princesas.

Quando morei na Califórnia, um companheiro de viagem, para variar, perdeu a mala no aeroporto. Demos queixa na companhia aérea e saímos para fazer uma baladinha com os amigos. No outro dia, na ressaca de Jack Daniel’s, voltamos ao aeroporto e encontramos a mala, mas as Havaianas não estavam lá. Mas a melhor história aconteceu quando eu estava passando uma temporada no Havaí. A moda entre surfistas e skatistas era virar as sandálias ao avesso. Um gringo me parou e perguntou quanto eu queria para vender minha sandália. Nessa hora, meu lado comercial bateu mais forte e mandei o preço: “Cem doletas”. O resultado? Fui descalço e skate para a praia.

O nome Havaianas, dado em terras brasileiras, foi bem sugestivo, pois a década de 1960 era sinônimo de sol, praia, surfe e gente bonita. Para iniciarmos a história, é importante saber que, segundo o dicionário Aurélio, chinelo significa “sapato velho e acalcanhado”. E sandália – do latim sandalium – remete a calçado formado por uma sola, ligada ao pé por meio de correias. As Havaianas foram inspiradas nas tradicionais sandálias japonesas, chamadas Zori, introduzidas no Brasil por imigrantes japoneses na década de 1960. Eram feitas com tiras em tecido e solado de palha de arroz. Es- ses modelos foram utilizados em massa por muitos séculos no Japão. Se vocês tiverem a oportunidade de ver algum filme épico do Akira Kurosawa, provavelmente se lembrarão como as sandálias eram usadas, sobretudo acompanhadas do tradicional kimono e de vestimentas tradicionais do país.

Quatro décadas depois, as Havaianas foram inseridas no mercado oriental como produto de moda. Com design e cores variadas, associadas a um preço bem acessível à classe média, que é maioria no Japão, já virou um case de sucesso por lá.

As sandálias foram lançadas no mercado nacional pela São Paulo Alpargatas, do grupo Camargo Corrêa, em 1962, sendo patenteadas em 13 de agosto de 1964. O texto feito pela empresa para o departamento de propriedade industrial continha os seguintes dizeres: “Modelo de palmilha com forquilha” e o slogan “Todo mundo usa”.

Os primeiros modelos eram com o solado branco e as tiras azul-claras e pretas. Como a indústria no Brasil ainda caminhava a passos lentos, algumas saíram com as tiras esverdeadas. Na época, isso não valeria nada, mas hoje viraram peças de colecionadores e alucinados pela marca.

As Havaianas praticamente criaram o conceito de merchandising e revolucionaram a publicidade nacional, com diversas personalidades estampando a marca nos programas mais famosos entre as décadas de 1960 e 1990. O comediante Chico Anysio, por exemplo, lançava “As Legítimas” com o slogan “Não deformam, não soltam as tiras e não têm cheiro”.

Hoje, são vendidas mais de 160 milhões de sandálias por ano. Na Fábrica de Campina Grande, na Paraíba, por exemplo, já foram fabricados cinco pares de sandálias por segundo. A partir dos anos 2000, a marca foi globalizada, ganhou o mercado americano e europeu. Atualmente, está presente em 80 países, nos cinco continentes. O produto passou a ser peça coringa para todos os tipos de armários, masculinos ou femininos. Tipo arroz e feijão na cesta básica.

Em 2003, a Havaianas presenteou todos os indicados ao Oscar com sandálias exclusivas feitas com rubis e com uma embalagem especial. Já em 2004, em parceria com a H.Stern, fez uma série limitada e cada par tinha ouro 18k e diamante.

Digníssima, democrática e mundial. Como já se diz no Brasil, “felicidade é ter uma calça azul desbotada e um bom par de Havaianas”. Não sei se você está lendo essa matéria com uma no pé, se tem uma ou várias. Mas, de uma coisa você pode ter certeza: se não tem, ainda vai ter.

Destrinchando – Guerreiro do Asfalto

 

Lucas Machado

Lucas Machado

Escritor, profissional de Marketing e Comunicação.

Anterior

Dancing Days

Próximo

frango ao curry recheado de dieta