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Decote profundo

Decote profundo

Decote profundo

Por Amanda Ferr

Estou acostumada. Embora saiba que isso é algo a que ninguém deveria se acostumar. Mas querendo ou não já me habituei ao fato de ser julgada por um vestido, um par de sapatos, um decote profundo nas costas.

As aparências gritam aquilo que a alma silencia e aos que estão habituados apenas ao óbvio, as aparências
bastam. Paciência…Não cabe a mim salvar a dignidade dos medíocres.

Já se tornou banal de tão recorrente o fato de ser mal interpretada por um sorriso um pouco mais audacioso, uma gargalhada considerada fora de hora, uma música cantada a plenos pulmões.

Basta entrar de roupa no mar, tomar um banho de chuva em meio ao trânsito caótico da Av. Afonso Pena, ou tirar alguém para dançar no meio de um restaurante sofisticado ao som de “New York New York” para ser alvo de olhares preconceituosos, assustados, assustadores.

Enquanto o que de fato me assusta é que as pessoas se esqueçam de quem são para se transformarem em um exército de robôs programados para falar baixo, não exprimir o que sentem, não ligarem no dia seguinte, não sentirem saudades, ou pelo menos não admitirem que as sentem.

Usarem apenas o que está na moda, falar as gírias do momento, ler apenas os livros best sellers, ir aos eventos sociais mais badalados, manterem casamentos de aparência mas que “aparentem” a tão sonhada felicidade conjugal, fazer viagens periódicas de final de ano.

Ainda que para os mesmos lugares de sempre e cultivem o tédio da satisfação instantânea, sexo ou macarrão semipronto na prateleira mais próxima de você.

Todos extremamente modernos, cultos, sarados, bem colocados, e na maioria das vezes infelizes.
Prefiro então condenar-me aos comentários maldosos de terceiros que homogeneizar-me por conveniência.

Nada como ousar falar a verdade a alguém olhando-a nos olhos, desafiar-se a não ser hipócrita ao menos por um dia, dar flores a um desconhecido, beber champagne no café da manhã, caminhar descalço pelas gramas da praça da liberdade, colocar sal nas frutas.

Assumir uma preferência incomum sem receio de ser incomum, acampar, encharcar-se no chafariz mais próximo, jantar à luz de velas sem motivo algum, brincar de bola com os meninos na rua, brinda com os amigos o fato de se terem como amigos.

Dizer eu te amo sem receio do que isso possa causar aos corações mais recalcados ,não se preocupar com
as aparências, sentar-se na posição mais confortável, seduzir idosos com beijos e silêncios compartilhados, dar as mãos, chupar pirulitos,encher balões de festas, abusar das cores, ir ao cinema em plena terça-feira, se emocionar com uma música.

Escrever seus desejos no Box enfumaçado do chuveiro, ficar mais com seus pais, ter filhos, visitar museus, apreciar um pôr do sol, contar estrelas, ler poesias, se apaixonar, fazer um caminho diferente, correr riscos,
sentir prazer, perder a vergonha, a compostura, a hora, os bons modos, o bom senso.

Permitir-se o que não é permitido. Perguntar, questionar, se embriagar, se anestesiar mas sobretudo despertar-se para as pessoas e o que há de melhor em cada uma delas.

Tocar e se deixar tocar, fazer piqueniques, comer maçã do amor a dois, andar a cavalo, tomar banhos de cachoeira.

Não espere a hora mais adequada, o momento certo, o dia propício para ser livre, já que o único momento que temos de fato é o agora.

Troque de perfume, de lugar, de estilo, de cor de cabelo, de ideias. Recicle, imagine, coma algo novo, visite lugares inusitados, tire fotos, não se cale quando o coração gritar, não negue um beijo quando o corpo arder, não engula o choro, os desaforos e sobretudo vomite os sapo.

Aprecie um arco-íris, um quadro, um lago e principalmente a companhia das pessoas. Esqueça o relógio, a agenda, o despertador, o celular, as regras de etiqueta, as leis de trânsito, a moral e os bons costume e afrouxe a gravata.

Respire…

Não resista, não evite, não desvie o olhar.

Ainda que isso lhe custe algumas caras feias.

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