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Decepções

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Por Amanda Ferr

Eu não queria, você certamente também não, mas acontece, e muito se quer saber. Por mais clichê que possa parecer e é, decepcionar-se faz parte da vida. Tanto quanto apaixonar-se.

Somos feitos de carne, osso, suor e sonhos e é aí é que está o problema – naquilo que projetamos. Nada demais em sonhar com o prêmio da Mega Sena, com férias em Paris ou com uma cobertura no Leblon, desde que esses sonhos não nos impeça de trabalhar para ter o nosso salário no fim do mês.

Viajar para o interior nas férias de fim de ano e voltar para o nosso modesto quarto e sala no fim do dia. Sonho e realidade, que choque! Sonhos são ótimos e válidos em duas circunstâncias: para nos fazer sentir mais leves quando a realidade nua e crua parece querer nos engolir e para servir de incentivo para que possamos lutar com mais garra para conquistá-los.

Nas demais circunstâncias, quando nos castram o prazer do dia a dia ou se tornam obsessões imperativas de felicidade, passam a ser nocivos e até patológicos.

Mas pior que sonhar com a viagem à Paris e não fazê-la é depositar nossos sonhos nas mãos de terceiros, ou em outras palavras, esperar dos outros o que eles não podem nos dar.

Você tem uma amiga. Vocês cresceram juntas, dividiram merendas, roupas e festas de aniversário. Você deu colo, conselho, presentes e a sua presença. Esteve em cada momento marcante da vida dela, do baile de quinze anos ao casamento.

Quando o primeiro namorado a trocou por outra, você estava lá. Quando o pai dela faleceu, foi você quem cuidou de tudo e de repente, quando às duas da manhã sua mãe passa mal e você precisa da ajuda dela e ela diz que não pode ir, o que acontece?

Não é um terremoto, mas você sente o chão se abrir sob seus pés. Se ela não pode porque está do outro lado do mundo, num leito de hospital ou numa reunião da qual depende o emprego dela, tudo bem. Mas se ela não pode porque está com sono, com a turma do escritório num bar, ou na cama do namorado, haja sal de frutas pra engolir.

E aí cabe a você decidir se perdoa ou não. Errar é humano, mas persistir no erro é burrice, perdoar uma vez é tolerável, mas duas é divino e não somos santos.

Você não vai tirar ninguém da cama às duas da manhã pra falar sobre a liquidação da Farm, mas se você precisa de um amigo, uma, duas vezes e ele não está disponível, então vai me desculpar, mas o que não está disponível é a amizade dele por você.

E com relação ao amor então… Nada gera mais decepções que esse “mocinho”. Você conhece uma pessoa, se encanta por ela, vocês começam a sair e juntos e com cada chope ou cinema vai crescendo a sua projeção. O beijo encaixa, a pele bate, o papo flui e cada palavra que o outro diz é um mapa da mina rumo a sua felicidade.

Você suspira, sonha e faz planos até que de uma hora pra outra aquele que seria o grande amor da sua vida já está tomando chope e indo ao cinema com outra. Um tambor de bicarbonato, por favor!

E agora? Quem está errado? Ele que é um canalha por ter te beijado daquela forma e permitido que você se apaixonasse ou você que por ter se apaixonado por ele passou a sonhar com o dia do seu casamento?

Beijos não são contratos e contratos não garantem felicidade. Se alguém te promete algo e não cumpre você tem razão em se decepcionar, mas se você, por suas carências e desejos espera algo de alguém que nunca te prometeu nada, aí meu amigo é hora de procurar um analista, porque ninguém tem nada a ver com os seus
desejos e frustrações.

Nos decepcionamos porque esse papo de amor incondicional é conversa pra boi dormir, porque somos mimados, egoístas e queremos sim que o outro nos ame incondicionalmente.

Nos decepcionamos porque damos sim esperando receber algo em troca e se não recebemos nos sentimos lesados. Nos decepcionamos porque nos dizemos amigos, mas não enxergamos nossos amigos como eles de fato são, mas como gostaríamos que eles fossem.

Nos decepcionamos não porque o cara foi embora com outra, mas porque não sabemos o que fazer com tudo aquilo que sonhamos viver com ele e não vivemos. Nos decepcionamos não porque as pessoas não prestam, mas porque não admitimos a idéia de que somos humanos, falhos e de uma carência de cortar o coração.

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