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Dancing Days

Dancing Days.

Dancing Days.

Por Lucas Machado

Ilustração: Anne Patrice

Recebi um e-mail sobre a campanha que a OAB-RJ está promovendo chamada “Pela memória e pela verdade”, que recolhe assinaturas pedindo a abertura dos arquivos relacionados à nossa ditadura militar (1964-1985). Considero o fato de extrema importância e resolvi lembrar um pouco das pessoas e cases que marcaram a trajetória dessa época.

Nada mais justo do que falarmos da música, expressão artística e cultural que teve importante papel de resistência naqueles tempos. Chico Buarque, o Movimento Tropicalista, Ney Matogrosso, Novos Baianos e Rita Lee com Os Mutantes – só para citar alguns – cutucavam o sistema com letras inteligentes e que afrontavam padrões conservadores. Também quebrando tabus, Leila Diniz apareceu grávida de biquíni na praia, mostrando seus traços de irreverência e atitude.

É sabido que houve forte repressão nos anos em que o país foi comandado pelos militares. Filmes eram censurados, letras de músicas tinham que ser liberadas por algum censor imbecil. Pelo mundo, a arte tomava outros rumos. Na Inglaterra, em meados da década de 1970, surgiam os punks e o new wave. A onda disco se tornava o ritmo mais tocado no Ocidente.

Por aqui, as coisas também mudavam. Era um desbunde total sob um clima hedonista. Além de Gilberto Gil fumando seu baseado, do apelo dançante do disco ‘Bicho’, de um Caetano Veloso cantando de costas fazendo bundalelê e das apresentações da banda Black Rio, não podemos nos esquecer que, dessa trama com pitadas de sucessos e fracassos, lágrimas e momentos de liberdade vigiada, sexo, drogas e MPB, o grande Nelson Motta já fazia parte desse nobre elenco.

Na época, ele acabara de promover dois grandes shows de rock: O primeiro Hollywood Rock, em 1975, e o festival Som, Sol e Surfe, em Saquarema (RJ). Este, no ano seguinte, evento que lhe rendeu um megaprejuízo.

Como a vida de qualquer agitador cultural é um verdadeiro perde e ganha, eu que o diga, ainda em 1976, o cara administrou a discoteca Frenetic Dancing Days, no Shopping Gávea, na Zona Sul do Rio, que foi mais uma de suas grandes sacadas. A boate foi a primeira casa noturna do Brasil a ter bilheteria e, como num cinema, qualquer um podia entrar.

“Nosso público era feito do pessoal da praia. Eram surfistas e cocotas do Posto 9, músicos, jornalistas, um pessoal TV Globo (onde eu trabalhava no jornalismo e minha mulher na época, Marília Pera, fazia novelas), um pessoal do cinema como Jabor, Glauber Rocha, Cacá Diegues, do teatro…”, declarou Motta em uma de suas entrevistas.

A cena começou de cara com a contratação de seis garçonetes que, num determinado momento, no meio da balada, paravam de servir bebidas e subiam no palco para cantar. O time era formado por: Sandra Pêra, então cunhada de Nelson, Leiloca, Lidoka, Regina Chaves (ex-mulher de Chico Anysio), Edir de Castro e Dulcine de Morais, a Nega Dudu.

O sucesso foi total. As minas eram maravilhosas, escandalosas, divertidas e muito bem relacionadas. Foi assim que nasceu, em 1976, o grupo musical “As Frenéticas’’, que marcou época em pleno boom da disco no Brasil.

As Frenéticas lançaram cinco LPs – o primeiro, Frenéticas, vendeu 150 mil cópias e recebeu Disco de Ouro. No final dos anos 1970, elas conseguiram emplacar os temas de abertura de duas novelas da Globo: ‘Dancin’ Days’ e ‘Feijão Maravilha’. São delas outros sucessos como ‘Perigosa’, ‘Cantoras do Rádio’, ‘É que nesta encarnação eu nasci manga’ e ‘Vingativa’. Após a saída de Sandra Pêra e Regina Chaves, o grupo se desfez, em 1984. Em 1992, o sexteto se reuniu novamente para gravar o tema de abertura de mais uma novela global: ‘Perigosas peruas’.

Pessoal da OAB-RJ, vocês têm minha assinatura. Acho necessária e urgente essa campanha, pois se olharmos a história dos países em que também houve ditadura, os arquivos foram ou estão sendo abertos. Como o barato é louco e o processo é lento, prefiro me lembrar das alegrias vistas e vividas há mais de 30 anos, traduzidas em letras e alguns refrões das músicas das Frenéticas: “E o jeito que eu conduzo a vida não é tido como forma popular. Mesmo sabendo que é abuso, antes de ir, agito e uso”.

Destrinchando – Guerreiro do Asfalto

 

Lucas Machado

Lucas Machado

Escritor, profissional de Marketing e Comunicação.

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