EntrevistasLucas Machado

Cristiana Guerra

Cristiana Guerra.

Cristiana Guerra

Por Lucas Machado

Foto: Bruno Senna

A publicitária Cris Guerra tem estilo. Supervisora de criação da agência Lápis Raro, ela passou a ser querida do público – sobretudo apaixonado por moda – por causa de um dos seus três blogues, o “Hoje Vou Assim”, no qual ela posa para as fotos com as roupas que usa todos os dias para trabalhar. Sim, a superprodutividade de Cristiana (que escreve muito, trabalha muito e gesticula mais ainda) permite que ela mantenha três endereços na internet. Um mais interessante que o outro. “Para Francisco” é dedicado a apresentar o namorado ao filho que ele não chegou a conhecer. Cristiana ficou viúva durante a gravidez de Francisco. O “Filet Pra Quem é Mignon” é um bazar, onde as magras e pequenas como Cristiana podem comprar as roupas que a publicitária já usou e que, talvez, tenham sido apresentadas para o público no “Hoje Vou Assim”. Sobre os blogues, ela gosta de dizer: “Eles têm características espontâneas, eu não consigo imprimir neles o que eu sou e sim uma parte do que eu sou”. Não dá para falar de tudo mesmo. O bate-papo entre ela e o repórter Lucas Machado deu origem à seção Estilo, da Ragga 20. Mas sobraram muitas histórias. Para não desperdiçar conversa boa, você confere também a entrevista na íntegra.

Revista Ragga: Você tem alguma mania?
Cristiana Guerra: Puxar o cabelo pra cima enquanto eu estou pensando, escrevendo, criando campanha. Horrível, né

O que faz parte do seu playlist?
Jazz, bossa nova e vozinhas fininhas tipo Camille. Eu gosto de coisas mais suaves de ouvir; eu não sou muito rock’n roll. Tenho umas manias de conjuntos e cantores, e de ouvir uma mesma música muitas vezes. (risos). Adoro quando alguém me apresenta coisa nova que tem a ver comigo.

O que você acha muito over? 
As pessoas uniformizadas. Isso me incomoda muito, a mania das pessoas serem muito iguais, todas as mulheres de cabelos grandes e lisos, tipo de roupa igual. Nossa, isso me irrita.

Existe alguma coisa que você queria falar com os leitores dos seus blogues que ainda não falou? 

Evito falar de várias coisas nos blogues. No “Hoje Vou Assim” eu já tive oportunidade de escrever textos, respondendo a algumas críticas visivelmente maldosas. Nesse tipo de texto tento ser sincera. Sinceridade desarma as pessoas. As pessoas ficam muito impressionadas com uma pessoa que posa num blog, se achando, e essa é uma postura que tem a ver com o meu jeito diante da vida. Não dá pra traduzir para o “internetês” o meu jeito de ser. Como explicar que eu sou assim mesmo, brincalhona, aparecida, mas que isso tudo é uma forma de não levar a vida tão a sério? Assumo as coisas bacanas que eu tenho e as coisas ruins também.

Não sei o que falta falar. Que eu sinto medo várias vezes? Que eu me sinto forte algumas vezes? Acho que sou vista como uma mulher forte, uma personagem, e eu não sou essa personagem. Nos blogues eu não consigo imprimir o que eu sou, neles eu consigo ser uma parte, seja pela roupa que eu uso ou pelas coisas que eu escrevo. Tenho vontade de dizer: “Convivam comigo antes de construir uma imagem de mim”. Mas não tem jeito, exposição é isso.

Eu não pensei nisso quando fiz os blogues, não achava que eles iam ser visitados. O “Para Francisco” eu fiz pra desabafar, o “Hoje Vou Assim” fiz de brincadeira. Não tenho blogue pra receber elogio, nem me toquei que teria comentários quando fiz os blogues. E acho que muitos elogios também são exagerados. Mas também não acho legal ficar ouvindo críticas ofensivas, maldosas. Fazer o quê, né? Cada um dá o que tem.

Outra coisa que eu queria falar é que eu não estou aqui para dar aula de moda, só fiz um blogue onde eu mostro a roupa com que vou trabalhar todo dia, nada mais que isso.

Um ator?

Sean Penn.

Diretor de filme?
Almodóvar e Woody Allen.

Livro? 
“Histórias de Cronópios e de famas”, do Júlio Cortázar. “Um aprendizado ou o livro dos prazeres”, da Clarice Lispector.

Filmes?
“Minha vida sem mim”, “Tiros na Broadway”, “Assassinos por natureza”.

Como começou o “Filet Para Quem é Mignon”?
Como eu sou aficcionada por roupas há muito tempo, eu sempre fazia bazares, mas sempre dei muitas roupas quando eu não as usava mais. Uma hora isso começou a ficar difícil, eu comprava roupas caras, queria reciclar e fazer dinheiro, então de vez em quando eu fazia o bazar. Era um evento mesmo, dava o maior trabalho.

Aí, depois que eu comecei a fazer o “Hoje Vou Assim”, as visitantes começaram a pedir para eu fazer um bazar virtual e mandar as roupas por sedex. Eu achei uma loucura, mas resolvi fazer o bazar no “Filet pra quem é Mignon” que é um nome que eu já usava para o meu bazar – eu sou muito brincalhona. Aí fiz esse blogue e o negócio foi um sucesso.

Só que dá muito trabalho e eu não tenho tempo. Mas toda vez que eu coloco, vendo quase tudo rapidamente. O mais interessante é que depois que fiz isso, várias pessoas começaram a fazer também. Posso dizer que já vi uma centena de bazares inspirados nele. Dei várias entrevistas como precursora dos bazares na internet. Doido isso (risos).

E como eu vendia para visitantes do “Hoje Vou Assim”, as pessoas começaram a mandar fotos delas, como se quisessem dizer “olha como eu fiquei bonita no seu vestido”, aí começou a rolar uma coisa muito legal: quem me manda foto fica lá estrelando no meu blogue.

Você tem patrocínio?
Tenho uma parceria com a Luiza Barcelos no “Hoje Vou Assim”. É a única marca que de fato me patrocina. Era uma marca que eu já usava, gosto e ainda sou amiga da Luiza. Ela viu no blog uma oportunidade de mostrar mais o produto dela e me dá todo sapato da coleção que eu acho bonito. Fico muito feliz, é uma espécie de retorno, de remuneração pelo trabalho do blog. É reconhecimento.

Tem uma coisa em blogue que é muito delicada, que é a característica de ser espontâneo, então muita gente fica ofendida se eu falar que ganho roupas. Se eu compro, sou criticada por gastar demais, se eu ganho, sou criticada por ganhar. Isso é um saco. Ganhar roupas no blog é uma recompensa pelo que estou fazendo. Afinal de contas, são mais de 3 mil acessos por dia. Pessoas que estão usando o blogue para o seu dia-a-dia, usufruindo dele para se divertir, matar uma curiosidade ou ajudar a inspirar na hora de se vestir. E por que eu não poderia ganhar com isso?
Além do mais, eu só uso o que gosto. Não vou trair meu gosto, meu estilo. Quem me vê por cinco minutos sabe que eu não faria isso.

Roupa é o conteúdo do meu blog. Se eu ganho ou compro não faz diferença. Continua sendo espontâneo, afinal eu não vou usar uma coisa que eu considerar feia. Sou exigente quanto a isso, passei boa parte da minha vida escolhendo roupa e apurando o meu gosto.

Hoje em dia eu praticamente não gasto dinheiro com roupa. Primeiro porque não sobra, sou viúva e tenho um filho pequeno. De vez em quando compro alguma coisa em liquidação e só. E agora tem rolado de eu ganhar um vestido, um acessório, bolsas. É uma delícia. As pessoas sacam o que eu gosto e me mandam porque sabem que vai aparecer no blogue e isso é bom pra marca delas. Ganho muita coisa também por puro carinho, é lindo isso. Resultado: acabo ajudando a divulgar marcas desconhecidas. Fico feliz de verdade por isso. Gente que não teria a oportunidade de aparecer tanto através de propaganda e que eu acabo mostrando, divulgando, por acreditar, por achar bacana.

Mas é claro que eu gostaria de ganhar roupas das marcas que eu uso bastante e admiro muito, como a Maria Bonita Extra. Eu uso tanto e faço tanta propaganda, acho que mereço. (risos).

Todas as suas tatuagens têm uma história?
Quase todas. As últimas, por exemplo: “alegria” é uma tatuagem que o Gui tinha, tem a ver com um momento nosso. E “delicadeza” é uma palavra que aprendi com ele. Acho linda essa palavra e com certeza ela seria uma das coisas que eu escolheria levar para uma ilha deserta. Porque se o mundo tivesse ao menos delicadeza, boa parte dos nossos problemas poderia ser resolvida.

Se tivesse a chance de fazer uma coisa perigosa uma vez só, o que você faria?
Pularia de pára-quedas. Mas acho que só faria isso antes de ter filho. Agora dançou.

Emprego dos seus sonhos?
Viver de conversar com os outros. Adoraria, eu falo pelos cotovelos.

Gosta de escrever?
É uma das coisas que eu mais gosto de fazer na vida.

Qual é a melhor idade e por quê?
A melhor idade é aquela em que a gente está. Quanto mais a gente vive, mais a gente simplifica as coisas. É como se a gente nascesse velho. Já reparou que na adolescência a gente parece velho? Tudo é mais sofrido, mais complicado. Tem muitas coisas que me deixam triste pela idade, mas ainda assim eu me prefiro hoje do que ontem. As pessoas saudáveis têm essa relação consigo mesmas.

Se fosse possível, qual momento da sua vida você viveria de novo?
A festa em que eu e o Gui nos apaixonamos.

Que experiência da vida te mostrou o maior despertar espiritual?
A conjunção de duas experiências: a ida do Gui e a vinda do Francisco. A experiência de viver as coisas, sofrer e sentir alegria, tudo ao mesmo tempo, é que me fez entender do que sou capaz. Isso é despertar.

Como você acha que o mundo vai estar daqui a cem anos?

Péssimo, por isso vou tentar criar o Francisco para que ele também queira mudar alguma coisa.

O que você perguntaria para Deus, se tivesse a oportunidade de conversar com ele?
Tá a fim de conversar um pouco?

O que você queria fazer e ainda não fez?
Morar numa outra cidade, mudar meu estilo de vida, ser menos consumista. Acredite, eu quero isso de verdade.

Se você fosse definir em uma palavra o melhor e o pior de um homem? 
A melhor coisa que posso encontrar num homem é delicadeza: saber lidar com seu lado feminino com equilíbrio. A pior é prepotência.

Que moda que você usou numa época que hoje parece ridículo?
Calça de cintura alta.

Se você pudesse voltar no tempo, qual momento histórico escolheria?
Queria ser hippie nos anos 70.

Qual o problema mais sério do mundo?
Dinheiro. Foi o dinheiro que nos botou nessa enrascada.

Se pudesse fazer uma festa, sem se preocupar com custos, como e onde ela seria?

Casarão grande com piscina, ofurô, todos os meus amigos, cerveja, vinho, champanhe, música da melhor qualidade e sem hora para acabar.

Se te fosse dado o poder se fazer uma lei, qual ela seria?

Não faça nada com o outro o que você não gostaria que fizessem com você.

Dica de saúde?

Um copo d’água por dia ao acordar. Humor sempre. E humor não é rir do outro, é saber rir de si mesmo. Até das suas tragédias.

Como você faz para manter a sua beleza?
Nossa, que pergunta chique. A verdadeira beleza é estar confortável em você mesma. Cortar o meu cabelo curto foi fundamental para me descobrir e hoje eu me acho muito mais bonita do que eu sou. Não faço nada além disso não. Deveria, mas não faço.

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Lucas Machado

Lucas Machado

Escritor, profissional de Marketing e Comunicação.

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