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Contos sobre Scar

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Contos sobre Scar 1

Foto:shesamericxn

 

Destrinchando

Por Victoria Wall

Essa não é mais uma história triste, não é mais uma coisa sem nexo que nos faz pensar na morte como uma coisa ruim ou nos faz chorar por motivos errados.

Bem meu pai era um piloto, ele pilotava seu carro como um falcão, o que me remete a pensar que eu era idiota, acho que ainda sou. Eu estava sempre pensando que o carro dele era mais importante que eu, e todas as vezes eu me matava por dentro por pensar nisso dessa forma, ele só gostava do carro e gostava de mim.

Minha mãe era diferente, ela gostava de ficar de dieta e não comer nada que houvesse açúcar mas mesmo assim ela era doce, a pessoa mais doce que eu conheci.

Agora tínhamos a Scar, ela.

Eu nem tenho palavras para descrever essa garota.

E eu? Onde estou?

No meio do nada perto de Dallas em um ônibus.

Minha história não é tão feliz.

Não é tão triste, mas assim que aquela garota fodidamente linda entrou em minha vida tudo caiu em espiral, ela parecia um anjo, era o demônio em pele de tudo que era mais angelical. Ela era uma daquelas garotas que escapam depois de uma noite, uma daquelas garotas que te faz ficar maluco e depois desaparece no nada, era uma daquelas garotas que dizia “eu te amo” só para poder te ver aos seus pés.

E o pior?

Eu amava ouvir mentiras vindas daquela maldita boca de coração.

Scarlett tinha só 17 anos quando a conheci, roubando cigarros por beijos melados de homens desconhecidos, ela usava um shorts curto, uma camisa do Nirvana e um boné de um dos caras de quem tinha ficado, sapatos?

Não. Ela não usava sapatos, ela andava descalça pelo mundo.

Ela me viu do outro lado do recinto e veio rebolando com um copo de uísque em sua mão, quando aquela boca do paraíso se abriu eu pensei que aquele seria meu começo, mas não. Aquele era o meu fim.

Seus olhos verdes trancaram nos meus enquanto o líquido de cor amadeirada descia por seus lábios.

“Então você é o cara novo que todos falam a respeito?” Ela sorriu enquanto eu me perdia nela.

“Que todos falam eu não sei, mas sou o cara novo.”sorri tentando não parecer tão perdidamente louco pela pessoa mais bonita que eu já havia visto.

” Scarlett Olsen, filha do pastor.” Ela sorriu me estendendo na mão. Olhei para ela sem entender mas mesmo assim estendi minha mão.

“Harry Jones.” No mesmo momento em que aquelas palavras saíram de minha boca ela me puxou dando um beijo em minha bochecha subindo sua boca para minha orelha logo depois.

“É realmente um prazer te conhecer Harry Jones.”

Bem, depois daquilo e antes de uma transa fenomenal na minha casa, existiu uma boa tensão entre nós. Eu fui pegar uma bebida e ela sentar-se no colo de um dos homens que estava antes.

Ela me olhava enquanto beijava os homens e aquilo me deixava realmente louco.  Como dizia uma das pessoas mais sábias que eu já havia conhecido “todas as garotas bonitas têm pelo menos um pouco de tesão por uma boa provocação.”

E Scarlett não era exceção a regra.

Quando eu estava quase indo embora, entrando em meu carro ela apareceu do meu lado do carro apoiando-se na janela.

“Gostou da noite senhor Jones?” Ela sorriu enquanto tirava o cigarro de sua boca.

“Muito, senhorita Olsen.”

“Foi um prazer te conhecer, mas… Seria um maior ainda se você me levasse para a sua casa.” Ela sorriu me provocando e depois olhou para os lados para ver um estacionamento vazio.

” você não é menor de idade?”

” para você não.”

depois disso ela entrou no carro e foi o caminho inteiro tentando colocar seus tênis all star.

“Por qual motivo você não usa sapatos?”

“Filosófico, todos têm sapatos, se eu andar descalça vou deixar as minhas pegadas únicas em todos os lugares que eu for, não vou ser mais uma garota que anda de All Star, vou ser a garota que anda descalça.”

“Isso é realmente profundo.”

Quando chegamos a minha casa ela tirou os sapatos de novo e se sentou no sofá.

“Quer algo para beber?”

“Quero um pouco de uísque.” Ela sorriu olhando os livros que residiam na mesa de centro.

“Nunca pensei que você gostaria de ler esse tipo de baboseira.”

“Gosto de pensar que sim.” Entreguei o copo para ela, que virou-o em uma golada, me sentei ao seu lado e quando me dei conta ela estava sentada em meu colo.

“Eu queria fazer isso a noite inteira.” Seus lábios foram de encontro com os meus, ela era veneno que mata aos poucos, gostoso e adocicado, forte e rápido.

Ela era como uma dança de strip, era sensual, era quente, mas era um outro tipo de strip, ela te despia a alma, não só o corpo. O que era para ser somente sexo, ela transformava em sexo entre almas. Um lugar reservado somente para o prazer mútuo, o orgasmo mental que somente o toque sensual pode causar. Ela era o cigarro que é gostoso  quando se fuma, viciante que se tem que ter de novo e era aquele que matava em questão de tempo. Ela te pegava pelo pescoço, te arrastava para a fonte inesgotável do prazer e depois te jogava em sua teia deliciosamente mortal.

Ela era malévola, pobre de mim mero mortal.

Depois de vários anos de terapia, meu médico chegou para mim e disse que aquilo não funcionaria mais, era meio que um empurrão para fora do único lugar onde eu era feliz, mas também me acho um pouco culpado por não conseguir falar quase nada de importante.

É sempre assim, tudo que eu falo não tem uma importância realmente grandiosa, e agora, dentro desse ônibus posso ver que estou deliciosamente errado, no dia em que a vi chorando por me escutar dizer que a amava eu soube que pelo menos para uma pessoa eu dizia as coisas certas.

E no meio de agulhas, garrafas e cigarros eu encontrei o que era mais perto de um céu para mim, no meio do sagrado feminino e masculino eu encontrei o amor, encontrei o que seria para mim a paz.

Pena que ela durou pouco.

Scarlett era uma garota que gostava de sair, ela considerava a rua sua casa, então ela sempre estava em casa, desde aquela noite eu soube que ela nunca seria minha e eu, tão entregue a ela.

A cidade não era bonita, as luzes eram queimadas, o cheiro não era bom, mas a filha do pastor era tudo que eu podia querer, Scarlett Olsen era tudo que um homem gostaria de ter.

Em mais um amanhecer de domingo ela estava dançando no meio do parque, aquela cidade nunca iria dormir e nem ela. Eu estava sentado à sua frente, seu corpo se movimentando lentamente com a música, a bebida pousada em sua mão e o cigarro entre seus lábios de coração. Eu sempre me considerei um observador da vida, era um cara que observa mais do que participava e olhar aquela garota me despertou um sentimento que eu nunca achei que sentiria verdadeiramente. Amor.

Eu soube do nada e para o nada que ela seria o amor da minha vida.

Ela se virou para mim sorrindo, olhando em meus olhos com um brilho, ela era feliz.

Bem, vamos pular toda essa coisa melodramática que se chama amor, todas as vezes que eu a via beijar outro cara e tinha que me manter calado ou olhar o fim do meu ser. Olhar o que seria meu fim.

“O que está acontecendo que você está assim?” Ela parou de me beijar mas ainda estava em meu colo e segurando meu pescoço.

“Eu cheguei em uma conclusão.” Seus olhos eram ainda de um castanho brilhante, ela parecia intrigada mas ao mesmo tempo não queria saber o a conclusão seria.

“Eu te amo.” No momento em que essas palavras saíram de minha boca eu fechei meus olhos com medo de ver a verdade nos dela. Pelo seu toque dava para perceber que ela estava tensa. Depois de alguns segundos eu abri meus olhos e me deparei com uma lágrima saindo dos dela.

No mesmo momento em que as lágrimas saíram ela as enxugou, um sorriso triste apareceu em seus lábios, ela se levantou, pegou sua bolsa e começou a ir em direção de sua casa.

“Eu não vou te obrigar a falar nada. Mas saiba que as flores que você plantou em mim estão florescendo agora. E eu realmente queria que você as visse um dia.” Ela congelou parando perto de uma grande árvore, não disse nem uma palavra, só ficou parada de costas para mim.

“Tchau Harry.” Ela disse ao começar a andar de novo, sua voz era entrecortada, parecendo que alguém a sufocava.

Depois disso ela não me procurou mais. Eu a via nas festas e ela desviava o olhar, ela passava reto, não me olhava nos olhos, não tentava nada. Ela também não ficava com um monte de caras mais, ela não brigava com todas as garotas, ela não bebia tudo que existia na festa mais. Ela so vinha e se sentava em algum canto, ficava do lado de fora fumando ou até olhando os cantos de suas unhas.

Depois de dois meses ela apareceu em minha casa, ela estava de shorts, um moletom e dessa vez de salto alto, sua maquiagem estava toda borrada enquanto seu cabelo era uma grande bagunça castanha.

“Vai me deixar entrar H?” Ela sorriu ao meu ver, era o mesmo sorriso triste que eu havia visto a dois meses atrás.

Eu só dei um passo para trás deixando espaço para que ela entrasse, o som de seus sapatos contra o chão eram o único barulho naquela noite.

“Eu pensei que seria bom passarmos um tempo juntos.” Ela sorriu chegando mais perto de mim.

” você só tem 17 anos Scar.” Sussurrei contra ela quando seus braços me abraçaram fortemente.

“E você 25.” Ela disse brincalhona enrolando seus dedos em meu cabelo.

” estou dizendo que você é muito nova para o que você vive, você merece alguém que cuide de você, mas primeiro tem que deixar alguém entrar na sua vida.” Minha voz ecoando contra seu pescoço, ela me apertava tanto que eu pensava que em algum momento eu iria virar areia e desmanchar em seus dedos.

“Eu tenho medo H.” Ela sussurrou tão baixo quanto um suspiro.

“O medo só vai te destruir aos poucos, às vezes temos que fazer coisas que não nos agrada para podermos sorrir de novo no futuro. Às vezes as folhas das árvores não refletem o seu verdadeiro interior.” Quando eu disse aquilo uma lágrima caiu em meu pescoço, uma única lágrima, ela se separou de mim e sorriu tristemente. Segurando as lágrimas para que elas não estragassem sua maquiagem já borrada, os cílios falsos faziam sombra em suas bochechas, o batom de cor rosa fazia com que sua boca fosse mais destacada, ela era a flor mais bonita que eu já havia visto e mesmo assim a que tinha mais espinhos.

“Vamos só aproveitar o hoje? Vamos esquecer que você me ama, esquecer que eu te amo também, esquecer tudo que já passamos juntos, todas as vezes que você me fez sorrir, todas as vezes que você me fez chorar, tudo, só por hoje?” Ela falou com a voz decidida e transbordava uma aura de despedida em seu tom.

“Tudo por você Scarlet.” Sorri pegando sua mão na minha, puxei-a para perto de mim passando minha mão em sua cintura fina, ela sorriu enquanto me beijava, mas mesmo assim ela chorava. Suas lágrimas quentes arrebatando o resto de coragem que eu tinha no meu coração, nem se eu quisesse eu poderia machucar essa garota.

Ela era como o sol em um dia de inverno, ela era linda, se você olhasse para ela acharia que ela fosse quente, acharia que ela fosse a mais forte, ela te dava vontade de abraçá-la, sorrir, amar, te dava felicidade. Mas ao mesmo tempo ela era distante.

Todas as vezes que eu pensava nela eu me lembrava da forma em que ela mordia seu lábio inferior  depois de rir, na forma em que ele me tinha na palma de sua mão só com algumas palavras, na forma em que seu corpo se encaixava no meu perfeitamente em todas as vezes que ela me tocava, e por fim a última coisa que eu pensava sobre era como eu a amava tanto.

Uma vez ela me disse que gostava da palavra “azul” de com ela representava tanta coisa para ela, como aquele cor e palavra era tanta coisa para ela, ela me disse um dia que ela pensava que o amor da vida dela tinha os olhos azuis, mas na verdade os olhos dele eram verdes.

Já eram 4 horas da manhã e lá estava eu envolvendo seu corpo com os meus braços enquanto sua música preferida tocava, ela gostava  de Billie Holiday, sua música preferida era “it had to be you”, ela estava descalça somente vestida com seu moletom. Eu balançava seu corpo devagar no ritmo lento, eu não queria que aquele momento acabasse nunca. Seu cabelo caia como uma cascata em seus costas, o aroma de menta era realmente delicioso, o cheiro de uísque em sua boca era o melhor que eu já havia sentido. Naquele momento eu me sentia como se eu estivesse chagado da guerra e lá estava eu com a minha linda esposa, ela maravilhosamente a minha frente.

Ela se descolou um pouco de mim e olhou em meus olhos, cantando um pouco da música em sua voz impecável.

“For nobody else gave me a thrill

With all your faults, I love you still

It had to be you, wonderful you

It had to be you.” Quando ela terminou sua voz já era mais baixa, mais uma lágrima escorreu de seu olho, seus lábios se conectaram aos meus enquanto a próxima música começava a tocar, ela estava em tom de despedida.

“Tenho que te contar algo H.” Ela sussurrou baixinho ainda com o rosto na curva de meu pescoço.

“Estou a ouvir Scar.” Continuei a dançar com ela, o ritmo lendo ainda ao fundo.

“Como você sabe, meu pai é o pastor da cidade.” Ela se afastou um pouco ainda olhando em meus olhos.

“Sei, continue.”

“E você deve estar se perguntando o motivo dessa minha roupa hoje.” Ela pausou se balançando no ritmo. Eu permaneci em silêncio esperando que ela continuasse.

“Meu pai é pastor, mas ele também continuou no negócio da família.” Ela tirou o moletom me deixando ve-lá só de sutiã. Ela parou de dançar e se virou para mim, um roxo enorme na parte de trás de seu pescoço que acompanhava sua coluna.

“Ele é dono de um prostíbulo no centro, e todas as vezes que eu não quero trabalhar ele me bate.” Ela se virou de novo e sorriu tristemente, agora tudo fazia sentido, os homens mais velhos, ela em todas as festas, ela era forçado a fazer o que um pai não deveria fazer nunca.

“Na festa em que eu te conheci eu estava de acompanhante, mas depois que eu te conheci eu comecei a enrolar o meu pai para não ter que trabalhar sempre, até quando você disse que me amava. Eu queria te contar, queria que você fosse em frente, olhe para mim! Dezessete anos e prostituta.”

” você não tem culpa Scar.” Beijei seus lábios delicadamente segurando seu rosto entre as minhas mãos.

“Eu não quero ir para frente, não quero outra mulher. Eu quero você e o que eu sinto por você não muda.” Olhei em seus olhos e mais lágrimas saiam deles, enxuguei-as com a pontas de meus dedos o que no final rendeu-me um sorriso.

” eu não queria que você descobrisse, mas vim hoje para te pedir desculpas por não poder ficar com você.”

Naquela noite fizemos amor. Um amor gostoso e carinhoso, não foi sexo, não foi foder.

Enquanto ela beijava minha boca eu só pensava em falar o quando eu a amava. Eu a amava independente de qualquer coisa que ela fosse ou fizesse.

Scarlett morreu naquele dia bem de manhã.

Uma bala foi tudo que ela teve para morrer, uma bala, um pai, um pastor.

Em três segundos o amor da minha vida foi embora, em três segundos dizemos que amávamos alguém, em três segundos criamos e colidimos mundos. Ela se foi em simples três segundos, uma garota de dezessete anos, o meu mundo.

Ela estava linda no caixão, rosas e flores brancas em seu cabelo, a boca rosada.

Seu pai nem tinha aparecido no enterro, estávamos eu e seus amigos.

Quando ela desceu na cova meu coração parecia que havia sido enterrado junto, mas alguma coisa no fundo do meu coração dizia que eu ainda veria a minha linda Scarlett.

Ao chegar em casa eu encarei a blusa que vestia de manhã, coberta de sangue, flashes da cena de seu corpo ficando mole e seus olhos sorrindo para mim, sua boca esboçando um sorriso, um “eu te amo” se formando em um fio de voz, o sangue cobrindo minhas mãos enquanto eu tentava tirar seus cabelos de seu rosto.

E de repente, ela se foi, assim como veio para a minha vida. Leve como uma brisa, uma música de jazz, um beijo de madrugada.

Havia uma carta na cabeceira da minha cama, ela não me deixaria sem deixar nada.

“Querido Harry,

Espero que você esteja bem.

Eu estou.

Por favor me imagine ao seu lado, te amando cada dia da sua vida, te beijando todas as manhãs com nossos filhos.

Eu gosto de imaginar que eu teria uma filha com os seus olhos, ela se chamaria Elizabeth, o nome da minha mãe.

Eu não posso ficar com você mas sei que um dia iremos ficar juntos eternamente, não importa onde iremos ou onde estivermos, meu coração sempre será seu.

Eu sou sua eternamente.

Gosto de pensar que nosso amor foi como uma brisa de verão, ele aliviou os nossos seres, nos mostrou a luz e nos tornou eternos.

Se eu morrer amanhã pode ter certeza que morrerei feliz pois passei meses inesquecíveis ao seu lado, meu único arrependimento nessa vida é não poder ficar com você.

Para sempre sua, para sempre nosso amor.

Com todo o amor que existe dentro de mim,

Scarlett Olsen.”

Depois de ler eu arrumei minhas malas, tranquei a casa, peguei a carta e fui embora. Olhei para o quintal e a vi dançar ali, com a saia mostrando suas coxas, com o seu sorriso radiante e mais uma vez eu disse “eu te amo Scarlett Olsen.”

Minha Scarlett, a minha vida eterna.

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