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Confissão

Confissão

Por Débora Blanda

Tenho observado a humanidade. No começo ela não ligava muito para mim, a atenção ia sempre pro Sol ou pra Lua, mas nunca pra mim, que sustento os dois. A Chuva também teve o apreço da humanidade antes de mim, plantio e provisão estavam relacionados com ela.

Confissão
A humanidade é engraçada, conforme eles cresciam crescia junto a necessidade de classificar tudo ao redor. Eles aprenderam a classificar o que era perigoso, venenoso, seguro, agradável. Eles se classificavam como grandes e pequenos, importantes e desnecessários, santos e mundanos. Belos e feios, corajosos e medrosos, ricos e pobres, certos e errados. Eu observei o suficiente para entender que a necessidade de classificar é necessária para que eles compreendam: se eles constroem uma cidade retangular eles passam a entender a cidade, porque eles entendem a abstrata forma de um retângulo. Porque eles classificaram noite como noite, eles são capazes de entender que há um tempo para o descanso, para dormir.

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Classificar uma terra como improdutiva fazia com que eles se mudassem; Depois classificar a terra como seca fez com que eles aprendessem a levar água até ela.

Mas eles ficaram apegados de mais a essa classificação, que é sempre uma coisa ou outra e que não conhece meio termos.
Eles classificaram todos os elementos, deram nomes pra luz, e depois quando rotular já parecia intrínseco, eles se voltaram para mim.

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Olharam pras estrelas que eu seguro e as usavam como guia. Mas olharam pra mim e decidiram que eu precisava ser classificado, que eu precisava ter uma cor. Confesso que fiquei feliz de saber que eles queriam me entender, mas fiquei triste que eles quisessem fazer isso como quem admira um pássaro e o confina à uma gaiola. Porque eles quiseram me entender eles decidiram que eu era azul. Eu até sou azul, também. Mas eu sou diferentes tons de azul. E eu sou preto. E eu sou de todas as cores, dificilmente eles me veem do mesmo tom em duas horas diferentes do dia.

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A humanidade que é tão criativa, inteligente, destinada a grandeza, se limitou a ser classificadora. Classificam uns aos outros, rotulam tudo ao redor e perdem tanto nesse processo.

Perdem a possibilidade de diálogo, perdem o apreço pelo diferente e pelo ímpar. Queria que a humanidade parasse de me chamar de azul, eu sou mais que azul. Queria que eles não precisassem de tantos rótulos, faria bem pra eles.

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