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Comunicação e Religião: O Produto Chamado Fé

“Há mais entre o céu e a terra do que pode imaginar nossa vã filosofia”.

William Shakespeare

Comunicação e Religião: O Produto Chamado Fé

 

Por Lucas Machado

Ilustração: Eric Han

Desculpem-me os religiosos por minha simplicidade, irreverência e leveza ao lidar com o sagrado. Com certeza, vocês não verão aqui nenhuma tese teológica e tendenciosa, mesmo porque não tenho credenciais para tal. Sou cristão, tenho, assim como a maioria de vocês provavelmente deve ter, as minhas dúvidas, incertezas e fraquezas no nobre exercício da fé.

Entendo Jesus Cristo como o maior líder de todos os tempos. Mesmo não dispondo de veículos de comunicação de massa, mas contando com uma oratória incontestável, mostrou destreza nas suas ricas analogias, vistas através de suas parábolas. Cristo sacudiu a humanidade de tal forma que, em apenas três anos de “vida pública”, suas mensagens se espalharam mundo afora e se mantêm até os dias de hoje. Prova disso é o nosso calendário – o cristão, que passou a ser recontado a partir de sua existência. Na literatura é o astro do maior best-seller de todos os tempos: a Bíblia.

Sei que vivo, o filho de Deus não conseguiu e, até hoje, não consegue agradar a todos, mesmo tendo tido uma vida de excentricidade e desapego aos bens materiais, superando a imaginação de qualquer hippie radical dos anos 1960.

Juntamente com a morte e ressurreição de Cristo, nasceram religiões e suas divisões e subdivisões, nas quais a arte de comunicar se tornou um verdadeiro imperativo categórico. Mas por que a comunicação assumiu tal importância teórica e prática?

Façamos uma pequena analogia: Nós, profissionais de comunicação, usamos o display para poder dar destaque à informação; eles, os cristãos, usavam telhados pontiagudos nos locais mais altos das cidades, onde se podia ver com facilidade o sinal que é, com certeza, um dos mais conhecidos nos quatro cantos do mundo: a cruz.

Além disso, o sino, pelo que me parece, foi um dos primeiros destaques como “veículo de comunicação de massa”. Ao iniciar suas batidas, ele atingia as vilas e aldeias e mudava por completo o comportamento de cada cidadão. Atualmente, não se faz nada em uma campanha publicitária sem uma pesquisa quantitativa ou qualitativa. A Igreja Católica inventou o confessionário, que dispunha de uma margem de erro jamais vista pois, nem com o psicólogo mais bem pago do mundo, colheríamos informações tão preciosas de fieis. Como “promoção”, usavam-se procissões que, além de parar uma cidade, ainda tinham estandarte e indumentárias diferenciadas. A comunicação está presente na religião desde os primórdios. Hoje, com os grandes veículos de massa e novas possibilidades como a internet, a forma como se propaga a fé vem se modificando. Na atualidade, temos um mix de ferramentas de marketing sendo usadas, que vão além da nossa imaginação. São pauta em grandes campanhas publicitárias, no currículo das escolas de graduação e são denominadas “marketing religioso” em algumas publicações de Philip Kotler, listado entre um dos 200 maiores especialistas em finanças pelo Wall Street Journal, e a sexta pessoa mais influente no mundo dos negócios.

Com a concorrência acirrada, vale de tudo. É essa a situação dos seguidores de Jesus, Maomé, Buda, entre outros, que através da história têm sido o destino e o motivo do aparecimento de novas religiões. A sociedade, em sua maioria, está em busca de novas formas de se relacionar com Deus. Se Shakespeare já pregava a enorme dimensão entre o céu e a terra, agora cabe a nós, meros mortais, saber exatamente o que temos entre esses dois pontos. A pergunta é: o caminho é realmente esse que estamos trilhando? Será que os comunicólogos não estão exagerando na forma de divulgação e priorizando outras coisas como dinheiro e religiosidade? Lembrando que há uma diferença muito grande entre religiosidade, que é dogmática e espiritualidade, que constitui o relacionamento íntimo com Deus. Devemos prestar mais atenção entre o ouvinte e o praticante.

Mas, independente da forma com que todos nós enxergamos, o mais importante é saber que o maior legado de Jesus Cristo deixado para nós é, principalmente, o amor.

Guerreiro do Asfalto

 

Lucas Machado

Lucas Machado

Escritor, profissional de Marketing e Comunicação.

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