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Complicada e Perfeitinha

Complicada e Perfeitinha.

“Sem discurso nem requerimento, Leila Diniz soltou as mulheres de vinte anos presas ao tronco de uma especial escravidão.”

Carlos Drummond de Andrade

Complicada e Perfeitinha

Por Lucas Machado

Ilustração: Gabriel Jack

 

Sempre quis escrever sobre Leila Diniz. Porém, toda vez que lia e ouvia suas histórias, havia muitas controvérsias. Carioca de Niterói, Leila sempre foi uma personalidade libertária, a medida certa da rebeldia e transgressão. Em um aniversário de um amigo no Rio de Janeiro, num condomínio na subida da Pedra da Gávea, fui apresentado a um parente dela. Apesar de hoje ser um grande amigo, vou preferir preservar a fonte. Pensei comigo: chegou a hora de saber os verdadeiros segredos dessa grande artista e musa brasileira. Começamos falando sobre futebol, e já de cara ele me disse que era flamenguitsa doente, contou histórias bastante curiosas, afinal de contas, ele viveu as épocas áureas do “legalize total” na Cidade Maravilhosa. Antes de começar o interrogatório, quis me mostrar mais simpático. Afinal, cada um tem sua forma de lidar com suas fontes. Acabei dizendo que tinha uma enorme afinidade com o Flamengo, aquela coisa literária de “como fazer amigos e influenciar pessoas”.

Leila Diniz foi uma carioca da gema, revolucionária, espontânea e, sobretudo, muito autêntica e livre. Entre uma prosa e outra, o tal parente me confirmou várias coisas que eu já havia lido e ouvido sobre a atriz. Ela foi   o resultado final de uma linhagem de mulheres que, nos anos 1940 e 1950, lutaram pela sua independência, foram à frente em relação à moral vigente e quebraram tabus. Já havia muito de Leila em Liliane Lacerda de Menezes, Manlia Kranz, Tônia Carrero e Danuza Leão. E mesmo entre as contemporâneas nos anos 1960, ela nunca esteve sozinha: tínhamos Betty Faria, Ana Maria Magalhães, Marieta Severo – depois disso, um ninho de embriões de Leilas que surgiram.

Aos 14 anos, ela já saía de casa e tinha amigos mais velhos. Aos 17, acompanhada do amigo Antônio Carlos Jobim, no local chamado Faroeste, no posto 6 de Ipanema, a que os boêmios recorriam depois que todos os bo- tecos fechavam na cidade, conheceu o ator e cineasta Domingos de Oliveira, seu primeiro namorado e futuro marido. Pouco tempo depois, Leila juntou suas trouxas e casou-se com Domingos. Ao final do casamento, que durou entre 1962 e 1965, ele escreveu e dirigiu ‘Todas as mulheres do mundo’, que conta um pouco do relacionamento dos dois, interpretado pela própria Leila e pelo ator Paulo José. A partir daí, a atriz começou a ser conhecida, ficou famosa e fez carreira no cinema, no teatro e na televisão.

Leila roletou de moto por todos os cantos do Rio, teve vários namorados, todos conquistados com facilidade – ela só foi rejeitada por uma pessoa pela qual se interessou: Roberto Carlos. A atriz protagonizou dois momentos marcantes. O primeiro quando foi fotografada, em 1971, de biquíni na praia, grávida de seis meses. A foto, publicada nos grandes jornais, chocou o Brasil inteiro. As grandes massas nunca tinham visto isso – na época, as grávidas tinham costume de usar uma bata costurada acima do biquíni ou o bom e velho maiozão. O segundo aconteceu em novembro de 1969. Sua entrevista para o número 22 do jornal ‘O Pasquim’ deu o que falar. O jornal, por mais liberal, bem-humorado e soco na cara que fosse, não podia soltar uma entrevista com 72 palavrões. Então, o jornalista teve que trocá-los por piadas e asteriscos. A entrevista quase rendeu a Leila uma prisão pelos militares e a perda do contrato com a Globo.

Leila deixou um legado que só depois de tantos anos estamos vendo coisa parecida. Imagine o que ela já causava há 40 anos, tempos de ditadura militar e repressão, defendendo o amor livre e o prazer sexual da mulher. A atriz morreu em um acidente aéreo em junho de 1972, aos 27 anos, no auge de sua carreira. Quebrando tabus e questionando o senso comum, Leila Diniz deixou-se julgar por um país inteiro para que ninguém mais fosse julgado.

Guerreiro do Asfalto

 

 

Lucas Machado

Lucas Machado

Escritor, profissional de Marketing e Comunicação.

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