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Clube dos Cafajestes

Clube dos Cafajestes.

“Vou te contar o que me faz andar/Se não é por mulher não saio nem do lugar/Eu já não tento nem disfarçar/ Mulher de corpo inteiro/Não fosse por mulher eu nem era roqueiro/Mulher que se atrasa, mulher que vai à frente/Mulher dona-de-casa, mulher pra presidente/ Tanto faz se ela é machista ou se é feminista/Eu gosto é de mulher.”

Ultraje a Rigor

Clube dos cafajestes

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Por Lucas Machado

Ilustração: Pedro Kubistschek

Você deve estar pensando: “como assim, o artigo é sobre os ‘Os cafajestes’ logo na edição temática sobre mulher?” Bom, acredito que tem tudo a ver, pois quem não teve um cafajeste na vida, na família ou entre amigos? Geralmente os caras acertam nas vestimentas, pois elas valorizam o físico ou escondem perfeitamente a falta deles. Eles são engraçados, pois sabem muito bem que as minas gostam mesmo, no primeiro encontro, de umas boas risadas. Falam sempre baixo, sem gesticular. Aquele tipo mafioso, saca? Nas baladas, eles nunca dançam espalhafatosamente, chegam rápido e saem mais rápido ainda. Geralmente, uma ou duas mulheres somem na sequência. Correm de fotos e estão, na maioria das vezes, sozinhos ou com poucos companheiros. O James Bond é um tipo bem interessante de cafajeste. Quem acompanha seus filmes sabe que ele é um tremendo cafa.

Mas, na real, este texto é para contar um pouco sobre o grupo de cariocas que de uma maneira glamourosa e divertida fizeram parte do “Clube dos Cafajestes” na década de 1940. Eram todos bem-sucedidos, de famílias tradicionais e inseridas na sociedade. O Clube era uma verdadeira instituição da boemia carioca. Faziam parte deste time o comandante Eduardo Martins de Oliveira, um dos líderes do grupo, o famoso playboy e milionário Mariozinho de Oliveira, o membro da família imperial brasileira Dom João de Orleans e Bragança, o industrial Francisco Matarazzo Pignatari, o produtor de cinema e dono do canal 100, Carlos Niemeyer, Alberto Sued, um dos fundadores, o jornalista e político Carlos Lacerda, o jogador do Botafogo Heleno de Freitas e o playboy do Copacabana Palace Jorginho Guinle, entre outros bons vivants. Posteriormente, Ibrahim Sued, que foi barrado em uma das festas, mas como seu irmão fazia parte da trupe mandou liberá-lo. Juntou-se ao grupo dos boêmios.

A partir dali, Ibrahim começou sua carreira prometendo que nunca mais seria barrado em nenhum evento. Surgia assim um dos maiores colunistas sociais da história do jornalismo brasileiro. Colunista do jornal O Globo, por quatro décadas, criou frases e bordões que ficaram famosas: “de leve”, “sorry”, “periferia”, “ademã que vou em frente”, “os cães ladram e a caravana passa”, “olho vivo que cavalo não desce escada”, entre outros. O “Clube dos Cafajestes” foi criado na Avenida Atlântica esquina com República do Peru em Copacabana, em um bar que se chamava Alvear. No início, se encontravam ali depois dos bailes de domingo que rolavam nos clubes Botafogo e Fluminense.

A maioria tinha de 20 a 35 anos, irreverentes, mulherengos, agitadores culturais, alegres e imprevisíveis, tinham como característica principal amar loucamente as mulheres, mas nunca ter compromissos sérios. Nas rodas de bar debochavam, mesmo fazendo parte dela, do cinismo da high society, que desde aquela época se preocupava mais com a aparência do que com a integridade moral. Os cafajestes faziam as melhores festas da cidade, mas também eram verdadeiros penetras, entravam em todas as festas, mesmo que fosse pulando o muro. As mocinhas de família disputavam não só a festa, mas com qual deles terminariam a noite.

O grupo foi pego de surpresa com a morte de Edu em um desastre de avião, em julho de 1950. No carnaval do ano seguinte, a marchinha “Zum, zum, zum, tá faltando um”, gravação de Dalva de Oliveira, homenageou o companheiro. Com a perda de um de seus líderes o “Clube dos Cafajestes” perdeu fôlego, mas continua na lembrança e os que são vivos ainda se encontram para relembrar as histórias vividas juntos.

E, para “não dizer que não falei das flores”, no Who is Who dos relacionamentos afetivos, podemos dizer que nos dias de hoje existem vários grupos como o deles, na versão feminina. A história e os cafajestes agradecem.   No mais, eu gosto é de mulher. E não sou tão cafajeste assim.

 

Guerreiro do Asfalto

 

Lucas Machado

Lucas Machado

Escritor, profissional de Marketing e Comunicação.

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