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CIVILIZAÇÃO URBANA

CIVILIZAÇÃO URBANA

CIVILIZAÇÃO URBANA

Por Paulo Solmucci

RUMO À CIVILIZAÇÃO URBANA

Belo Horizonte avança em direção ao conceito de cidade compacta. Se você gosta de Londres, Paris, Roma ou Barcelona, então você gosta das cidade compactas. E o que são elas? São cidades vivas. O que têm em comum? Gente caminhando em todas as direções. Ruas com calçadas bem cuidadas, comércio de portas abertas, música, teatro, museus, floriculturas, bares e cafés com cadeiras nas calçadas, sob toldos.

As pessoas se sentem tão bem em cidades assim que, mesmo morando em outros países, elas guardam suas economias para dar uma chegadinha nelas. Gente gosta de gente. Quanto mais gente pra lá e pra cá, mais seguras são as ruas e as calçadas. A melhor vigilância é o olhar dos passantes.

O Euromonitor International faz uma classificação anual das cidades mais visitadas no mundo. Em 2015, Londres recebeu 17,4 milhões de turistas. Paris, 15 milhões; Roma, 9 milhões. Barcelona recebe por ano, sozinha, o mesmo que todo o Brasil: 6 milhões de turistas. Paris tem predinhos de cinco ou seis andares, um grudado no outro, e sem estacionamento. Idem, Barcelona. Isso faz com que Paris tenha uma densidade de 21 mil habitantes por quilômetro quadrado. Barcelona tem 35 mil/km².

Cidades compactas são mais ou menos como se Belo Horizonte fosse uma imensa Savassi. Quer dizer: com prédios de alturas variáveis – sejam baixos, médios ou altos. O fundamental é que abriguem atividades diversas, como moradias, escritórios, consultórios, escolas. Que em sua parte térrea haja um comércio diversificado. E, no entorno, existam praças, como a Diogo de Vasconcelos e a da Liberdade. Se assim fosse, Belo Horizonte teria 20 mil ou 40 mil hab/km².

Mas, Belo Horizonte não é desse jeito. É toda espalhada. Tem gente que mora nas casas da Pampulha. Outras moram em meio ao amontoado dos prédios do Belvedere. Tanto em um bairro quanto em outro, não há comércio no entorno das casas ou no térreo dos edifícios. As calçadas são péssimas. Destituídas de comércio, de bares e restaurantes, ficam desertas à noite. Para piorar a situação, são mal iluminadas.

Inexiste nas áreas residenciais da Pampulha e em meio aos espigões do Belvedere, aquela paisagem urbana de lojas, livrarias, floriculturas, museus, bares e cafés com cadeiras nas calçadas, sob toldos. Mais grave ainda: entre um bairro e outro, há vazios urbanos. O resultado é que Belo Horizonte tem uma densidade de 7,2 mil hab/km². Ou seja: a densidade de Paris é 192% maior do que a de Belo Horizonte. E a de Barcelona é 386% maior.

Estão implícitos ao conceito de cidade compacta a infraestrutura e os serviços públicos de qualidade: saneamento básico, coleta e reciclagem do lixo, drenagem das águas, transportes públicos, ciclovias, iluminação, parques, praças, paisagismo, sinalização e mobiliário urbano, a prioridade do pedestre em relação ao automóvel. As cidades compactas são sobretudo caminháveis.

Mesmo na ilha de Manhattan, que tem uma densidade de 27.800 hab/km², a verticalização não é um problema; é uma solução. Sim, porque em Nova York há parques, praças, transportes públicos, comércio de portas abertas para as calçadas largas. As pessoas moram perto de onde trabalham, estudam e se divertem. O sistema de transporte é uma harmonização de quase todo o leque de modais: táxis, ônibus, metrô, bicicleta. As calçadas são largas, bem pavimentadas e iluminadas.

O urbanismo da escala humana é o da cidade compacta. Este foi o tema do Seminário “Código de Posturas de BH – Direitos e Deveres na Utilização do Espaço Urbano”, promovido na Câmara Municipal nos dias 8 e 9 de maio. Decorreu de uma iniciativa do vereador Léo Burguês, presidente da Comissão de Orçamento e Finanças Públicas, com o apoio da Escola do Legislativo (Escleg). Tive a honra de ser um dos palestrantes, falando exatamente sobre o tema “O uso do espaço público – experiências e qualidade de vida na cidade”.

Quando afirmei, no início deste artigo, que Belo Horizonte começou a seguir o rumo da cidade compacta, é porque tal propósito entrou na pauta dos poderes legislativo e executivo do município. Do mesmo modo, passou a fazer parte da agenda de lideranças empresariais e de um vasto leque de profissionais liberais, entre eles arquitetos/urbanistas, engenheiros ambientalistas, advogados e tributaristas.

É do cruzamento das inteligências, nas várias áreas do conhecimento, que se poderá modelar um código de posturas compatível com a trama urbana de uma cidade de baixo carbono, favorável ao pedestre, mesclada nas funções de moradia, trabalho e lazer, e, em síntese, marcada pela aproximação entre as pessoas, isto é, socialmente diversificada. Está-se iniciando um ciclo virtuoso, que culminará com a pacífica revolução urbana da capital mineira.

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Paulo Solmucci - Presidente da ABRASEL (Associação brasileira de bares e restaurantes).

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