EntrevistasLucas Machado

Celton

Celton

Lucas machado entrevista Celton

Título: Ganhando a vida nos engarrafamentos

Jornal Estado de Minas

Lacarmélio Alfeu de Araújo é isso mesmo! Mais conhecido como “Celton”, natural de Itajutiba, Minas Gerais, é vendedor (camelô). Ele simplesmente conhece tudo de revista em quadrinhos e, apesar do segundo grau incompleto e de nunca ter feito um curso de desenho, escolheu a arte como fonte de renda.

Celton nos recebeu em um apartamento modesto, recém-adquirido, na região centro-sul de BH. Ele fez, sozinho, todo o processo de produção de sua revistinha em quadrinhos: dos desenhos e texto à comercialização do produto final nos sinais de trânsito. Em tempos de – no ditado popular – “vacas magras”, Lacarmélio encontrou uma maneira bastante peculiar de se encaixar no mercado informal e garantir sua sobrevivência. Diante de um futuro totalmente imprevisível, encarou o desafio.

Ao final de nossa entrevista, fomos repórter e fotógrafo, acompanhar parte da rotina de trabalho de Lacarmélio nos engavetamentos da capital mineira. Sujeito simples mostrou que, com criatividade e inteligência, é possível fazer a verdadeira “mágica” de transformar personagens inanimados em seres emocionados e radiantes de significados. Na real, se você está triste, sem esperança, achando que sua vida está difícil, que sonhos são impossíveis, veja essa lição de vida: “LEIA CELTON”.

Quem é o Celton, como é a vida dele, o que ele faz?

Olha, o Celton é um mecânico, ele mora no bairro Santa Efigênia, onde tem sua oficina e tem dois amigos: o Paulo e o Beto. Tem a namorada dele que é a Cida. Ele tem superforça e super agilidade. Antigamente, ele tinha até identidade secreta. Ele é um cara que está na dele. Se a encrenca apareceu, ele sai dela, não tenta resolver. Ele não patrulha a cidade nem nada. Ele cuida da oficina mecânica dele e só. Ele é um pacato, um cara pacato mesmo. Por exemplo, se alguém der uma tapa na cara do Celton, ele não revida.

Quando você criou o Celton e como foi isso?

Criei o Celton na década de 70 e publiquei Celton pela primeira vez em 1981. Agora, o estilo de quadrinhos que eu faço hoje é muito diferente, não é como os primeiros, e isso é natural. A gente só consegue mudar isso com os anos. Eu tenho, hoje, a tendência de fazer quadrinhos com coisas relacionadas à nossa história no Brasil. Esse é um estilo que só com os anos fui desenvolvendo. Por exemplo, na última edição nem é uma história em quadrinhos, é uma pesquisa sobre a história da “Estrada Real”.

Como é criar um quadrinho?

Quando a gente vai criar um quadrinho, a gente escreve. Não tem como fazer história em quadrinho sem escrever, ou seja, a coisa vem junta. Por exemplo, eu gosto de desenho e gosto de escrever.

 Por que vender as revistinhas na rua?

Ah! O porquê está na questão do viver financeiramente delas. Se eu quero viver da coisa eu tenho que vender, a resposta é essa.

Belo Horizonte, a capital do estado de Minas Gerais, tem uma notável vocação para os quadrinhos. Desde o início da grande imprensa, e até antes, os ilustradores oriundos da capital se aventuravam pela “nona arte”. Henfil certamente é seu filho mais conhecido. Entretanto, o movimento pós-ditadura apresentou um cenário novo no qual novos artistas puderam expor seus talentos. Pessoas como você, que se tornaram um símbolo dos quadrinhos na cidade, recebem várias homenagens administrativas. Quais homenagens administrativas. Qual você já recebeu?

Todos me deixaram muito honrados, muito mesmo. A Casa do Baile, na Pampulha, deu-me uma honra muito grande, fazendo a exposição dos meus desenhos em quadros – ampliações dos desenhos. O prefeito já me deu um prêmio também que me deixou muito honrado, e o IAB (Instituto dos Arquitetos do Brasil), também.

O maior festival de quadrinhos da América Latina também ocorre em BH, bienalmente, com a próxima edição marcada para 2007. Quais são suas expectativas para esse festival?

Espero que seja muito bom para eles. Não sou muito ligado em festa. Espero que seja uma coisa boa, porque isso aí tem a sua função legal, de difundir o quadrinho, de promover encontros com o pessoal, etc., mas eu sempre vejo quadrinhos como produção e não como motivo para festas.

Eu não me tenho como artistas. Me tenho como um cara que decidiu viver de arte e procurou uma forma de vender  a revista sem ter que correr atrás da lei de incentivo à cultura ou de patrocínio. Eu acho que, a partir da hora em que decido viver profissionalmente de uma coisa, tenho que assumir comigo que vou ser profissional e que não vou ficar sugando os outros. Esse pessoal da área de arte me odeia por eu pensar e falar tão abertamente sobre esse tipo de coisa, mas é assim, a partir da hora em que você quer ser profissional de uma coisa, é você quem tem de responder pelos seus atos.

A partir da hora em que uma revista, anos após anos, consegue ainda estar aí no mercado, a partir das vendas, é porque o povo gosta de ler essa revista. Agora, quando uma revista só existe porque a lei de incentivo à cultura paga as despesas dela, ou porque tem patrocínio, ela não está provando realmente que o povo gosta de ler. Se ela não estiver provando isso, ela é aceita pelo povo? Ela já passou pelo teste do povo? Você está entendendo o que estou dizendo? É este o meu raciocínio de quadrinhos, por isso é que eu não sou muito ligado ao auê. Sou ligado à produção, à técnica de vendas e formas de conquistar os leitores à partir das observações daquilo que os leitores estão aprovando ou não.

Nos seus quadrinhos, você reproduz com riqueza de detalhes os prédios, avenidas e construções de Belo Horizonte. Por que utilizar BH como cenário? O que levou a utilizar esses recursos?

São idéias que a gente vai tendo. À medida que a gente vai mexendo com uma coisa, passa a ter idéias sobre aquela coisa e tem que estar no meio daquela coisa. Aí as idéias vão surgindo de uma publicação para outra. Foi no final da década de 90 que tive a idéia de colocar Belo Horizonte como cenário dos meus quadrinhos. Essa não foi uma idéia que surgiu de hoje para amanhã. Veio aos poucos. Tive que amadurecer essa idéia. Agora a revista tem sofrido metamorfoses também, mesmo depois desse período. Ela não fica estagnada só numa linhagem . Eu não sei como a revista vai estar daqui a dois, três anos…Só sei dizer que sou do tipo que está sempre pesquisando. Não sou do tipo que bate num estilo e pára ali, estou sempre pesquisando e, em cada número, estou experimentando alguma coisa interessante, diferente.

Ficamos sabendo que você produz os desenhos de manhã e à tarde vai para os sinais de trânsito comercializar seus trabalhos. Atualmente, a revista “As Aventuras de Celton” está em qual edição e qual o número de exemplares vendidos até hoje?

A edição é a 17, isto a partir da fase profissional, que comecei em 1998. Eu tinha muitos projetos e um deles era comprar uma casa, aqui nessa área onde tem mais engarrafamento em Belo Horizonte, na zona sul. Por isso, sempre falei que queria morar na zona sul, não pelo fato de ser a poderosa zona sul, mas é porque aqui está mais próximo, tem maior possibilidade de comercializar o meu produto. Eu tenho visão empresarial, bicho, não sou um artista. Tô fora desse papo de que não se vive de arte no Brasil. Vive sim, eu estou procurando isso ano após ano. Eu repito isso: eu tenho visão empresarial.

 Como foi a aceitação do público na primeira edição? Você se surpreendeu com as vendas no início?

Não. As vendas não foram surpreendentes no início, inclusive se eu fosse olhar isso, esse lance de começo, eu teria parado com a revista. Quando você tem um objetivo, você não pode pegar os resultados iniciais e achar que vai ser sempre daquele jeito. Você tem um objetivo que não é aquele número que você está publicando, ou só aquela parte do trabalho que você está fazendo. Se você tem realmente um objetivo, os erros e acertos, vamos falar mais dos erros, os erros daquela etapa que você está passando são lições para você consertar e continuar no seu objetivo. É por isso que esse Celton deu e tem dado certo. É por causa desta visão, desta filosofia, que eu ponho em prática todos os dias. A revista deu errado, ai meu Deus, eu vou parar. Deu errado, vamos descobrir o erro. Eu sou o tipo que faz isso.

Por isso que você tem que amar o que faz?

Olha, amar não é suficiente, tem que trabalhar bem. Amar sim, porque é divertido. Mas as coisas não acontecem só porque estou amando. Pessimista não constrói nada, otimista também não. O que constrói é ação.

 Como é exatamente esse lance das vendas?

Mexer com essa área de publicações envolve muita coisa. Não é produção. O que faz a coisa são as técnicas de venda. Acho graça porque as pessoas não me fazem perguntas sobre venda. Não fiz nenhum curso de vendas. Tenho é visão dessas coisas, é a diferença. Ninguém, me qualquer área, teria ido pra frente se não existisse um vendedor. A maior profissão  que existe no mundo é a de vendedor. Naturalmente, para aquele que tem visão da coisa.

Você mantém a tática dos sinais de transito desde 1998, mas foi bem antes disso que as revistas em quadrinhos, desse herói urbano, apareceram na praça. O personagem surgiu na década de 80 e durante vários anos você  vendeu seu trabalho de bar em bar. Desenhista, você trabalhava com publicidade e foi obrigado a adormecer o herói quando a barra financeira apertou. Como é que tudo isso aconteceu e o que você sentiu ao ter que dar uma pausa no trabalho da revista por causa da grana? O que te incentivou a voltar a vender a revista?

Porque eu gosto da coisa. No final da década de 90, cheguei a parar definitivamente de fazer quadrinhos. Foi quando eu montei uma minigráfica de fundo de quintal e cheguei até a começar ir pra frente com essa gráfica, mas depois de uns anos, quatro e cinco, longe dos quadrinhos comecei a ficar numa tristeza! Parecia que faltava alguma coisa, uma tristeza que eu  não entendia o que era. Às vezes, olhava alguns quadrinhos meus e ficava nostálgico, tipo aquele sentimento da namorada que poderia ter sido a mulher da minha vida, essas coisas assim. Aí eu decidi que ia viver de quadrinhos mesmo, mas não como hobby. Fiz uma análise porque o troço nunca encaixava. Analisei a minha vida toda, tudo que eu fazia. Fui descobrindo os pontos fracos, fui estudando, analisei tudo friamente. Exemplo: vender em barzinho não funciona. Colocar Belo Horizonte como cenário, sim. Comecei por aí, da maneira de vestir na hora de vender, andar com determinado tipo de gente. Coloquei tudo, dei uma geral e parti para a revista. Mudei tudo, mudei mesmo, e as coisas começaram a acontecer rapidamente.

Certa vez você contou a um jornalista que também descobriu as vantagens dos engarrafamentos e virou figura carimbada nos locais onde os motoristas são obrigados a praticar a arte da paciência. Você afirmou que muitos motoristas, taxistas e motoqueiros lhe dão dicas de lugares engarrafados e que você pega sua moto e vai direto para o local recomendado. Na mesma entrevista você afirmou que já bateu recorde e, em um único engarrafamento, vendeu mais de 500 revistas. Você continua recebendo dicas de motoristas, já superou esse recorde?

Dicas é o troço! Graças a Deus é o que mais recebo do pessoal da rua, dos taxistas, do pessoal da BHTrans e dos motoristas de ônibus. Agora, esse lance de recorde, não me  preocupo não. Se eu já bati? Eu acho que já!

Quanto tempo você leva para fazer cada quadrinho, cada página, cada revista?

Quadrinhos que têm cenários, chego a levar dois, três dias cada quadrinho; quadrinho só com personagens são minutos, 15 a 20 minutos no máximo.

Você gravou um CD com músicas próprias. De onde veio a vontade de gravar esse CD? Como são as músicas, você mesmo é quem canta?

Eu mesmo fui quem cantou todas. Gosto de fazer música há muitos anos e isso vem desde menino também. Nunca gravei por causa de grana. Sempre foi muito cara a produção. Agora, com a computação, eu vi a possibilidade de gravar em casa mesmo. Eu sofro do mal de gostar de fazer as coisas sozinho, é um mal. Montei um estúdio caseiro na hora que vi que era possível gravar um CD. Montei porque pensei: não teria grana para pagar uma gravação. Falei: “Vou montar um estúdio pra mim porque posso gravar quantas vezes precisar.” E gravei assim, por diversão. Não gosto do CD, pois está muito desafinado, mas eu gosto das músicas.

O que é mais gratificante no seu trabalho?

É a sensação de bem estar que eu sinto, apesar do desgaste físico, dos problemas financeiros, da pressão com gráfica, de disputa de pontos na rua com outros vendedores. No meio deles também tenho bons amigos. Os meus colegas de trabalho são camelôs. Eu sou camelô. Eu chamo de colegas de trabalho, pois estão vendendo os produtos deles lá e eu vendo os meus e tem alguns virando amigos.

Você faz críticas políticas e sociais nas histórias. Você já sofreu algum tipo de censura?

Não. Eu digo que a função da arte é transmitir alguma coisa que seja boa, pra quem está lendo ou pra quem está vendo aquela arte. A função da arte é transmitir  algo que desperte reflexão. Hoje sinto uma atração cada vez maior para o lado da política e para o lado social. O artista tem essa função, ele tem responsabilidade e eu estou puxando cada vez mais para mim esse lado de que a minha revista seja cada vez mais útil pra sociedade. A procura que venho fazendo na minha revista é esta. Sinto falta disso cada vez mais.

Alguma mensagem pra quem quer viver de quadrinho?

Trabalho. Vai trabalhar como todo mundo, faça como o médico, a professora, o açougueiro, o padeiro, o pedreiro…Vai trabalhar os seus quadrinhos, vai trabalhar a sua profissão. É isso aí. E mais: pesquisar, pesquisar sempre, ficar só trabalhando sem sacar o que está ao redor não adianta…Muitas pessoas insistem em dizer que o mercado mineiro é travado. Mentira, mentira, não é travado nada. O mercado mineiro é excelente, principalmente para quadrinhos. Tô fora desse pensamento aí. O mercado mineiro está ótimo e minha revista está vendendo cada vez mais.

 Como cativar o público?

Com publicações cada vez melhores. Casa publicação é nova, exige a mesma dedicação, igualzinho à primeira vez. A verdade é essa, eu nunca cheguei lá, a verdade é essa. Meu pensamento tem que ser esse. Cada número é uma nova conquista, cada dia é um dia. A mesma onda que vem, vai.

O que faz para fidelizar os seus leitores?

O fato de eu viver na rua me faz estar sempre pesquisando. Quando um número fracassa, não cai no gosto deles, eu fico perguntando para todo mundo: o que foi? E os caras me xingam na rua de verdade mesmo! Isso tudo eu procuro saber. Ainda falo uma outra coisa: revista que deu maior problema pra mim foi a do mensalão do mês passado. Deu uma problemada aí na rua.

 

Como é que foi essa edição que você destinou ao mensalão?

Na do mensalão foi assim: eu coloquei o presidente fazendo tudo aquilo que eu esperava que ele fizesse quando votei nele, quando eu acreditava nele. No caso do mensalão, não estou considerando outros assuntos em que ele fracassou ou que foi vitorioso. No caso do mensalão, o presidente que eu pensava, pois eu votara nele, era um cara troncudo, para resolver e dizer: “Qual é, cara? Vocês tão tirando dinheiro do povo? Vocês vão para cadeia!”. Eu esperava isso dele, se pintasse um mensalão ao longo do seu mandato. No entanto, eu não acredito que ele não sabia, eu não acredito e eu disse isso claramente na revista. Então coloquei o presidente pegando todos os corruptos, dando o maior pau neles e prendendo todo mundo. Essa revista sobre mensalão deu tanta repercussão que teve até uma agência  de publicidade que comprou mil exemplares.

Se ele recandidatar você vota nele?

Não. Se ele se mantiver do jeito que está não voto nele mais. Eu gostaria de votar nele,mas do jeito que ele está, não dá.

Você tem alguma mensagem para deixar para quem lê os seus quadrinhos?

A gente deve puxar pra gente  a responsabilidade da vida da gente. Nada de ficar pondo a culpa na mulher, na namorada: “(…) Ah! Porque você falou que eu deveria ter feito tal coisa, por isso deu errado…”nada disso, nada disso, você fez porque você quis. Eu assumi tal divida, não sei de contar de pagar, agora eu tenho que assumir comigo mesmo que eu tinha assumido isso. Ou seja, eu tenho que puxar para mim a responsabilidade da minha vida. Essa é a mensagem que eu dou. A partir da hora que você descobre você mesmo, que descobre que é                   responsável por você, você  fez a maior descoberta da sua vida. Se você não descobrir isso, vai dar com os burros n’água a vida inteira. Você vai ficar acusando todo mundo ao seu redor dos seus fracassos, mas  você ainda não descobriu você mesmo, então vai dar nisso. Quando eu descobri isso é que eu fui pra frente na vida.

Lucas Machado

Lucas Machado

Escritor, profissional de Marketing e Comunicação.

Anterior

Bar do Marcinho

Próximo

''Turco-Louco'' Cavaleira