DestaquesPaulo Solmucci

Casa Bonomi

Casa Bonomi

1

A CASA BONOMI E VINICIUS DE MORAES

Por Paulo Solmucci

Ao manifestar seu encantamento, a pessoa já dá inequívoco atestado de bom gosto. Aí, refiro-me ao bom gosto em todos os sentidos. Ou seja, na acepção plena dos sentidos humanos: visão, audição, paladar, tato e olfato. É um conjunto de elementos que somente se combinam entre si, em um todo harmonioso, quando a pessoa tem a capacidade deles se utilizar sem pressa e ansiedade. É a paz de criança dormindo e o abandono de flores se abrindo, na quietude da velha casa da infância, na qual as nossas memórias afetivas sempre moram.

Há pessoas que correm para os amigos aos berros e de braços escancaradamente abertos, como se o alarido e a exultação máxima fossem demonstrações do maior e melhor bem-querer. Há as que, a cada garfada, exclamam o prolongado ‘delíííciaaaa!’, ou espalham o mais sonoro ‘huuuummm’, atraindo para si o olhar dos que estão nas mesas próximas. Há os que provam o vinho com um estalar de língua no palato semelhante ao som de uma chicotada. Então, resumindo: essas pessoas não combinam com a Bonomi.

Na quietude ouve-se a murmurosa sugestão de Vinicius de Moraes: “Cala. Escuta o silêncio que nos fala”. É o silêncio olfativo do pão assando, da lâmpada pendendo do forro da casa, do jovem garçom sussurrando a pergunta sobre o que queremos comer e beber, de tocar com as mãos o frescor da mesa de madeira desnuda, do gesto cavalheiro da taça erguida ao brinde do amor e da amizade.

A Casa Bonomi leva-nos de volta à morada materna, aos passos no assoalho que range, ao interior do nosso interior. A bailarina do grupo Corpo, Paula Bonomi, decidiu que a instalaria em uma residência de 1902, próxima à praça ABC, do lado oposto ao da Igreja Presbiteriana, na avenida Afonso Pena. O ambiente é uma criação da arquiteta e figurinista do Grupo Corpo, Freusa Zechmeister. A abençoada padaria veio à luz em 1997.

Às vezes, quando se abre o céu claro e limpo na tempestuosa agenda, entro nela às oito da manhã. Sento-me à grande mesa central, sobre a qual estão as flores e os jornais, e de onde se vê, através dos janelões, os primeiros passos da cidade em direção ao trabalho.

Uma a uma, as pessoas vão chegando. Sentam-se em mesas exclusivas. Ou – como eu – fazem a opção pelo compartilhamento.

Cumprimentamo-nos com um ‘bom dia’. Depois, os nossos silêncios falam por nós, diante das fumegantes xícaras de café, dos potes de manteiga, dos bules de leite quente, das prodigiosas cestas de pães, em um carrossel de tangíveis e intangíveis texturas, cheiros, sons e sabores.

Para acessar a quietude e poesia da nostálgica casa materna é preciso, no entanto, abrir o portão da sensibilidade, cujo trinco, como escreveu Vinicius, ‘se oculta num lugar que só a mão filial conhece’.

 

Paulo Solmucci

Paulo Solmucci

Paulo Solmucci - Presidente da ABRASEL (Associação brasileira de bares e restaurantes).

Anterior

Berinjela Parmegiana

Próximo

Cintos Masculinos