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CALÇADAS

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OLHARES DAS CALÇADAS

Por Paulo Solmucci

Diziam que a tecnologia digital decretaria o fim do jornalismo. Que nada! Passadas mais de duas décadas desde que internet se espalhou pelo planeta inteiro, nunca se viu, leu e ouviu tanta notícia como agora.

O jornalismo escorre por um emaranhado de canais: smartphones, tablets, computadores, emissoras de rádio (algumas delas com notícia 24 horas), televisões abertas e fechadas (algumas delas também com notícias 24 horas). Pasmem: ainda existem notícias impressas no papel, tanto em jornais quanto em revistas.

O que de fato mudou foi o modelo de um negócio que antes estava baseado na escassez de informações e na predominância da plataforma do papel.

Há, hoje, um avassalador excesso de notícias. Isso faz com que o público exigente de credibilidade procure se guiar pela origem de procedência da informação, recorrendo às marcas jornalísticas em que confiam. A credibilidade passou a ter um valor ainda maior, alojando-se em um reduzido número de grandes empresas, cujas escalas lhes permitem formar grandes equipes e explorar, sinergicamente, o vasto leque multimídia.

Há muita mentira, fofoca, frivolidade e agressividade nas redes sociais. Como se pode distinguir o falso do verdadeiro? É indo às fontes que tratam a informação com rigor profissional.

Daí por que na essência do verdadeiro jornalismo estão a qualidade editorial e a ética. Isso implica uma rigorosa curadoria, conduzida por competentes e austeros editores, que administram um intrincado processo de captura e checagem das informações.

O que chega às redações é categorizado, classificado, hierarquizado, resultando em reportagens, e, adicionalmente, em análises e artigos. São equipes enormes. Basta assistir ao novo Jornal Nacional, da Globo, para que se veja o contingente dos profissionais envolvidos em um noticiário televisivo de qualidade.

O que ocorreu com o jornalismo, a partir da emergência da era digital, igualmente vem se passando em quase todos os setores de atividade.

Por exemplo: está em curso uma guinada no comércio varejista. O que antes era comprado apenas nas lojas, agora também é adquirido pela via do comércio eletrônico, online. Isso não significa, porém, que o varejo esteja em queda. Assim como se constatou no jornalismo, o varejo jamais se mostrou tão ativo no mundo inteiro quanto agora. A Amazon que o diga. O modelo de negócio é que vem sendo alterado.

Muitas lojas estão fechando as portas nos Estados Unidos, em uma onda que se espalhará globalmente. Cabem aí duas indagações. Com o declínio do comércio lojista, o que será das ruas? Serão cada vez mais vazias e perigosas?

Não, em absoluto. Os imóveis que se tornam ociosos acabam sendo reocupados por um extenso rol de segmentos culturais, sociais e comerciais: escola de idiomas, salão de beleza, oficina de tatuagem, academia de ginástica, bicicletário, galeria de arte, co-working etc. Mais e mais cafés, bares, lanchonetes, bistrôs e restaurantes abrem as portas para as calçadas.

É um fenômeno que não ocorre por acaso. Para que a reocupação esteja ocorrendo dessa forma, os urbanistas e as lideranças comunitárias canadenses, ingleses, colombianos, argentinos, japoneses ou coreanos têm se empenhado em promover o florescimento das conectividades humanas nas ruas das cidades.

E no Brasil? Nós, por aqui, estamos nos articulando para que as nossas ruas se tornem mais propícias aos relacionamentos humanos, mais atraentes, acessíveis, inclusivas, flexíveis, multifuncionais?

As boas cidades destes renovados tempos são identificadas por esta fascinante marca: a mescla humana do convívio coletivo. Para que se alcance tal patamar é imprescindível que as instituições se modernizem e a sociedade se desburocratize.

Uma das prioridades abraçadas por urbanistas e líderes comunitários, sobretudo no Hemisfério Norte, revigorar as cidades ao rés do chão, isto é, às situadas no nível dos olhos.

Ou seja: dedicando-se especial atenção à parte térrea dos prédios, por meio da criação de instrumentos e regulamentos sucintos e claros, que ensejem o fortalecimento da relação entre os andares térreos e a rua, ocupando-os com uma variedade de usos e usuários.

Quando os andares ao nível da calçada são inteiramente fechados, emparedam-se fachadas cegas, muradas ou espelhadas, que acabam se transformando em arapucas de marginais. A cidade viva requer que as edificações estabeleçam um diálogo com as calçadas.

Assim volto ao início do texto.

Se uma expressiva parcela do jornalismo impresso migrou para as telas, isso não importa. Se uma parte do varejo lojista passou para a internet, aí também não há problema algum. O que conta mesmo é a gente promover os necessários rearranjos para que nos ajustemos aos novos tempos.

A era da informação e do conhecimento se instalou entre nós, neste início de milênio, para que alarguemos a dimensão humana da humanidade. Vamos tirar o máximo proveito dela. Eis aí um assunto que pode render um bom papo de botequim. É como escreveu Fernando Brant para a música de Milton Nascimento: “nada de novo existe neste planeta que não se fale aqui na mesa de bar”.

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Paulo Solmucci - Presidente da ABRASEL (Associação brasileira de bares e restaurantes).

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