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As mulheres e os Sapatos

As mulheres e os Sapatos.

As mulheres e os Sapatos.

 

(Para viver seu sonho, um conselho: esteja divinamente calçada)

Engraçado isso. Existe uma coisa que fez o maior sucesso no lançamento do meu primeiro livro. E não foi o meu primeiro LIVRO. Foi o meu SAPATO. Quem acompanhou, viu. Era um tal de chegar de mansinho. Elogiar o projeto gráfico. A capa. Minhas palavras. Comentar sobre o tempo. Brincar com o meu sotaque. E dizer, bem no final da conversa: “Mas, e esse sapato?”

Ai, gente, impossível não registrar. Meu sapato causou tanto alvoroço que virou – claro! – o “sapato do lançamento”. Em todas as viagens, ele foi o primeiro a entrar na mala. A única coisa que – juntamente com os livros – eu não poderia esquecer. De jeito nenhum.

Minha prima (que observou o quanto as pessoas olhavam para o meu pé) me disse, no meio da confusão do evento: “Não se esqueça de escrever sobre isso.”

Cá estou… Lembrando de cada cidade. Cada livraria. Cada passo. No alto do meu salto, claro. Sapatos são – para as mulheres – mais que simples acessórios. Um tipo de intensificador de autoestima. Algo como ter um Brad Pitt a tiracolo. Exagero? Ah, não sei, não. Estou numa época em que prefiro um bom sapato a um homem mais ou menos. Pelo menos o sapato aumenta minha autoconfiança, e eu sei exatamente onde ele irá me machucar. ESTOU CERTA?

Mas o que não contei sobre o sapato em questão é que ele surgiu por um único motivo: eu não tinha como comprar uma roupa nova. Ainda mais para cada lançamento. Com a produção do livro, minha conta ficou zerada. A ponto de o gerente do banco me ligar, falar sobre juros de cheque especial e perguntar, no meio da conversa, como eu dormia à noite. (Que tal de camisola Victoria’s Secret, Fabiano?).

Nesse meio tempo… eu quase enlouqueci. E resolvi seguir minha teoria fashion de pessoa sem crédito: qualquer roupinha básica fica sempre perfeita quando acompanhada de um sapato fantástico. Pode parecer simples, mas NÃO FOI. O par de sapatos pelo qual me apaixonei era incrivelmente lindo. E incrivelmente caro. (Cadê alguém para me frear numa hora dessas?).

O resto da história vocês já devem adivinhar. Quando dei por mim, JÁ ERA. Escondi minha falta de vergonha debaixo dos óculos escuros. E gastei o dinheiro INTEIRO do boleto do condomínio em um exclusivíssimo Peep Toe Bootie de verniz nº 36. Ai, Meus Deus. Eram sapatos lindos. Altíssimos. Perfeitos. (Já contei que, quando tinha 5 anos, ganhei sapatos de verniz da minha madrinha e dormi com eles, durante uma semana?).

Bom, pelo menos dessa vez foi diferente. Ou quase. Com a consciência no chão, (embora eu estivesse nas alturas), comecei a achar que alguma coisa estava errada. Que futilidade era aquela, gente? É, nada fluía conforme o roteiro. AFINAL, PENSEM COMIGO: Eu estava me tornando uma escritora e – teoricamente – escritoras são profundas. Almejam entrar pra Academia Brasileira de Letras. E não para o Project Runway, CERTO?

Mas, por favor. Já escrevi um livro, agora me deem um tempo. Para realizar o sonho da vida da gente, temos que estar devidamente calçadas. (E não com uma sandalinha de quatro coleções passadas, não é mesmo?). Mais uma coisa aprendi com a Princesa de Rua (possivelmente ela se tornou maior do que EU, depois de publicada): pequenas obsessões existem para darmos folga às nossas preocupações. Seja um sapato. Novas cores de esmalte. Ou – até mesmo – um novo texto.

Afinal, somos mulheres, ou o quê? Um brinde às nossas obsessões. E aos momentos divertidos que elas nos proporcionam.

 

 

Fernanda Mello

Fernanda Mello

Escritora e compositora, Fernanda Mello ficou conhecida por seu blog Coração na Boca e por suas inúmeras letras para bandas como Jota Quest, Tianastácia, entre outros, incluindo sucessos como: “Só hoje, “O que eu também não entendo”, “Mais uma vez”. Autora de 4 livros (Princesa de Rua, O menino que queria abraçar o mundo, Amor na TPM e Amar é punk), Fernanda também conta com um canal de crônicas digitais no youtube, que somam mais de um milhão de acessos.

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