DestaquesPaulo Solmucci

Artur Almeida

Artur Almeida

Artur Almeida

Por Paulo Solmucci

ARTUR, A ÁRVORE E O FRUTO

É neste 27 de julho de 2017, minha data natalícia, que aqui escrevo. Aniversario quase dois meses e meio depois de Artur Almeida ter completado a minha idade de agora: 57 anos. Eu o conheci apenas pelo vídeo, embora conviva com amigos que lhe eram muitíssimo próximos, como o jornalista Lauro Diniz. Foi Lauro quem contratou Artur para o jornalismo da Globo Minas, isso no final da década de 1980. A partir da sede da emissora, no Jardim Botânico, o mineiro Alberico Souza Cruz então dirigia a rede de telejornais de todo o país.

Eu havia entrado no negócio de bares e restaurantes, junto com meu irmão Marcelo, depois de ter sido, como engenheiro e economista, integrante da área técnica da Companhia Vale do Rio Doce e do grupo diretivo da Líder Taxi Aéreo. E aí, então, passei a travar rotineiras conversações, nas mesas de fim de tarde, com Lauro, o jornalista Nirlando Beirão, o escritor Roberto Drummond e, nas vezes em que vinha a Belo Horizonte, com Alberico. Incontáveis horas de inesquecíveis bate-papos.
Roberto Drummond e Alberico haviam sido colegas de redação do jornalista Guy de Almeida no semanário O Binômio, que funcionou durante seis anos, até ser fechado pelos militares, em 1964. Como a vida dá muitas voltas, na eterna espiral dos tempos, o jovem Artur, recém-formado em jornalismo na PUC-MG, acabou sendo contratado pela Globo Minas, exatamente por iniciativa de Lauro, esse amigão de longas jornadas, participante das nossas rodas de conversa de bar, junto, como já disse, com Nirlando e Roberto Drummond.

Pois, embora nascidos no mesmo ano de 1960, com uma diferença de apenas dois meses e pouco, Artur e eu jamais nos encontramos pessoalmente. Apenas eu o via, nas telas, como um telespectador qualquer. Hoje, fico sabendo que Artur era discretíssimo, um profissional que levava uma vida disciplinada, mais ou menos no vaivém do trabalho para casa, e da casa para o trabalho. Isso explica o porquê de eu não ter estado com ele, embora me
fosse habitual a prosa com jornalistas, escritores, atores e músicos da cidade.

Todos os que o descrevem batem na mesma tecla: um profissional sério, mas com uma seriedade que, subitamente, surpreendia os interlocutores. De repente, sem mais nem menos, ele lançava uma tirada do mais inesperado e criativo bom-humor. E logo voltava o foco ao trabalho esmerado, perfeccionista. Quando recebia sugestões de pauta, encaminhadas por assessorias de empresários e políticos, descartava imediatamente aquelas em que entrevia algum ‘lobby’ velado e inconfessável.

Ainda que Belo Horizonte inteira o conhecesse, em um convívio diário por meio do MGTV – do qual era editor-chefe e âncora, apresentando o programa ao lado de Isabela Scalabrini -, Artur manteve-se, ao longo de toda a sua vida profissional, de mais de 30 anos, avesso às luzes das efusões festivas e dos palcos da cidade.

Segundo o depoimento de muitos que a seu lado trabalharam, o tempo todo expressava a mais aguda sensibilidade para as questões sociais, sobretudo em relação à grande maioria dos mineiros que vivem nas periferias urbanas, submetidos a um cotidiano de péssimo transporte coletivo, de escolas precárias, do esgoto que escorre a céu aberto, à porta de suas casas.

Artur faleceu, como infelizmente todos soubemos, no último dia 24, de ataque cardíaco, quando passava férias em Lisboa, ao lado da sua mulher e uma de suas duas filhas. Chegou a ser socorrido, mas morreu a caminho do hospital. Belo Horizonte e Minas mergulharam em uma tristeza imensa. É natural que se faça a pergunta: por que esse generalizado sentimento de profundo pesar, se o circulo de convívio pessoal de Artur restringia-se aos amigos dos tempos de universidade, aos colegas de trabalho, aos entrevistados da bancada do MGTV?

Eis a minha resposta: com aquele seu jeito de uma simpatia compenetrada, ele transmitiu, na soma de tantos e tantos anos de toneladas de notícias e comentários, os valores de que necessitamos no trivial de nossas vidas. A sua sabedoria esteve permanentemente nos seus gestos e nas suas falas. Como é que foi a formação desse Artur? É usual que se diga que o fruto não cai longe da árvore. Tal pai, tal filho. O pai é o jornalista Guy de Almeida. Artur tornou-se jornalista. E uma das suas duas filhas, Amanda, também é jornalista, escrevendo com Lydia Medeiros a coluna diária ‘Poder em jogo’, no jornal O Globo.

Lembro-me bem de uma frase algumas vezes repetida pelos jornalistas que batiam ponto nos fins de tarde daquelas mesas de bar: “O jornalismo é o exercício diário da inteligência e a prática cotidiana do caráter”. A frase calha à perfeição com Artur, descendente direto dessa magnífica escola da imprensa de alta qualidade, da qual Minas tornou-se um celeiro nacional.

Quando se fala de Guy de Almeida, estamos falando do líder de uma geração de talentos fenomenais da melhor imprensa brasileira, todos eles nascidos e formados em Minas, como Fernando Gabeira, Carmo Chagas, José Maria Mayrink, Fernando Mitre, Tales Alvarenga, Nirlando Beirão, Henfil, Fernando Morais etc etc etc. É muita gente.

Guy de Almeida chefiou e orientou, nos vários jornais que surgiram em Belo Horizonte, especialmente a partir dos anos 1950, uma boa parte de todo esse pessoal. Foi mestre dos mestres. Continua sendo permanente oráculo àqueles que buscam tirar dúvidas e mitigar incertezas, nestes tempos do emaranhado de caminhos escuros e tortuosos.

A gente está sempre envolto nas cobertas do berço. Munido da régua e do compasso, Artur tomou o seu rumo, com autonomia e autodeterminação. Fez o seu próprio caminho, com muito sucesso. É como escreveu Khalil Gibran: “Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas”. Ou seja: “Vossos filhos não são vossos filhos. São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma. Vêm através de vós, mas não de vós”.

Lauro Diniz me contou que Artur chegou a ser convidado para ser repórter do Jornal Nacional. Agradeceu, mas preferiu ficar em Minas, onde plantou e fez florescer a sua mensagem de justiça, paz e verdade, que é uma dádiva para as gerações presentes e futuras. Por isso, digo eu, acrescentando ao seu nome o complemento usado por seus mais íntimos amigos: ‘Obrigado, rei Artur’.

Leia mais:

CALÇADAS

Glutamato Monossódico

 

Paulo Solmucci

Paulo Solmucci

Paulo Solmucci - Presidente da ABRASEL (Associação brasileira de bares e restaurantes).

Anterior

YouTube Brasil

Próximo

Produtos para homens