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Amor e Psicanálise

Amor e Psicanálise

Amor e Psicanálise

Por Renata Lommez

O amor romântico, o feminino, o masculino e a psicanálise

Felizes para sempre só com a gente mesmo, não o tempo todo, mas para sempre. Renata Lommez, #FrasesNoDivã

Amour

1. Sentimento de afeição de um ser por outro, às vezes profundo, violento mesmo, mas sobre o qual a análise mostra que pode estar marcado de ambivalência e, sobretudo, que não exclui o narcisismo. Dictionnaire de la Psychanalyse, de Roland Chemama, (références Larousse)

O psicanalista francês Jacque-Alain Miller é autor de uma das minhas frases preferidas sobre o amor. Amar verdadeiramente alguém é acreditar que, ao amá-lo, se alcançará uma verdade sobre si. Ama-se aquele ou aquela que conserva a resposta, ou uma resposta, à nossa questão: Quem sou eu? Aqui Miller quer dizer que, quando amamos alguém, inconscientemente o que queremos mesmo é descobrir mais sobre quem somos. Por isso ocorrem processos identificatórios quando nos interessamos por alguém. Tem sempre algo nosso ali.

Veja a seguinte frase narcisista: Gostei de você porque temos o mesmo gosto. Traduzindo, gostei de você porque você é igual a mim, porque me reconheci em você. Projetamos no outro aquilo que inconscientemente desejamos ser, ou ter. Aquilo que nos falta e que temos a esperança de que esse outro venha para preencher. Jacque Lacan, outro grande psicanalista de forte presença em minha formação completa: Amar é querer ser amado, e vai além quando diz: O amor é sempre recíproco.

Essa linha de pensamento não se refere à reciprocidade de sentimentos. O que Lacan propõe é que, existe alguma coisa no outro que em mim provoca o amor, algo com o qual eu me identifico, mas que vem desse outro. Quando falamos para alguém, por exemplo, que o seu sorriso nos conquistou dizemos também da responsabilidade desse alguém nesse processo, da reciprocidade sentida a partir de alguma coisa que vem dele, nesse caso o sorriso.

Para amar é preciso reconhecer em nós mesmos nossa falta, falta sempre alguma coisa, nos falta inclusive saber quem somos. E se buscamos isso no outro através do amor precisamos olhar para ele e reconhecer que a necessidade dele existe. É preciso reconhecer que não se ama só. Por isso vemos tanta gente que não sabe amar. Gente que crê na sua completude. Gente que considera não precisar de ninguém. Gente que muitas vezes vive na famosa solidão a dois, quando não está sozinho de verdade. É importante não confundir essa auto-suficiência com a sabedoria em saber viver bem em tempos solitários.

Talvez grande parte dos homens tenha se identificado com a descrição de completude. E não é assim o masculino? O masculino não tem a necessidade de preencher lacunas o tempo todo. O masculino quando está focado no trabalho é só o trabalho e nada lhe falta. Amar feminiza, disse também Alain Miller. Pode parecer meio ridículo homem apaixonado, porque só se ama verdadeiramente a partir de uma posição feminina. E por isso quando pequenos, os garotos são muitas vezes são chamados pelos coleguinhas de mulherzinha.

Não é à toa. A falta, a castração (o homem desde cedo pode tudo, a mulher não), a ausência de algo que não se sabe ao menos nomear, a busca pela metade, são características essencialmente do feminino. E ratificando essa ideia de o amor ser inerente ao campo do feminino, Camille Paglia disse em uma de suas frases polêmicas: As mulheres pedem aos homens que eles sejam o que não são e, quando eles se tornam o que não são, elas não os querem mais. Em outras palavras, ela diz que as mulheres sufocam os homens. Uma referência ao tema do amor romântico.

De acordo com Paglia* as mulheres querem que os homens sejam como elas, que se encaixem em seu modelo de comportamento. Querem que eles sejam quase uma melhor amiga. E que para conseguir lidar com isso os homens precisam estar com outros homens, jogar bola, falar de pornografia, viver o masculino. Precisam ser homens, não um ser castrado.

Miller fala também sob essa ótica em entrevista para Hanna War, da Psychologies Magazine: os homens, mesmo quando apaixonados, têm assaltos de agressividade contra o objeto de seu amor, porque esse amor o coloca na posição de incompletude, de dependência. É por isso que pode desejar as mulheres que não ama, a fim de reencontrar a posição viril que coloca em suspensão quando ama.

Será então verdade que quanto mais um homem ama uma mulher mais intocável ela se torna e, mais maternal se torna esse amor? Será verdade que quando uma mulher se prende a um só homem ela o castra? O impede de ser masculino, o impede em suas características, toma sua liberdade? Seria essa teoria a total degradação e impossibilidade do amor?! Parece que sim. O amor romântico se encontra em declínio, resume a psicanalista Regina Navarro Lins.

O movimento da sociedade em busca do direito de SER e o novo papel da mulher e do homem na cultura têm mudado toda essa configuração. Ainda de acordo com Regina foi a introdução do amor romântico no casamento que desencadeou tantas separações. Hoje as pessoas estão mais interessadas em descobrir e viver sua individualidade, a liberdade de buscar internamente os próprios desejos, sem o controle alheio e, sem precisar estar solteiro.

Outra mudança significativa quando falamos em amor se refere aos papeis masculino e feminino. Existe uma necessidade urgente em falarmos sobre casais de seres humanos ao invés de casais homo ou heterossexuais. Ainda assim cada indivíduo que compõe um par terá sua característica no modo de se relacionar, ativa ou passiva.

A verdade é que na intimidade do consultório e no sigilo clínico alguns temas mudam lentamente. A bandeira voltada para a importância do Eu e o equilíbrio nas relações é cada vez mais levantada, mas ainda é recorrente a necessidade de outro para preencher o vazio existencial e inerente a qualquer ser humano.

Quem de nós já não viveu a ambivalência entre ódio e amor e os desencontros a que estamos sujeitos quando enamorados? Quem já não esteve em busca da chave para o amor verdadeiro, da porta certa para sair do labirinto que faz de nós amantes condenados a buscar eternamente a tradução dessa linguagem que, apesar de universal é feita de códigos a serem decifrados. No fim das contas amar é só para quem tem coragem. Afinal, como diz minha grande amiga e parceira, Amar é punk! (Fernanda Mello)

*Revista Veja, paginas amarelas, Março de 2014

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Renata Lommez

Renata Lommez

Renata Lommez é Psicóloga/Psicanalista clínica desde 1994 quando também iniciou sua formação em Psicanálise, passando pelo Círculo Psicanalítico de Minas Gerais, Escola de Saúde Mental e Escola Brasileira de Psicanálise. Foi colunista titular de Psicologia na Editora Abril entre 2006 e 2011.

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