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A melhor parte

Por Débora Blanda

A melhor parte

 

A melhor parte

Mineiros como eu guardam o melhor pedaço para o final. Pode ser um pedaço de carne ou a parte com mais cobertura de uma sobremesa, seja qual for a refeição, guardo o que eu acredito ser a melhor parte para o final. De uns tempos pra cá tenho guardado mais coisas,como aquela última mordida, preciosa e especial, guardada até o final do prato para deixar aquele gostinho bom na boca, tenho guardado beleza e felicidade.

É diferente, eu sei, guardar momentos especiais e deixar a comida mais gostosa pro final. Mas vamos comentar as semelhanças primeiro: um bom prato é tão prazeroso como um instante de felicidade, quanto a beleza admirada. Nos dois casos você aproveita a experiência por completo; mesmo guardando uma mordidinha pro final, você degusta o que é mais gostoso durante toda a refeição.

E nos dois exemplos é tão bom quanto breve; a refeição de ontem não te satisfaz hoje. A melhor parte põe fim a refeição e o momento de felicidade é tão bom quanto efêmero. Você contempla, desfruta e aí acaba.

A diferença é que momentos de felicidade não dá pra escolher em um cardápio, não dá para separar no cantinho do prato e degustar quando quiser. Eles acontecem – e passam. Mas ao contrário da última garfada, o momentinho fica eternizado em forma de sentimento, memória e as vezes fotografia também. E uma boa comida pode ser contada como exemplo desses momentinhos.

Pra mim esses momentinhos vem quando adoro o Criador, quando a adrenalina se junta ao ventinho no rosto, no refrão preferido, no riso alto com os amigos, na segurança do almoço em família, e quando contemplo a criação.

Momentinhos como esses vem quando vejo gente disposta a fazer coisa boa (mesmo quando o bom não é o mais fácil), quando eu descubro que não sou a única me sentindo assim, seja lá como assim assim seja, eles vêm quando há beleza, na contemplação desse vazio pintado com estrelas, na tentativa de assimilar todos tons de um pôr do sol, de acompanhar a onda que se forma até que ela se quebre.

Felicidade é apreciar céu, águas, a vida que cresce da terra. Momentinhos como esses não tem restaurante que ofereça, não tem garçom que traga. Mas momentinhos como esse podem ser perseguidos. Cabe a mim limpar a agenda pra ver o por do sol, para parar observar e sorrir, principalmente no meio de um dia corrido. Cabe a mim cultivar por perto pessoas que vão proporcionar momentinhos como esses.

Momentinhos não podem ser planejados; você pode buscar um belo por do sol e só achar nuvens de chuva. Mas existem situações e contextos que atraem momentinhos especiais, e esses sim devem ser buscados. Tive a oportunidade de viver vários momentinhos nas últimas horas, mas como quem guarda um último pedaço no cantinho do prato, guardei esses meus momentinhos só pra mim.

 

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