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A garota Scarlett

A garota Scarlett

A garota Scarlett

Destrinchando

Por Victoria Wall

Contos sobre Scar
18 de junho de 2012, 10.30 da noite
Scarlett não era uma garota qualquer dessa cidade.
Ela era a garota mais bonita de toda a cidade. Eu a via andar de bicicleta pela bairro todas as sextas-feiras.
Ela andava livremente com seus amigos, os meninos gritavam e jogavam latas de cerveja um para os outros enquanto ela ria e deixava com que seu vestido levantasse mostrando sua calcinha branca como seu pele.
A primeira vez que eu a vi foi quando eu estava saindo de casa e todos os seus amigos estavam passando, ela parou e me olhou nos olhos.
– você é novo aqui?- sua voz era como a de um anjo, seus cabelos fazia com que seu rosto fosse destacado.
– vim de Dallas, tem um mês.- sorri ao vê-la passar as unhas em seus lábios, ela sorriu e desceu da bicicleta.
– Scarlett Olsen.- ela sorriu me estendendo a mão.- seja bem-vindo senhor da cidade grande.
– Harry Jones.- estendi minha mão e ao tocar aquela pele de pêssego foi como um choque para mim, ela seria o meu fim.- você é filha do prefeito?
– Roger Olsen, sou filha dele mesmo.- seu sotaque de interior apareceu, ela era realmente magnífica.- acho melhor..- ela olhou para baixo pegando em sua bicicleta.
– pode ir, nos vemos por aí.- ela subiu em sua bicicleta e acenou para mim enquanto pedalava para longe.
– até mais senhor Jones.
Eu entrei em meu carro e me perdi em pensamentos. Todas as imagens vinham a minha mente, como a boca dela envolvia as palavras, como suas mãos apertavam tudo que tocavam, como sua expressão mudava de segundos em segundos.
Quando cheguei em meu estúdio peguei o primeiro cavalete e comecei a esboçar seu rosto, era tão angelical que nenhum quadro poderia prendê-lo.
Depois daquele dia  fiquei lá dentro durante dois dias.
25 de julho de 2012, 2.04 da manhã
Algumas semanas depois, em uma madrugada de chuvas de julho uma batida desesperada soou em minha porta, me levantei deixando meu copo na mesa.
Scar estava toda molhada tremendo a minha frente.
– senhor Jones, preciso da sua ajuda.
– pode entrar Scarlett.- dei espaço para ela e logo fechei a porta.
Corri até o armário e peguei uma toalha para ela. Enquanto colocava-a em seus ombros vi o vergão em seu rosto.
– você está bem?- perguntei com medo da resposta.
– não.- seus olhos encheram-se d’água, ela em um movimento rápido envolveu seus braços em minha cintura.
– o que houve Scarlet?- disse pousando meu queixo no topo de sua cabeça.
– meu pai me bateu.
– ele não pode fazer isso.- respirei seu perfume, era forte, bem forte.
– mas ele faz.- seus braços pareciam que havia sido feitos para o meu corpo, moldados desde a criação. Eramos tão estranhos um para o outro e ao mesmo tempo tão conhecidos, parecia que ela me conhecia ha séculos.
Ela tomou um banho e trocou de roupa, ao descer pelas escadas ela parecia um sonho, eu estava sonhando acordado sem saber. Imaginando o dia em que ela desceria as escadas todos os dias de manhã.
– você nasceu aqui?- perguntei colocando açúcar em minha xícara.
– sim.- sua voz soou baixa enquanto ela olhava a sala, suas pernas cruzadas no sofá enquanto o cobertor as cobria com ternura.- e você? Nasceu aonde?- seus olhos castanhos se abriram enquanto ela tomava o líquido quente.
– nasci na Inglaterra.
– eu deveria ter reconhecido pelo seu sotaque.- ela riu, seu riso parecia o som de uma cascata. Ela era linda.- então senhor Jones… O que você faz pela vida?- ela sorriu bem devagar e bem pouco enquanto me olhava nos olhos.
– sou um artista.
– eu perguntei o que você faz pela vida e não o que você faz nela.- ela sorriu enquanto seus lábios envolviam as palavras que mudariam meu ser por muito tempo.
Em alguma parte da noite ela adormeceu, eu fiquei a observá-la acho que durante a noite toda, de vez em quando seus lábios deixavam soltar pequenos sons, ela se virava um pouco e voltava a dormir.
Em alguma parte da noite eu também dormi.
 17 de dezembro, 4.45 da manhã
Ela andava sozinha à noite. Ela sonhava sozinha em sua cama. Ela tinha o sorriso mais encantador do mundo. Ela era forte. Ela era frágil. Ela havia se tornado a flor mais bonita do meu jardim.
– por que tantas tatuagens?- seus olhos passaram pela andorinhas e depois para meus braços, seus dedos frios me tocando com delicadeza.
– todas as vezes que eu queria desistir da vida eu resistirei em meu corpo.
– todas simbolizam algo ruim?- seus olhos preocupados pousaram nos meus enquanto sua mão apertava a minha.
– nem todas.
Todas as tardes de sábado e domingo ela me encontrava, isso desde o verão passado. Ela gostava de chá sem açúcar, segundo ela doce em chás tirava o verdadeiro gosto, eu por outro lado gostava de café amargo. Ela aparecia normalmente as dez da manhã, tomávamos e chá e depois ela me acompanhava até meu estúdio. Ela queria ser escritora, garota com tudo pela frente e eu, homem de 40 anos um artista mediano.
– “seus olhos eram verdes como a floresta, suas mãos eram amorosas como o ar que toca meu rosto. Todos os dias à noite eu meu sinto sozinha por não estar ao seu lado, ele tinha o coração de cigano e a alma livre. Artista de estações, dono do meu coração.”- ela recitou atrás de mim. Era sempre assim, eu pintava o dia todo enquanto ela recitava coisas para mim ou então escrevia.
– para quem é esse poema Scar?- perguntei me virando para ela limpando minha mão na camisa.
– para alguém que eu conheci no verão passado.- ela sorriu fechando seu livro.
– ele é uma pessoa de sorte Scar.
– ele tem sorte por ter uma alma tão bonita Harry. E o pior é que ele nem sabe o quão bonita são as flores que ele tem dentro dele. Não sabe o quanto sua idade lhe acrescenta, não sabe o quanto seus olhos refletem seu coração, e por fim não sabe o quanto eu o amo.- ela estava olhando para seu livro, suas mãos se embolando na capa. Ela era tão bonita, e eu não me cansava de dizer isso para mim. Ela era a pessoa mais bonita que já existiu, eu tinha sorte de tela perto de mim.
– Scarlet.- suspirei enquanto olhava para ela.
– idiotice minha pensar que um homem de 40 anos me amaria tanto quanto o amo.- ela sussurrou ainda olhando para o livro. Meu coração gritava “eu te amo mais do que você imagina!”, mas minha mente gritava para que eu a deixasse ir, ela era o meu oposto, ela tinha a vida pela frente, eu não deixaria meu egoísmo tomar a frente de uma pessoa tão especial quanto Scarlet.
Eu cruzei meus braços pois se os deixasse soltos eles iriam correr para ela e abraçá-la com todo o meu ser.
– eu vou embora Harry.- se levantou e pegou sua bolsa, eu a vi partir e não pude fazer nada.
Naquele dia eu destruí meu estúdio, destruí todos os desenhos e no meio daquilo achei a tela que eu havia pintando seis meses atrás no dia em que aquele anjo dourado entrou em minha vida.

 

22 de dezembro
A casa de Scarlet era uma grande casa duas ruas depois da minha, seu quarto ficava no porão e através de vários relatos eu sabia que tinha uma porta que ela deixava aberta todos os dias antes de chegar da escola.
Escrevi uma carta e fiquei o dia todo do lado de fora de sua casa, esperei seus pais saírem de casa e sorrateiramente entrei pelas portas dos fundo.
Seu quarto era decorado com luzes e desenhos por toda a parte, uma cama grande com lençóis bagunçados. Vários livros no chão.
Coloquei o quadro em sua escrivaninha junto da carta.
Ela ainda guardava todos os desenhos que eu havia lhe dado.
4 de janeiro, 4.30 da manhã
Scarlett era como o vento, soprava quando queria, mas quando soprava era forte ou até mesmo fraco mas marcante.
Ela era a brisa de verão que havia chegado sorrateiramente em minha vida, chegou de uma forma que me tornou completo pela primeira vez. Ela era profunda como o oceano, mas cristalina como um rio.
A campainha soou em uma madrugada fria de janeiro, dia 4 de janeiro, 4.30 da manhã. Eu sabia que era ela.
Assim que eu abri a porta uma garota veloz como o vento pulou em mim, me abraçando e tomando os lábios. Ela era doce como o mel.
– feliz aniversário Scar.- sorri enquanto fechava a porta atrás dela, seu sorriso maior que a lua cheia que residia no céu.
– obrigada H.
– você está especialmente linda garota.- meus dedos seguravam seu rosto enquanto meus lábios beijavam os seus delicadamente.
– o senhor está especialmente lindo também senhor Jones..- seus olhos me encaravam enquanto sua boca se curvava em um sorriso.
– você sabe que eu fico louco por quando você me chama de senhor Jones..- beijei seus lábios enquanto puxava sua perna para cima encaixando-a em minha cintura.
Naquela noite eu a tornei minha, completamente, inteiramente, loucamente minha.
Quando seus olhos marejaram por dor, beijei suas lágrimas, ela sorriu.
Eu sabia que era errado, um homem de 40 anos  com uma garota de apenas 17. Chegava até a ser doentio.
Eu era doente.
Ela era também.
De noite quando eu ficava sozinho meus olhos se voltavam as memórias.
De como ela era a pessoa certa para mesmo sendo tão diferente. Eu está desesperadamente apaixonado, ela me intoxicava com suas palavras e o único momento que eu ficava feliz era quando eu estava com ela. Meu sorriso era algo que lhe acompanhava, e eu parecia oco quando ela não estava em meus braços.
Era estranho pensar que eu havia demorado 40 anos para achar alguém que me fizesse sorrir, que me fizesse querer falar e não guardar tudo para mim.
Depressão.
Esse era o rótulo que eu caminhava.
Aos 15 anos de idade eu ganhei esse vidro de remédio que diziam que iriam me curar da minha extrema tristeza.
Eu ficava triste por nada, e do nada. Era horrível.
Esse farto me acompanhou até o dia em que eu a conheci.
Parecia que o elefante do quarto desaparecia quando ela entrava, parecia que meus demônios se espantavam quando ela falava. Ninguém me assombrava mais.
Ela era a luz da primavera que me acordou do inverno da minha alma.
O pássaro da paz que acalentou meu coração.
Todas as vezes que eu via o sol nascer com ela deitada em minha cama eu me admirava com a magnitude do mundo, como tanta coisa havia mudado em tão pouco tempo.
Ela havia me feito o homem mais bonito e feliz em tão pouco tempo.
Eu já havia passado por momentos muito sombrios, e por esses motivos não conseguia ficar com ninguém.
Eu tive uma filha quando tinha 20 anos.
Seu nome era Susana.
Ela era o raio de luz em minha vida, o sol que esquentava o meu ser, ela era pura, e me fez incondicionalmente feliz.
– essa era a Susana.- mostrei a foto da garotinha de cachos e olhos verdes como os meus.
– ela era linda.- Scar sorriu ao olhar a foto.
– ela é o ser mais puro que eu já conheci na minha vida toda.- sorri ao olhar para seu rosto, eu dava qualquer coisa para que eu que tivesse sido levado, e não ela.
– como ela morreu Harry?
– ela não morreu. Quando ela tinha quatro anos invadiram a minha casa e a levaram.- meu sorriso havia desaparecido, eu não podia acreditar que o meu anjo estava morto. Ela estava por aí, e eu, um dia iria reencontra-la.- eu tentei me matar depois que a levaram. Me separei da mãe dela e me mudei para uma floresta.- Scar me olhou com lágrimas nos olhos enquanto estava com a foto em sua mão.
– você ainda vai acha-la H.- sua mão pouso em meu peito onde o coração ficava.- ela é igual a você.
– ela é muito mais bonita que eu Scar.
 Seus pais chamavam-na de Scarlett, seus colegas se referiam a ela como Jazz, nos corredores da escola ela era Lizzy e nos meus braços ela era Scar.
1 de fevereiro, 5 da tarde.
– sua alma é como o oceano Scar.- sussurrei enquanto suas mãos passeavam em meus cabelos.
– eu prefiro ser como o céu, tão longe e tão perto ao mesmo tempo. Ele traz a impressão de ser calmo mas dentro de si carrega a tempestade mais tortuosa.- ela era a garota mais hábil com palavras que eu já havia visto. Meu coração se alegrava todas as vezes que seu sorriso chegava ao meus olhos. Amor da minha vida, fogo dos meus pecados. Toca em minha alma onde ninguém ousou tocar. Queima meu passado, faz parte do meu presente e constrói meu futuro.
20 de abril, 5 da manhã
Era mais um amanhecer e seus cabelos emolduravam seu rosto relaxado ao dormir, seus lábios formavam um coração delicado e perfeito. Ela era a luz da primavera que chegava de mansinho e entrava pela janela, ela era a brisa de verão que refrescava seu corpo, ela era o grito de liberdade que me possuía no momento.
Ela era livre, e aos poucos ao longo de um ano havia me tornado livre. Somente a ideia de não te-la ao meu lado me matava, me desesperava.
Sai da janela e beijei seus lábios que ainda dormiam.
– que horas são?- ela disse ainda com os olhos fechados, seu hálito batendo em meu rosto.
-5h da manhã, venha ver o nascer do sol comigo Scarlett.- beijei seus lábios de novo, ela se virou e se levantou devagar mantendo-se sentada.
Cheguei mais perto e passei minhas mais por debaixo de seu joelho e a outra em suas costas  levantando-a. Sua cabeça se manteve em meu peito enquanto eu a sentava no parapeito da janela.
– é o nascer do sol mais bonito do ano.- minha voz saiu um pouco mais pesada e rouca, beijei seu rosto enquanto abraçava-a por trás.- foge comigo?- disse em seu ouvido baixo o suficiente para que só ela escutasse.
– o que?
– foge comigo, vamos nos amar sem limitações Scar.- continuei a abraçava-la.
– você sabe que eu não posso H.- ela sussurrou.
– Você pode, só não quer.- soltei-a e me afastei.
– agora você vai fazer isso?- ela se virou soltando o lençol que a cobria.
– isso o que Scarlet?!
– você vai se fechar só por eu não fazer o que você quer Harry?
30 de novembro
Seu pequeno corpo se movia contra o meu, suas costas de encontro com meu peito enquanto minhas mãos estavam em sua cintura e meus lábios conectados a seu pescoço. Seu cheiro era forte, um perfume forte e amadeirado, seus cabelos estava ligeiramente postos de lado.
A música estava tão alta que eu podia senti-la em meu peito, era uma das melhores sensações do mundo depois de ter a Scar.
Ela estava com os olhos fechados aproveitando enquanto os meus não saiam dela, o ser mais belo que já havia existido.
Depois de nossa briga concordamos em nos ver nessa boate aqui em Dallas, ela estava machucada mas eu me estava mais ainda, fazê-la se afastar era a única coisa que eu não queria, e, finalmente eu havia conseguido fazê-la voltar para mim, o lugar dela.
 Depois que ela deixou a minha casa naquele dia eu fiquei ligeiramente descontrolado.
Eu a seguia em toda a cidade, deixava dezenas de desenhos em sua janela, e quando completaram-se 3 meses que ela não olhava para mim fiz questão de começar a namorar sua vizinha, todas as vezes que transávamos era de janela aperta para que Scar visse tudo. Eu estava realmente descontrolado.
Todas as vezes que eu transava com a vizinha eu pensava que era ela, a garota com os olhos cor do céu.
Depois de algum tempo ela começou a ficar mais calma e não jogava meus desenhos fora, até o dia em que eu estava a observando da casa ao lado e a vi com um garoto.
Ela o sentou de costas a janela e se sentou em seu colo me encarando enquanto o beijava.
Graças a Deus os pais dela não estava lá, eu sai da vizinha e arrombei a casa dela. Obriguei o garoto a ir embora e depois finalmente conseguimos conversar.
E agora estávamos aqui, em uma boate minúscula em Dallas, passando o final de semana enquanto os pais dela estavam no Norte.
A virei de frente e beijei sua boca com mais desejo que qualquer outra vez.
– você é realmente o inferno na terra Scarlett.- ela sorriu e depois me beijou mais uma vez.
Eu me arrependia do que eu fiz á ela dormindo com a vizinha, porra! Eu nem lembrava do nome da garota que eu transava todos os dias.
Todas as vezes que eu estava com ela eu olhava para seus olhos e tentava imaginar a Scar, meu coração estava tão quebrado que nem a cola mais forte que existiria poderia cola-lo.
Scarlett era a mulher da minha vida, não importasse o tempo que passasse, com qualquer outra mulher que eu estivesse, sempre seria a Scarlett.
De repente ela parou e congelou sob meu beijo.
– ele está aqui.- sua voz era quase inaudível devido ao alto som. Olhei ao redor e não vi ninguém.- Brian  está aqui.- ela segurou em minhas mãos e me puxou para longe do garoto, era tarde demais, ele havia nos visto.
Quando estávamos saindo da boate senti uma mão segurar meu braço.
– então você é o cara que anda comendo a Scarlett?!- sua voz era agressiva e penosa, uma raiva emergiu em meu peito, eu não estava só comendo a Scar, eu estava amando-a.
– olha como você fala dela!- gritei chegando mais perto dele.
– agora você é o todo poderoso né?!- ele me empurrou me fazendo perder o equilíbrio.
Em meio segundo eu estava em cima dele, e em mais meio segundo seu sangue estava em minhas mãos. Minha visão havia ficado completamente turva, só  via o sangue sair dele e o meu desejo era vê-lo jorrar. Ele nem se mexia, eu não entendia, eu sentia duas coisas, minhas mãos em contato com o rosto dele e outras mãos me puxando pelas costas.
Até que mãos mais fortes me tiraram de cima dele, olhei ao redor ofegante vendo um homem mais alto do que eu me segurar, olhei para o lado e vi Scar chorar desesperada.
Olhei para as minhas mãos e vi sangue cobrindo-as todas. Passei-as em meu rosto e olhei de novo para Scarlett, ela falava comigo mas eu não escutava.
Peguei em sua mão e a puxei para o carro que estava ali perto, ela continuou chorando, eu só conseguia vê-la como um borrão.
– você…- eu tentava falar apertando minhas mãos no volante.- você…- minhas palavras não saiam. Parei no acostamento.- você não pode voltar para casa.- finalmente saiu tudo. Eu olhava para seus olhos e procurava esperança, eu havia fodido com tudo, tudo estava perdido. Eu via sua boca se mexer mas nenhum som saia de lá.
– não.- foi a única coisa que eu escutei.- você quase o matou Harry! Eu tenho que voltar para casa.- ela chorou logo em seguida, eu a escutava agora.
Apertei minhas mãos no volante e comecei a tentar a pensar em algo, eles iam saber de nós agora, aquele pivete sujo iria contar tudo e a minha Scar seria levada de mim.
Eu parei em frente ao hotel que estávamos e tranquei as portas do carro.
– você sabe que não vamos ficar juntos mais Scarlett.- aquelas palavras me machucaram mais do que qualquer coisa que eu já havia passado na vida.  Eram facas sendo enfiadas em mim e cacos de vidro entrando devagar por debaixo de meus dedos.
– como assim?! Nós vamos continuar juntos, vamos ser felizes!- seus soluços eram tão altos que a sua voz saiu sufocada. Peguei seu rosto delicadamente em minhas mãos beijando todas as lágrimas que escorriam deles.
– Scarlett, você só tem 18 anos, eu tenho 41. Nosso amor é proibido.- ela chorou mais, desesperada por colo, desesperada por uma saída, por um lugar onde ela poderia ser cuidado. Eu a amava demais, e a amava o suficiente para nunca mais vê-la.
– Harry, nos nós pertencemos, você é o amor da minha vida, você me fez parar de me odiar, me fez ver que eu não sou um nada, me amou Harry. Por favor não me deixe.- sua cabeça residia em meu peito enquanto suas lágrimas caiam em minha blusa, senti seu cheio por uma das últimas vezes. Ela era o amor da minha vida, ela fez florecer flores em meu peito, me amou até o último suspiro, ela me fez não querer me matar. Ela me fez querer viver só para vê-la.
– eles vão descobrir de nós assim que chegarmos, eu provavelmente vou preso e você nunca mais poderá me ver. Vamos aproveitar essa noite, só mais essa noite e então seguimos caminhos diferentes.- beijei sua boca delicadamente sentindo o gosto salgado de suas lágrimas, aquilo partia mais meu coração do que o dela. A luz da minha vida seria apagada, e por fim levada de mim.
Ela quis começar a falar mas fiz um sinal de silêncio em seus lábios, a única coisa que escutávamos agora eram seus soluços.
sai do carro e abri sua porta pegando-lhe a mão.
Ela se aconchegou mais perto de mim e fomos para dentro do hotel, passamos a entrada e entramos no elevador, ela só me soltou quando entramos no quarto indo despir-se.
Parei atrás dela meu ser refletindo no espelho.
Ela já nua subiu o olhar para o meu.
Nosso reflexo era tão lindo, nós dois, uno. Ela me fazia a melhor pessoa do mundo, e agora deixá-la me despedaçava assim como me despedaçou o dia em que minha filha foi embora.
O tempo passava mas não sentíamos, estávamos só observando o que não veríamos mais, guardando no coração todo e qualquer detalhe de nós, não um do outro, mas de nós.
Aquela garota de 18 anos.
E eu, o homem de 41.
A rosa florescente do jardim mais lindo que um dia eu poderia ter pintando.
O sol que raiava mesmo de madrugada, aquele que nasce de mansinho mas é tão belo.
Ela nasceu esse sol dentro de mim, e agora.
Agora esse sol estaria todos os dias em meu peito.
sua cabeça estava apoiada em mim.
Sua alma era quieta agora.
Eu tinha medo, medo do que estava por vir.
Ela era a coisa mais bonita que já havia me acontecido, ela era o universo que eu havia esperado.
Ela me fez perceber o motivo de não ter dado certo antes.
E agora ela iria embora.
Observei seus cabelos e me concentrei em sua respiração, como ela era linda.
5 de dezembro, 6 da manhã.
– fuja.- sussurrei através da janela do carro.
– eu vim me despedir.- ela disse somente se inclinando para um beijo, depois daquele dia seu pai apareceu em minha casa armado, prometeu me matar se voltasse á essa cidade, pegou Scar de meus braços e agora estávamos nós parados no final da cidade no escuro se despedindo. Eu entendia o motivo dela não querer fugir comigo, ela tinha uma vida toda pela frente. 18 anos completos e já amava intensamente.- mas não vou me esquecer de você.- sua mão me puxou para mais, o último beijo que eu daria no amor que eu chamava de vida.
– eu também não vou me esquecer de você Scar.- sussurrei dando beijos em suas lágrimas sofridas, ela se afastou da janela e começou a andar para longe do carro. Quando já estava do outro lado um estrondo foi escutado.
Seus olhos arregalados pousaram em mim enquanto um grito agudo repousou em meus ouvidos, olhei para baixo vendo uma poça de sangue em minha barriga. Sem entender levei minha mão até ali e vi que era eu o machucado ali.
Um homem correu para o lado do carro que Scar estava. Ela tentava me ajudar mas o homem a levou pelos braços enquanto ela gritava e tentava se soltar.
Eu dirigi.
Fui até Dallas sentindo uma dor desumana, mas ao chegar no hospital a única coisa que eu podia pensar eram nos olhos dela.
7 de janeiro, três da tarde.
Ao me sentar na mesa não pensava que ela viria mesmo, depois de tantas vezes tentando convencê-la para vir ficar comigo, ela tinha aceitado.
E ao vê-la entrar pela porta meu coração respirou de novo.
Eu senti de novo.
“Hoje a garota de vestido não voltou para casa.
A rua era tão encantadora que seus lábios não voltaram para o labirinto de seu ser.
Ela via gatos pretos andando ao seu redor só por distração e via a rotação da terra ao seu redor como divertimento.
O riso que ecoava em sua mente e voz era suficiente para fazer a casa estremecer, só os passos decididos e às vezes bambos faziam o chão se partir em milhares de pedaços pequenos como seu coração.
Ela tinha os cabelos arrumados no começo mas já para o meio ou final já não existia nada de certo dentro dela.
Pela primeira vez ela não teve que gritar para ser ouvida pois a música da vida era baixa, ela falava para si mesma enquanto a música da alma tocava seu corpo.
A garota bamba e torta andava pelas ruas procurando o que ela chamaria de lar naquele dia, pois lar nada mais é do que pouso passageiros e instável, gaiola de pássaros que não têm o céu como casa.
Ela tinha em seu peito a força de milhares de andorinhas que migravam para o norte no inverno incerto, suas mãos era trêmulas mas muito certas do que queriam enquanto sua voz era o som que preenchia o tempo e espaço.
Ela navegava nos labirintos do seu ser enquanto se deixava levar pela chuva que caía no mundo e assim que a chuva apertava seu passo só alargava e seu corpo se molhava de milagres densos como o nada.
A garota não voltou para casa, sua mãe não sentiu saudades, seu pai não se lembrava, sua vida não lhe pertencia mais, era só mais uma no oceano sem fim da eternidade escondida no horizonte nascente.
Ou raiar do sol outro sol raiou em seu ser, ela era livre das correntes que lhe aprisionavam na gaiola de seu peito, suas mãos não tremiam mais e sua voz deixou de ser arrasadora.
A garota não voltou para casa mais.
E pela primeira vez perguntaram:
Que horas ela volta?”
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